Sete Lágrimas da Paz

Sete lágrimas por aqueles que jamais deveriam conhecer a guerra…

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

LÁGRIMA I — QUANDO O CÉU DEIXOU DE SER CÉU

Ontem havia pássaros onde hoje descem homens,
e o céu era somente o reino azul da infância.
Hoje até as nuvens carregam o medo,
e cada vento traz o rumor da distância.
Ó guerra, que fizeste de meus jardins?
Quem te deu licença para entrar em minha casa?
Eu era pequeno demais para conhecer a morte,
mas ela aprendeu meu nome antes que eu aprendesse o dela.
Minha mãe dizia: “Não temas a noite, meu filho”;
mas não me ensinou a não temer o dia.
Pois foi sob o Sol que o mundo desabou,
e minha infância envelheceu numa única manhã.

LÁGRIMA II — O RETRATO

Seguro entre as mãos o que restou de nós:
um pequeno retrato ferido pelo pó.
Aqui minha mãe ainda sorri eternamente;
aqui meu pai jamais pronunciou adeus.
Que estranho poder possui uma fotografia:
faz viver quem meus braços não alcançam.
Beijo seus rostos quando ninguém me vê
e pergunto ao papel se ainda se lembram de mim.
Ó retrato, não envelheças como envelhece o mundo!
Guarda-lhes os olhos, o sorriso e a ternura.
Se minha memória um dia fraquejar de dor,
sê tu a casa para onde meu coração possa voltar.

LÁGRIMA III — A ROSA ENTRE AS PEDRAS

Encontrei uma rosa entre as ruínas,
vermelha como o coração que ainda resiste.
Como ousas florescer, pequena criatura,
onde até as paredes desaprenderam a existir?
Talvez Deus tenha esquecido uma semente
para recordar aos homens aquilo que destruíram.
Eu te darei a pouca água que me resta;
tu me darás a coragem que me falta.
Cresce, rosa — ainda que entre pedras;
abre tuas pétalas contra toda desesperança.
Enquanto houver uma flor sobre a terra,
a guerra jamais poderá declarar-se eterna.

LÁGRIMA IV — MEU PEQUENO COMPANHEIRO

Quando todos partiram, tu permaneceste.
Não perguntaste quem venceu nem quem perdeu.
Deitaste apenas teu corpo junto ao meu
como se teu calor pudesse reconstruir nossa casa.
Ó pequeno amigo, que sabes tu das guerras?
Talvez saibas mais que reis e generais:
que nenhuma bandeira vale uma criança,
e nenhuma vitória consola uma casa vazia.
Quando choro, encostas tua cabeça em meus joelhos;
quando tremes, abraço-te como fazia minha mãe.
Somos dois pequenos sobreviventes do mundo,
dividindo entre nós o pouco amor que ainda restou.

LÁGRIMA V — OS HOMENS QUE VOLTAM

Vejo homens caminhando entre a poeira,
e outros descendo do céu que já temi.
Não sei os nomes escritos em seus uniformes,
nem compreendo as razões que os trouxeram aqui.
Só sei que homens carregam nas próprias mãos
o poder de ferir — e também o de salvar.
Se vierdes até mim, não me tragam vingança;
tragam pão, silêncio e braços para amparar.
Não quero saber quem conquistou estas pedras:
quero saber quem reconstruirá minha escola.
Grande não é aquele que domina a terra,
mas aquele que devolve uma criança ao seu lar.

LÁGRIMA VI — SE MINHA MÃE VOLTASSE

Se minha mãe surgisse agora entre as ruínas,
eu não lhe pediria brinquedos nem presentes.
Correria descalço sobre todas estas pedras
somente para esconder meu rosto em seu vestido.
Dir-lhe-ia que fui valente — embora tenha chorado;
que guardei nosso retrato contra o peito.
Meu pai talvez viesse caminhando atrás dela,
e outra vez o mundo teria portas e janelas.
Ah, esperança, não zombes de uma criança!
Deixa-me sonhar somente esta noite.
Pois às vezes um sonho é a última morada
daqueles a quem a realidade tomou tudo.

LÁGRIMA VII — A PAZ

Se algum dia perguntarem o que desejo,
não me ofereçam ouro, coroas ou glória.
Deem-me uma manhã sem estrondos no horizonte,
uma mesa, minha família e nenhuma vitória.
Quero ouvir novamente pássaros no céu
sem perguntar se alguma coisa cairá dele.
Quero plantar esta rosa diante de minha casa
e vê-la envelhecer muito depois de mim.
Que os homens aprendam, enfim, esta verdade:
nenhum triunfo merece as lágrimas de uma criança.
E se o mundo ainda possuir um coração,
que a última lágrima derramada seja a primeira lágrima da Paz.

(Betto Gasparetto – 1997)

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