Episódio 7 — Três Gerações
Trilha: Anton Bruckner — Adagio, Symphony No.7
(Betto Gasparetto)
Capítulo 62— A Sala Proibida e a Chave de Helena

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Helena Dubois não dormiu.
Outra vez.
Na verdade, fazia muitos anos que ela aprendera a substituir sono por vigilância.
Existem pessoas que envelhecem descansando.
Outras envelhecem observando.
E observar cansa muito mais.
Silêncio.
A carta permanecia aberta sobre a escrivaninha.
As palavras.
O nome.
Adrien.
Sophie.
Ele voltou.
Silêncio absoluto.
A neve golpeava o Solar.
Os relógios pareciam mais lentos.
Ou talvez o medo alterasse horas.
Muito lentamente Helena retirou a pequena chave: GY
Ficou observando.
Longamente.
Muito.
Depois levantou-se.
Vestiu casaco.
Apagou o lampião.
E saiu.
Corredores.
Escadarias.
Silêncio.
Passou pela biblioteca.
Pela galeria.
Pela sala das armas.
Até chegar à ala norte.
Aquela evitada.
Aquela esquecida.
Aquela onde os criados caminhavam rapidamente.
Silêncio absoluto.
Parou diante da porta.
Sem identificação.
Sem maçaneta aparente.
Apenas madeira antiga.
Escura.
E muito pequena: GY
Helena aproximou a chave.
Parou.
As mãos tremeram.
Muito.
Porque algumas portas não assustam pelo que escondem.
Assustam pelo tempo que esperaram.
Silêncio.
Introduziu a chave.
Girou.
E chorou.
Não dramaticamente.
Não.
Apenas duas lágrimas silenciosas.
Porque ouvira.
Muito baixo.
Quase imperceptível.
Do outro lado:
uma música.
Piano.
Muito antiga.
A mesma que Clara tocava décadas antes.
Silêncio absoluto.
E Helena compreendeu algo terrível:
ninguém tocava aquele piano havia muitos anos.
(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)
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