A Chave Reserva

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Quando Roberto entregou a chave reserva de casa ao vizinho, não houve cerimônia.

— Guarda para mim? Se algum dia eu me trancar para fora, pelo menos não preciso chamar chaveiro.

Paulo recebeu a chave, colocou numa pequena caixa de madeira que ficava sobre o armário da cozinha e respondeu:

— Pode deixar.

Moravam lado a lado havia quase nove anos. Não eram amigos de frequentar a casa um do outro, mas compartilhavam aquela intimidade típica de vizinhos antigos: recolhiam encomendas, emprestavam ferramentas, avisavam quando algum portão ficava aberto e sabiam reconhecer, pelo barulho da garagem, quem estava chegando.

A chave permaneceu na caixa durante dois anos sem servir para nada.

Até que Roberto decidiu viajar com a esposa e os dois filhos para visitar parentes no interior. Antes de sair, pediu ao vizinho que desse uma olhada na casa.

— Se o alarme disparar ou acontecer alguma coisa, você entra.

— Vai tranquilo.

A família partiu numa sexta-feira à tarde.

No sábado, Paulo regou duas plantas da varanda. No domingo, recolheu um pacote que o entregador havia deixado junto ao portão. Na segunda-feira, nem precisou atravessar a calçada.

Roberto voltou na terça, pouco depois das oito da noite.

Descarregou as malas, estacionou o carro e encontrou tudo exatamente como deixara.

Na manhã seguinte, foi agradecer.

— Deu tudo certo?

— Tudo. Só chegou uma encomenda. Está aqui.

Paulo entregou o pacote.

Roberto agradeceu e, antes de voltar para casa, lembrou-se da chave.

— Vou pegar a reserva também. Preciso fazer uma cópia para meu filho.

Paulo abriu a caixa de madeira.

Mexeu entre chaves antigas, pilhas, moedas e dois controles remotos.

A chave não estava.

— Estranho.

Procurou novamente.

Abriu uma gaveta.

Depois outra.

Nada.

— Você usou?

— Não.

— Tem certeza?

Paulo parou de procurar.

— Tenho.

Roberto tentou parecer despreocupado.

— Deve estar por aí.

Voltou para casa, mas a frase ficou acompanhando seus pensamentos.

Naquela noite, comentou com a esposa.

— A chave sumiu.

— E daí?

— Como “e daí”? É a chave da nossa casa.

— Paulo mora do nosso lado há nove anos.

— Justamente. Se alguém entrasse aqui, saberia nossos horários.

Ela olhou para ele por alguns segundos.

— Você está ouvindo o que está dizendo?

Roberto estava.

E não gostou.

Nos dias seguintes, pequenos acontecimentos começaram a ganhar importância demais.

Uma janela da cozinha que ele não lembrava ter deixado aberta.

Uma cadeira ligeiramente fora do lugar.

A porta do escritório encostada.

Até uma gaveta mal fechada virou motivo para conferência.

Nada havia desaparecido.

Mesmo assim, Roberto chamou um chaveiro.

Trocou o segredo da fechadura.

Quando Paulo percebeu o serviço, perguntou:

— Problema na porta?

— A fechadura estava agarrando.

Foi uma resposta rápida demais.

Paulo apenas concordou.

Depois disso, alguma coisa mudou entre os dois.

As conversas no portão ficaram menores. As ferramentas deixaram de atravessar a calçada. Quando uma encomenda chegou à casa de Roberto e ninguém atendeu, Paulo não a recolheu como fazia antes.

O pacote passou a tarde inteira junto ao portão.

Duas semanas depois, Roberto decidiu limpar o carro.

Retirou os tapetes, aspirou os bancos e abriu o compartimento sob o porta-malas para verificar o estepe.

Ao levantar a tampa, ouviu um pequeno objeto metálico cair.

Era a chave.

Ficou olhando para ela.

Lembrou-se então da manhã da viagem. Antes de fechar o porta-malas, havia pegado a chave reserva com Paulo porque imaginou que seria melhor levá-la. Colocara no bolso lateral da mala e, enquanto organizava a bagagem, provavelmente a deixara cair.

Sentou-se na beirada do porta-malas.

Durante alguns minutos, permaneceu ali com a chave na mão.

Naquela tarde, atravessou a calçada.

Paulo estava lavando a garagem.

Roberto abriu a mão.

— Achei.

O vizinho reconheceu imediatamente.

— Onde estava?

— No carro.

Paulo desligou a mangueira.

Roberto tentou explicar.

— Eu devia ter lembrado que peguei antes da viagem. Depois achei que…

Parou.

Paulo esperou.

— Eu troquei a fechadura.

— Eu percebi.

Não houve discussão.

Talvez tivesse sido mais fácil se houvesse.

Roberto estendeu a chave.

— Quer guardar novamente?

Paulo olhou para ela e depois para o vizinho.

— Melhor você ficar.

Roberto fechou a mão.

Na manhã seguinte, encontrou uma encomenda sobre o muro. Paulo devia tê-la recebido enquanto ele estava fora.

Não havia bilhete.

Roberto levou o pacote para dentro e, antes de fechar o portão, olhou para a casa ao lado.

A chave reserva agora estava novamente em sua gaveta.

Dessa vez, ele sabia exatamente onde.

O que não sabia era quanto tempo levaria para encontrar o resto.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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