A JANELA DO APARTAMENTO 707

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há apartamentos que oferecem uma vista.

O 707 oferecia tempo.

Não era a paisagem mais bonita da cidade. Dali não se viam montanhas, rios ou cartões-postais. Via-se uma rua comum, dessas que os mapas desenham sem imaginar que um dia alguém possa detê-las com o olhar. Havia um semáforo, duas árvores que resistiam entre as calçadas, uma padaria de esquina, uma banca de jornais transformada em banca de conveniências e um ponto de ônibus onde as pessoas pareciam sempre esperar mais do que um coletivo.

Durante muitos anos, aquela janela servira apenas para deixar entrar a claridade das manhãs e o vento das tempestades de verão. Depois da aposentadoria, porém, ela passou a cumprir outra função. Tornou-se uma companhia.

Todas as manhãs, pouco antes das sete, ele abria a veneziana, colocava uma xícara de café sobre o parapeito interno e permanecia ali durante alguns minutos. Nunca procurava um acontecimento especial. A rua já lhe ensinara que os dias importantes quase sempre se escondem dentro dos dias comuns.

Foi assim que percebeu uma transformação que ninguém anunciara.

As árvores continuavam praticamente do mesmo tamanho.

Os edifícios, não.

A cada ano surgia mais um espigão de concreto ocupando o lugar de alguma casa antiga. Primeiro desapareceu a residência azul onde um casal costumava cultivar roseiras. Depois foi a oficina mecânica, substituída por uma torre de vinte pavimentos. Em seguida veio abaixo o pequeno sobrado cuja varanda permanecera quarenta anos coberta por buganvílias.

Os caminhões levavam os escombros.

As lembranças permaneciam do lado de dentro da janela.

Às vezes lhe parecia que a cidade desaprendera a crescer para aprender apenas a empilhar andares.

Até o vento mudara.

Antes atravessava a rua com a tranquilidade de quem conhece o caminho.

Agora desviava dos edifícios recém-construídos, descia pelos corredores estreitos entre as torres e chegava ao sétimo andar em rajadas imprevisíveis, trazendo folhas secas, poeira fina e, vez ou outra, um pedaço de jornal que dançava alguns segundos antes de desaparecer outra vez.

Ele chamava aquilo, sorrindo sozinho, de vizinho de papel reciclável.

Nunca sabia de onde vinha.

Nunca sabia para onde ia.

Talvez fosse o morador mais livre daquele quarteirão.

As buzinas também mudaram.

Na juventude, eram avisos.

Hoje pareciam discussões.

Cada motorista defendia a urgência da própria vida sem imaginar que, ouvidas do alto, todas as buzinas acabavam compondo uma mesma desordem, uma espécie de orquestra contemporânea em que ninguém aceitava seguir o mesmo maestro.

Havia manhãs em que fechava os olhos apenas para escutá-las.

Conseguia distinguir o ônibus impaciente, a motocicleta apressada, o caminhão pesado, o automóvel que insistia em reclamar de um semáforo incapaz de ouvir.

A cidade possuía sua própria música.

Apenas perdera o hábito de ensaiar.

Nem tudo, porém, era transformação.

Às sete e quinze surgia a moça dos tênis vermelhos, sempre caminhando depressa, equilibrando um copo térmico e uma mochila que parecia pesada demais para seus ombros. Às sete e vinte e dois, o entregador de bicicleta atravessava a esquina assobiando a mesma melodia. Às sete e quarenta, uma senhora muito elegante levava o cachorro para passear, embora ele demonstrasse todos os dias a mesma convicção de que preferia permanecer dormindo.

Sem conhecer seus nomes, ele começou a medir as manhãs por essas presenças.

Quando um deles faltava, a rua parecia ligeiramente incompleta.

Certa segunda-feira, a moça dos tênis vermelhos não apareceu.

Na terça também não.

Na quarta, ele já se perguntava se teria mudado de emprego, de bairro ou simplesmente de caminho.

Na quinta-feira ela voltou.

Trazia o braço esquerdo engessado.

Continuava andando depressa.

Sorriu para alguém do outro lado da rua.

Ele devolveu o sorriso sem perceber.

Ela nunca soube.

As estações passavam diante da mesma janela sem pedir licença.

O ipê amarelo florescia por poucos dias, espalhava pétalas pela calçada e voltava à discrição habitual. O vendedor de pamonha surgia apenas nos meses frios. Os primeiros temporais obrigavam os pedestres a descobrir que nenhum guarda-chuva é grande o bastante quando o vento decide mudar de direção.

Foi então que compreendeu uma delicadeza da cidade.

Ela jamais repetia um dia.

Repetia apenas os horários.

Numa tarde de domingo, o neto perguntou por que ele passava tanto tempo olhando pela janela.

O velho demorou um pouco para responder.

Depois apontou para a rua.

— Quando eu era mais novo, achava que viver era estar lá embaixo. Hoje descobri que também existe vida em aprender a olhar.

O menino aproximou-se do vidro.

Permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois perguntou:

— E a rua sabe que o senhor está olhando?

Ele sorriu.

— Ainda bem que não.

Naquela noite, antes de fechar a janela, percebeu que outro prédio começava a ser erguido no terreno da antiga oficina.

Dentro de alguns meses, uma nova fachada ocuparia parte da paisagem.

Talvez escondesse a padaria.

Talvez escondesse o ponto de ônibus.

Talvez escondesse até o velho ipê.

Mas havia uma coisa que nenhum edifício conseguiria ocultar.

Todas as manhãs, quando a cidade ainda estivesse aprendendo a acordar, alguém abriria aquela janela no sétimo andar.

Não para vigiar a rua.

Mas para lembrar que, mesmo quando deixamos de caminhar por certos lugares, continuamos pertencendo a eles de alguma maneira.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

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