Um Gosto Infinito de Espera
Quatro movimentos entre a esperança, a ausência e o amor que se recusa a partir
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I — OS DEGRAUS DA ESPERA
Sentei-me onde as flores se debruçam,
à espera de teus passos pelo cais;
as águas vêm, regressam e soluçam,
mas teus olhos não retornam nunca mais.
Há tardes que em meu peito não terminam,
há sinos que perguntam onde estás;
e enquanto as glicínias se perfumam,
meu coração conserva o que não traz:
esse gosto infinito de esperar-te.
II — O BARCO QUE NÃO ERA O TEU
Vi surgir ao longe uma embarcação,
e por um breve instante foste tu;
meu peito abriu janelas à ilusão,
e a esperança vestiu o céu de azul.
Mas outro rosto atravessou as águas,
outra mão saudou de junto ao mar;
baixei os olhos para que as próprias flores
não percebessem meu secreto pesar:
quantas vezes regressaste sem chegar.
III — AS FLORES SABEM TEU NOME
As flores que plantei quando partiste
já aprenderam muitas vezes a morrer;
renascem sempre — como se soubessem
que amar também é esperar e florescer.
Pergunto-lhes se ouviram teus passos,
se alguma brisa as fez de ti lembrar;
e elas, mudas, perfumam minha ausência,
como quem sabe e não deseja revelar
por que o amor permanece sem voltar.
IV — SE UM DIA REGRESSARES
Se um dia regressares por estas águas,
não temas encontrar-me diferente;
os anos poderão tocar meu rosto,
mas não aquilo que te guarda eternamente.
Vem sem promessas, culpas ou respostas,
traz somente os olhos que aprendi a amar;
sentar-nos-emos nestes mesmos degraus,
e então saberei, ao ver-te novamente,
que toda espera encontra o infinito ao terminar.
(Betto Gasparetto – 2013)
Deixe um comentário