Teu meio-tempo é jogo interminável, Onde não marcas gol nem te retiras; E o tempo inteiro, amante imensurável, Se perde em sombras de tuas mentiras.
Tuas pausas são frias, longas, vazias, Caminho feito à base de desvios; E o ardil, que em ti se esconde e desafia, Nos transforma em desertos e navios.
Até quando brincarás de existir No campo estreito da incerteza tua? Até quando teu passo irá fugir?
Se desejas luz, vem para a rua; Se queres noite, deixa-me seguir Por outra estrada que não seja nua.
O relógio dorme e o tempo se dispersa, Quando teu riso dobra a dimensão. O ar suspende o ponteiro e conversa Com a quietude pura da emoção. Nenhuma hora é dona de nós dois, Nem calendário ousa nos medir. O amor é eterno em seu depois, E aprende o dom antigo de florir. Cada minuto, ao teu redor, repousa, E o tempo, humilde, enfim se recompõe.
Tu és o instante em que o mundo cessa, E a pressa perde o fôlego e o tom. O coração, que antes vivia em pressa, Descobre o verbo lento da canção. O sol demora a cruzar tua janela, E o dia pede pausa no relógio. O vento aprende a ser sentinela, E o céu refaz a cor do seu antológico. A vida, em ti, é sonho atemporal, É o silêncio pleno e natural.
No teu abraço mora o interstício Que o tempo ignora e Deus recorda. E o amor, que é mais que artifício, Transforma o medo em flor que não se dobra. Os dias, em tua pele, são feriados, E as noites, luas de respiração. No compasso manso dos teus lados, O corpo aprende o ritmo da razão. E a eternidade, clara, nos visita, Em cada gesto simples que se imita.
Não há relógio que nos contenha, Nem cronômetro que saiba medir. A vida inteira em teu olhar se empenha Em traduzir o verbo de existir. O mundo corre, eu fico no teu passo, E o tempo erra a hora de partir. O sol repousa inteiro em teu abraço, E a sombra esquece o dom de dividir. Até o vento muda de sentido, Pra ver o amor ser lento e decidido.
Teus olhos marcam o compasso certo, São bússolas do agora e do além. E quando a tarde chega por perto, Tudo parece calma e vai-se bem. O relógio, cético, se resigna, Entende o tempo como gesto humano. E cada toque teu um estigma, Faz do futuro um solo soberano. Assim o amor governa a duração, E dita o pulso da respiração.