Linhas Opostas

Quatro movimentos entre os trilhos do destino, os ponteiros da despedida e o amor que se recusa a partir.

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — O RELÓGIO DAS DESPEDIDAS

Na estação, o inverno amanhecia,
E o ferro estremecia sob o vapor;
Teu rosto junto ao meu ainda aquecia
A derradeira chama deste amor.
O grande relógio, indiferente,
Marcava a hora amarga de partir;
E eu, abraçando-te tão docemente,
Quis ordenar ao Tempo que não fosse prosseguir.
Mas há partidas que não pedem licença,
Nem ouvem os protestos da paixão;
E o trem, rompendo a névoa da presença,
Levou consigo a paz do coração.

II — OS TRILHOS QUE NÃO SE ENCONTRAM

Dois trilhos seguem juntos pela estrada,
Sem que seus corpos possam se tocar;
Assim nossa esperança, condenada,
Aprendeu tão perto a se distanciar.
Teus olhos procuravam meu semblante,
Como quem busca um porto em pleno mar;
E cada apito, triste e penetrante,
Parecia outra sentença a nos separar.
Ah, se o destino conhecesse a ternura,
Não dividiria em dois o mesmo chão;
Pois linhas opostas são cruel figura
De dois amantes presos à separação.

III — A MALA DAS PALAVRAS CALADAS

Na velha mala repousavam cartas,
Fotografias, promessas e um lenço;
Pequenas coisas que julgávamos fartas
De eternidade, num amor tão intenso.
Quis confessar-te o medo da distância,
Mas minha voz perdeu-se pelo cais;
Guardei no peito a última esperança
De que os teus passos retornassem uma vez mais.
E quando tua mão deixou a minha,
Senti morrer a tarde em pleno alvor;
Pois toda despedida traz, sozinha,
Um século de ausência dentro do amor.

IV — A ESTAÇÃO DO IMPOSSÍVEL REGRESSO

Se um dia os mesmos trilhos nos trouxerem
Àquela plataforma onde chorei,
E os velhos sinos novamente disserem
Que o amor regressa ao lugar onde o deixei;
Hei de buscar teus olhos entre a gente,
Sem perguntar que inverno atravessaste;
E abraçar-te como quem, finalmente,
Recupera a primavera que guardaste.
Pois mesmo quando os trens seguem contrários,
Há sentimentos que não sabem terminar;
E se o destino nos fizer itinerários,
Que o amor encontre um jeito de voltar.

(Betto Gasparetto – 2013)

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