Entre o Luar que Dançou Sobre Nossos Olhares

Poema em três partes — O Encontro, o Desencontro e a Permanência do Amor

(Betto Gasparetto)

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I — O ENCONTRO SOB O LUAR

Naquela noite em que a lua, soberana,
Vestiu de prata as águas do jardim,
Tua beleza, tão serena e humana,
Despertou sentimentos dentro de mim.

Entre colunas de esplendor antigo,
Tua mão encontrou a minha mão;
E o mundo, que jamais fora meu abrigo,
Tornou-se a mais ditosa habitação.

Teu vestido esmeralda, ao vento brando,
Desenhava nas pedras seu fulgor;
E eu, junto ao teu semblante caminhando,
Aprendia os primeiros dons do amor.

As montanhas guardavam seus segredos,
E o lago adormecia sob o luar;
Enquanto nossos tímidos enredos
Encontravam coragem para amar.

Não te ofereci riquezas ou coroas,
Nem glórias que os monarcas podem ter;
Pois as promessas verdadeiramente boas
São aquelas que sabemos merecer.

E quando, entre meus braços, repousaste,
Com a fronte inclinada sobre a minha,
Senti que, sem palavras, me entregaste
A paz que minha alma desconhecia.

II — O DESENCONTRO DAS ÁGUAS SILENCIOSAS

Mas veio o tempo, com seu passo austero,
E trouxe a despedida ao nosso chão;
Partiste sem ouvir o que mais quero,
Levando em teus silêncios meu coração.

A mesma lua contemplava o lago,
As mesmas fontes repetiam seu cantar;
Mas cada noite me entregava o amargo
Ofício de aprender a te esperar.

Voltei ao mármore daquela escadaria,
Onde teu rosto iluminou meu existir;
E perguntei à noite se algum dia
Teus passos voltariam a me seguir.

Não amaldiçoei os rumos da partida,
Nem fiz da tua ausência uma prisão;
Pois quem amou com nobreza nesta vida
Não transforma uma lembrança em punição.

Vi outras primaveras nas colinas,
E outras luas nascerem sobre o mar;
Mas nem as mais formosas disciplinas
Ensinaram meu peito a te olvidar.

Guardei a flor que usaste naquela noite,
Já sem perfume, brilho ou esplendor;
E nela reconheci, sem qualquer açoite,
A silenciosa dignidade de um amor.

III — O REGRESSO DAS PROMESSAS

Certa manhã, quando a estação mudava,
E o sol beijava as águas do jardim,
Teu vulto entre as colunas caminhava,
Como se o tempo regressasse para mim.

Não houve indagação sobre os caminhos,
Nem julgamento das razões do teu partir;
Pois dois amantes, após tantos espinhos,
Às vezes só precisam consentir em sorrir.

Teus olhos conservavam a ternura,
Embora outras tristezas revelassem;
E percebi que a mais profunda formosura
Nasce das dores que os anos nos deixassem.

Aproximei-me sem cobrar o passado,
Sem perguntar se voltarias a ficar;
E teu sorriso, delicado e demorado,
Foi quanto me bastou para recomeçar.

Não quis vencer o tempo ou sua sorte,
Nem prometer um céu sem solidão;
Desejei que, até a chegada da morte,
Pudéssemos repartir o mesmo pão.

E quando a lua novamente apareceu,
Sobre as montanhas e as águas do lugar,
Tua mão, que outrora se perdeu da minha,
Voltou, sem hesitar, a me procurar.

SONETO ARCADIANO — A CONSTÂNCIA DE DOIS CORAÇÕES

À beira do sereno lago amado,
Onde a lua repousa em doce véu,
Contemplo o teu semblante iluminado,
Mais puro que o fulgor do próprio céu.

Se outrora nos feriu o cruel destino,
E a ausência nos roubou tanta ventura,
Hoje bendigo o encontro peregrino
Que restituiu ao peito a formosura.

Não peço aos deuses glória ou majestade,
Nem os tesouros que a fortuna encerra;
Basta-me o teu olhar, minha beldade.

Pois se o amor florescer sobre esta terra,
Há de vencer o inverno da saudade
E dar-nos paz, enquanto a vida impera.

(Betto Gasparetto – 2020)

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