Sete Passos sem Direção
Elegia daqueles que caminham sem saber se regressarão!
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
PASSO I — QUANDO DEIXEI A PORTA ABERTA
Parti quando a aurora ainda dormia,
sem coragem de acordar meu próprio lar.
Deixei a porta entreaberta, como quem promete
que antes do anoitecer haverá de regressar.
Beijei-te a fronte sem dizer palavra,
pois despedidas sabem o futuro anunciar.
Levei comigo teu perfume nos meus dedos
e aquela vontade absurda de ficar.
Atrás de mim ficaram nossas pequenas coisas,
a mesa, os livros, o fogo e teu olhar.
E dei meu primeiro passo para a guerra,
quando tudo em mim suplicava para voltar.
PASSO II — A CHUVA
Depois veio a chuva sobre os homens,
lavando o rosto, mas jamais o coração.
Marchávamos como sombras condenadas,
cada qual carregando a própria solidão.
A lama devorava nossas botas,
o frio fazia da carne uma prisão.
Mas eu guardava junto ao peito tua lembrança,
como um mendigo guarda sua última oração.
E quando o céu rugia sobre nossas cabeças,
eu pronunciava teu nome em devoção:
pois há amores que, mesmo sob a guerra,
permanecem intactos na destruição.
PASSO III — O BRINQUEDO NA LAMA
Então encontrei um pequeno brinquedo,
abandonado entre a água e o chão.
Não tinha sangue, voz, bandeira ou pátria;
tinha apenas a forma triste da recordação.
Quem o abraçou antes que o mundo enlouquecesse?
Que pequena mão lhe concedeu afeição?
Parei — e naquele pobre objeto
vi toda a vergonha de nossa geração.
Pois quando a guerra alcança os brinquedos,
já não existe glória em qualquer vitória.
Há somente uma infância interrompida
pedindo ao mundo que lhe devolva a história.
PASSO IV — A CARTA QUE NÃO ESCREVI
Quis escrever-te naquela noite fria:
“Meu amor, talvez eu não possa regressar.”
Mas como dizer àquela que me espera
que seu amanhã talvez não vá chegar?
Escrevi teu nome — e a mão me tremeu;
a chuva fez a tinta se espalhar.
Parecia que até as próprias letras
recusavam-se a aprender como acabar.
Então guardei o papel ainda vazio:
certos adeuses não devemos pronunciar.
Enquanto uma palavra permanecer por escrever,
há uma esperança secreta de voltar.
PASSO V — OS QUE FICARAM PELO CAMINHO
Éramos muitos quando tudo começou;
hoje evito contar quem ainda vem atrás.
Alguns deixaram sonhos sobre a estrada;
outros encontraram um silêncio sem jamais.
Cada ausência marcha ao nosso lado,
como um companheiro que a morte não desfaz.
Aprendi que os mortos têm passos silenciosos
e caminham na memória dos demais.
Não desejo vingança pelos que partiram;
desejo apenas aquilo que não tiveram mais:
uma porta aberta, uma mesa, um abraço,
e o direito simples de envelhecer em paz.
PASSO VI — O HOMEM QUE JÁ NÃO CONHEÇO
Vi meu rosto refletido numa poça
e perguntei: “Quem és tu que olhas para mim?”
Havia nos meus olhos tantas noites
que já não reconheci quem fui no princípio.
Onde está o homem que beijou aquela mulher?
Onde o rapaz que acreditava no porvir?
Talvez tenha ficado junto àquela porta,
esperando o corpo que partiu sem realmente partir.
Ó guerra, podes tomar-me os anos,
mas uma coisa jamais te permitirei destruir:
a lembrança daquela que ainda amo
e a esperança de novamente lhe sorrir.
PASSO VII — SEM DIREÇÃO
Dou agora o sétimo passo na lama
e já não sei se avanço ou se retorno.
À frente há fumaça; atrás, lembranças;
dentro de mim, teu nome feito porto.
Se amanhã meus pés encontrarem nossa estrada,
correrei para teus braços como outrora;
não quero medalhas, glórias ou monumentos,
quero apenas chegar vivo à nossa porta.
E se meus passos cessarem neste caminho,
não chores eternamente minha ausência, meu amor:
planta uma flor onde deixei minhas pegadas
e deixa que ela diga aquilo que não pude dizer.
Pois talvez o homem perdido não seja aquele sem caminho,
mas aquele que já não possui alguém por quem voltar.
(Betto Gasparetto – 1997)
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