Rascunhos Cotidianos – 002
02 — Quando a Vida Pede Menos de Nós
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Quando carregar demais vira costume
Nem sempre percebemos quando começamos a assumir mais do que conseguimos sustentar. Aceitamos compromissos, acumulamos responsabilidades e tentamos atender às expectativas de todos. Depois de algum tempo, o cansaço passa a parecer normal.
O problema não está apenas na quantidade de tarefas, mas na sensação de que precisamos dar conta de tudo. Descansar provoca culpa, recusar um pedido parece egoísmo e diminuir o ritmo soa como fracasso. Assim, continuamos mesmo quando nosso corpo e nossa mente já pedem espaço.
Escolher também significa recusar
Toda escolha ocupa tempo e energia. Quando dizemos sim para alguma coisa, estamos deixando menos espaço para outra. Por isso, aprender a escolher também envolve reconhecer aquilo que não podemos ou não queremos assumir.
Recusar um convite, adiar um compromisso ou admitir que não conseguimos fazer tudo não diminui nosso valor. Existem limites que não representam fraqueza; apenas mostram que nosso tempo e nossa disposição não são infinitos.
Dizer não algumas vezes permite que nossos outros “sins” sejam mais verdadeiros.
O relógio dos outros
Grande parte da ansiedade nasce da comparação. Observamos pessoas avançando profissionalmente, viajando, estudando, comprando, realizando projetos e parecendo sempre alguns passos à nossa frente. Sem perceber, começamos a medir nossa vida pelo ritmo delas.
Mas ninguém vive exatamente nas mesmas condições. Cada pessoa possui responsabilidades, oportunidades, dificuldades e desejos diferentes. Tentar acompanhar o relógio dos outros pode nos afastar daquilo que realmente importa para nós.
O antigo provérbio “devagar se vai ao longe” continua simples e atual. Nem todo avanço precisa ser rápido para ser verdadeiro.
O espaço que aparece quando diminuímos
Reduzir o ritmo não significa abandonar responsabilidades. Significa perceber quais delas realmente precisam de nós e quais foram acumuladas apenas por hábito, pressão ou medo de decepcionar alguém.
Quando retiramos alguns excessos, pequenas coisas voltam a aparecer. Uma refeição sem pressa, uma conversa tranquila, algumas horas de descanso ou simplesmente um período sem obrigação deixam de parecer perda de tempo.
A vida não precisa estar permanentemente cheia para ter valor.
Quando aquilo que temos começa a bastar
Passamos muito tempo pensando no próximo objetivo. Sempre existe algo para melhorar, conquistar ou alcançar. O desejo de crescer pode nos movimentar, mas também pode criar a impressão de que o presente nunca é suficiente.
Reconhecer o que já temos não significa desistir de novos projetos. Significa não adiar toda satisfação para uma conquista futura.
Há momentos em que a vida não pede mais esforço, velocidade ou resultados. Pede apenas que diminuamos um pouco o peso que colocamos sobre nós e percebamos que viver bem também pode significar precisar de menos.
(Betto Gasparetto – 2010-2015)

Nota de inspiração literária
Reflexão livre a partir de temas relacionados ao tempo, às escolhas e às exigências da vida presentes na obra de José Saramago. A aproximação é apenas temática. O texto é integralmente original e não reproduz trechos do escritor.
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