Olhares Distantes Num Talvez
Quatro movimentos entre o silêncio, a proximidade e aquilo que o amor ainda não ousou confessar
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I — DOIS SILÊNCIOS NA MESMA VIAGEM
Sentamo-nos tão perto, e tão distantes,
enquanto o mundo corre além do vidro;
teus olhos buscam montes muito adiante,
os meus procuram em teu rosto um abrigo.
Há coisas que permanecem hesitantes,
por medo de perder o que é querido;
e assim viajamos, lado a lado, em segredo,
tu contemplando a neve, eu, nosso enredo,
ambos tão próximos — e presos num talvez.
II — AQUILO QUE OS OLHOS NÃO DISSERAM
Quis perguntar se pensas quando calas,
se em teu silêncio existe um pouco de nós;
mas certas confissões, quando as abalas,
podem morrer ao conhecer a própria voz.
Então deixei meu coração entre palavras
que nunca atravessaram minha voz;
fingi ler o mundo, enquanto desejava
que teu olhar, por breve acaso, encontrasse o meu,
e transformasse em sim o nosso quase.
III — ENTRE A NEVE E O DESEJO
Lá fora, a neve veste os altos montes,
como se o inverno houvesse adormecido;
aqui, porém, ardem secretos horizontes,
num sentimento ainda não vivido.
Se tua mão tocasse a minha por acaso,
talvez o Tempo perdesse seu caminho;
talvez soubéssemos, naquele breve espaço,
que dois destinos podem viajar tão juntos
e ainda assim temer o mesmo carinho.
IV — A ESTAÇÃO DO TALVEZ
Talvez amanhã desçamos em estações diversas,
e cada qual prossiga sem olhar atrás;
talvez recordes estas horas silenciosas
como quem lembra um sonho que não volta mais.
Mas se antes da partida nossos olhos se encontrarem,
não deixes que o receio escolha por nós dois;
há amores que se perdem antes mesmo de nascerem
porque esperaram pelo instante perfeito — e ele não veio.
Pois todo “talvez” é um amor perguntando se ainda há depois.
(Betto Gasparetto – 2011)

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