Sete Chaves da Felicidade e um Brinde ao Amor
Poema em sete movimentos para tudo aquilo que faz a vida valer a pena…
(Betto Gasparetto)
Trilha Sonora:

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
CHAVE I — ONDE COMEÇA A FELICIDADE
Deixai aberta a porta desta casa,
que a felicidade não costuma anunciar-se;
ela chega nos passos de quem amamos
e encontra um coração onde abrigar-se.
Que entrem os amigos, os filhos e os sonhos,
que ninguém tenha pressa de partir;
pois pobre é o palácio de portas cerradas,
e rico o humilde lar onde se pode sorrir.
Se o mundo lá fora nos cobrar tristezas,
deixemo-las do outro lado do portão;
porque a primeira chave da felicidade
é haver sempre lugar para outro coração.
CHAVE II — A MESA
Ponde mais um prato sobre a mesa,
mesmo que não saibamos quem virá;
o pão repartido multiplica-se em ternura,
e o vinho compartilhado jamais faltará.
Não são os banquetes que alimentam a alma,
mas os olhos que se encontram ao redor;
um pedaço de pão entre pessoas queridas
vale mais que o ouro servido sem amor.
Que sobrem histórias, risos e lembranças,
e falte somente espaço para a solidão;
pois toda mesa cercada de afetos
é um pequeno reino sem necessidade de coroa.
CHAVE III — O RISO
Ri, meu amor, que quando tu ris
até o velho Tempo parece recuar;
há primavera escondida em tua boca
e juventude no modo de me olhar.
Deixa que os anos contem nossas rugas;
não lhes permitas nossos sonhos contar.
Se amanhã vier carregado de invernos,
hoje ainda temos motivos para celebrar.
Que tua alegria encontre sempre a minha,
como dois rios procurando o mesmo mar;
pois quem possui alguém com quem rir
já encontrou uma razão para ficar.
CHAVE IV — O ABRAÇO
Abraça-me agora, antes que o instante passe;
não deixemos ternura alguma para depois.
Há abraços que duram poucos segundos
e permanecem uma vida inteira em nós.
Não me prometas riquezas nem eternidades,
promete somente não esquecer de me tocar;
pois o amor não vive apenas de palavras:
necessita de braços onde possa repousar.
Quando meus cabelos conhecerem o inverno,
aproxima-te de mim como na primeira vez;
e descobriremos que envelhecer lado a lado
é outra maneira de chamar amor à felicidade.
CHAVE V — A MÚSICA
Deixa o velho disco novamente girar,
que nossa juventude ainda dança escondida nele.
Talvez aquela canção recorde o primeiro beijo,
quando o mundo inteiro cabia entre mim e ti.
Dança comigo, mesmo que nossos passos errem;
o amor jamais exigiu perfeição para bailar.
Que importa se a noite envelhece depressa,
quando dois corações ainda desejam ficar?
Enquanto houver música nesta velha casa,
nenhum silêncio haverá de nos vencer;
pois algumas melodias terminam no aparelho,
mas continuam tocando dentro de quem soube viver.
CHAVE VI — O TEMPO
Não amaldiçoemos o Tempo por passar,
pois foi ele quem trouxe todos até esta mesa.
Levou-nos alguns sonhos, é verdade,
mas transformou outros tantos em certeza.
Deu-nos cabelos brancos, filhos e saudades,
fotografias, reencontros e histórias para contar.
Se cada ruga custou uma lembrança,
benditas sejam as marcas que aprendemos a carregar.
Não desejo retornar à juventude, meu amor,
se para isso tiver de esquecer o que vivi;
prefiro os poucos anos que ainda nos restarem
a uma eternidade onde jamais te conheci.
CHAVE VII — O BRINDE
Erguei as taças! Não à riqueza nem à glória,
mas aos que ainda estão sentados junto a nós.
Aos que partiram, reservemos uma lembrança;
aos que chegaram, ofereçamos nossa voz.
Brindemos aos amores que sobreviveram aos anos,
aos amigos, às crianças, aos reencontros e ao perdão.
Brindemos às pequenas coisas esquecidas
que silenciosamente sustentam o coração.
E quando a última taça desta noite se esvaziar,
que ninguém diga que a felicidade terminou:
pois quem encontrou sete chaves para amar a vida
descobriu que a oitava sempre foi o Amor…
(Betto Gasparetto – 1997)
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