Sete Pétalas e Um Beijo Eterno
Poema em sete movimentos de amor, desejo e saudade
(Betto Gasparetto)

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PÉTALA I — O PRIMEIRO OLHAR
Vi-te quando o mundo ainda era primavera,
e o Sol, por inveja, ocultou-se em teu olhar.
Meu coração, que livre se julgara,
fez-se teu servo antes de te tocar.
Não houve juramento, altar ou testemunha;
somente dois silêncios aprendendo a desejar.
E desde então carrego em minha alma
a doce condenação de sempre te amar.
PÉTALA II — O ESPELHO DO DESEJO
Agora habitas o cristal que nos separa,
tão perto de meus olhos, tão distante de minha mão.
Estendo os dedos — e o frio me responde;
chamo teu nome — e responde o coração.
Ó espelho cruel, concede-me um instante:
quebra-te e deixa meu amado regressar!
Pois vale mais um beijo e depois a morte
que uma existência inteira sem o poder tocar.
PÉTALA III — AS PÉROLAS DA SAUDADE
Guardei nossas lembranças como pérolas,
uma para cada noite em que chorei.
Algumas nasceram doces de teus beijos;
outras, das lágrimas que jamais te revelei.
Se um dia voltares, adornarei teu peito
com tudo aquilo que em silêncio conservei.
E saberás que mesmo abandonada,
em nenhum amanhecer te abandonei.
PÉTALA IV — A AMPULHETA
Cai, areia! Cai, cruel mensageira!
Conta os instantes que me afastam de meu bem.
Mas sabe, Tempo: embora roubes minha juventude,
não tomarás o amor que minha alma contém.
Transforma meus cabelos em prata, se desejares,
faz desta carne o pó de que ela vem;
quando meu último segundo abandonar-me,
meu coração ainda pronunciará: meu bem.
PÉTALA V — A ROSA IMPOSSÍVEL
Planto esta rosa sobre pedras sem esperança,
onde nenhum sábio ousaria semear.
Se ela florescer, saberei que ainda existe
algum caminho para o amor nos reencontrar.
Cada espinho guardará uma de minhas dores;
cada pétala, um desejo de te beijar.
E se sete pétalas nascerem nesta haste,
sete eternidades hei de te esperar.
PÉTALA VI — AS AVES DA LIBERDADE
Ide, pequenas aves, atravessai os céus!
Buscai aquele a quem meu peito chama senhor.
Dizei-lhe que nenhuma distância foi bastante
para transformar em cinzas nosso amor.
Trazei de volta ao menos uma palavra,
um pensamento, uma lembrança, uma flor;
pois quem verdadeiramente amou uma única vez
carrega para sempre a glória e a dor.
PÉTALA VII — O BEIJO ETERNO
E quando enfim se romper o velho espelho
e o Tempo, derrotado, deixar de nos ferir,
não quero tronos, pérolas ou paraísos,
somente teus braços quando eu partir.
Beija-me então como quem vence a própria morte,
como quem faz a eternidade consentir;
e se sete pétalas caírem sobre nós,
que a última guarde o beijo que nem a morte há de extinguir.
(Betto Gasparetto – 1997)
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