A Sétima Carta e a Nobreza de um Adeus
Sete cartas entre a majestade de um amor, as ruínas da ausência e a dignidade de uma última despedida.
(Betto Gasparetto)

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CARTA # I — QUANDO O DESTINO VESTIU-SE DE PRIMAVERA
Vi-te chegar sob os arcos do palácio,
Quando a tarde bordava o céu de carmim;
Teu olhar fez do mundo um breve espaço,
Onde a eternidade principiou em mim.
Havia em teus cabelos luz dourada,
E em teus gestos, a graça de um jardim;
Minha alma, até então tão resguardada,
Rendeu-se ao teu sorriso de cetim.
Não foram as estrelas testemunhas,
Nem os sinos que dobravam ao luar;
Foram duas mãos, discretas e desnudas,
Que aprenderam, sem palavras, a se amar.
CARTA # II — A VALSA DAS PROMESSAS INVIOLÁVEIS
Dançamos onde o mármore florescia,
Sob colunas de antiga majestade;
E a música, em secreta melodia,
Consagrou nosso instante à eternidade.
Teu vestido desenhava a primavera,
Enquanto eu te conduzia pelo salão;
E cada volta, em sua doce espera,
Despertava outra aurora à nossa paixão.
Jurei guardar teu nome em meu destino,
Sem reclamar do Tempo a sua mercê;
Pois mesmo o mais soberbo dos caminhos
Perde a grandeza quando longe de você.
CARTA # III — O CREPÚSCULO DOS JURAMENTOS
Vieram dias de inquietante bruma,
E as rosas perderam seu esplendor;
O que julgávamos eterno fez-se espuma,
À mercê dos caprichos do temor.
Teu silêncio ganhou estranha nobreza,
Mas teus olhos já não sabiam repousar;
Havia em nossas mãos tanta tristeza,
Que até os beijos hesitavam em chegar.
Não foi a falta de amor que nos venceu,
Nem a distância entre a terra e o firmamento;
Foi o orgulho que, entre nós, se ergueu,
Erigindo uma muralha ao sentimento.
CARTA # IV — A JANELA DOS INVERNOS SEM RESPOSTA
Escrevo-te onde a chuva beija a pedra,
E o lago adormece entre os pinhais;
A chama da lareira ainda medra,
Mas não aquece os dias desiguais.
Teu retrato permanece em minha mente,
Como um reino que não posso governar;
E a saudade, em seu rigor persistente,
Faz das horas um deserto a atravessar.
Quantas cartas escrevi sem remetente,
Quantos versos condenei ao esquecimento!
Pois nenhuma palavra é suficiente
Para restituir o que levou o vento.
CARTA # V — O TRIBUNAL DAS PALAVRAS NÃO DITAS
Não te acuso por haveres escolhido
Outros rumos que não pude compreender;
Talvez meu coração, tão presumido,
Tenha amado sem saber te proteger.
Fui senhor de castelos e de honrarias,
Mas escravo de um orgulho sem razão;
Confundi com certezas as fantasias,
E fiz da própria voz uma prisão.
Hoje reconheço, em tardia consciência,
Que amar não é exigir submissão;
É oferecer ao outro a própria essência,
Sem transformar ternura em obrigação.
CARTA # VI — A ROSA QUE RECUSOU O ESQUECIMENTO
Guardei a rosa da primeira dança,
Entre as folhas de um livro já sem cor;
Sua pétala conserva uma lembrança
Da inocência que precedeu a dor.
Não te espero como outrora te esperava,
Nem reclamo o que o destino dissolveu;
Mas há em mim uma chama que se abrasa
Ao recordar o beijo que foi teu.
Se algum dia atravessares outros mares,
E encontrares a ventura que sonhaste,
Que os teus olhos, contemplando novos lares,
Não lamentem os caminhos que deixaste.
CARTA # VII — A MAJESTADE DO ÚLTIMO ADEUS
Esta é a carta que jamais quis escrever,
A derradeira entre as que te destinei;
Não para implorar que tornes a me ver,
Mas para honrar o amor que te entreguei.
Não levarei comigo teus retratos
Como testemunhas de uma antiga dor;
Guardarei os nossos dias mais exatos,
Sem exigir que regressem ao esplendor.
E quando a chuva enfim deixar a vidraça,
Hei de abrir as janelas para o céu;
Pois o mais nobre amor também tem graça
Quando sabe dizer adeus sem deixar de ser fiel.
(Betto Gasparetto – 2012)
“Nem todo adeus representa o fim de um sentimento. Às vezes, representa o instante em que o amor deixa de exigir e aprende, finalmente, a oferecer liberdade.” (Betto Gasparetto)

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