Por Que Eu Te Amo Tanto Assim?
Oito movimentos para uma pergunta que o coração jamais termina de responder
(Betto Gasparetto)
Trilha Sonora: Concerto aos Espelhos – Colar de Pérolas

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I — O MISTÉRIO
Por que eu te amo tanto assim? Não sei dizer,
pois certas verdades recusam explicação;
talvez teu olhar tenha encontrado em meu silêncio
uma porta que eu julgava fechada à emoção.
Talvez tua presença tenha acordado em minha alma
o que nenhum sonho conseguira despertar.
Sei apenas que, antes de ti, eu simplesmente existia,
e depois de ti aprendi a desejar o infinito;
desde então, viver é procurar-te em tudo quanto é belo.
II — O PRIMEIRO ENCANTO
Não foi somente a beleza que me rendeu,
nem o fulgor sereno que repousava em teu olhar;
foi algo sem nome, anterior às palavras,
que fez meu coração reconhecer-te sem te conhecer.
Havia em teu sorriso uma promessa sem juramento,
uma ternura capaz de desarmar minha razão.
E quando tua mão, por acaso, encontrou a minha,
o mundo pareceu pequeno para tamanha felicidade;
naquele instante, meu destino mudou sem fazer ruído.
III — A CONFISSÃO
Eu te amo porque junto a ti não preciso esconder-me,
nem vestir minha alma com aparências ou temor;
posso entregar-te minhas frágeis imperfeições,
e ainda assim permanecer inteiro diante de teus olhos.
Amo-te porque escutas até aquilo que não pronuncio,
e compreendes a tristeza antes que ela se torne lágrima.
Em ti encontro o raro repouso de ser quem sou,
sem recear que minhas sombras diminuam tua ternura;
amar-te é ser acolhido onde jamais pensei caber.
IV — O DESEJO
Mas não julgues ser apenas doce este sentimento:
há fogo em mim quando te aproximas devagar.
Meu sangue aprende tempestades ao sentir teu perfume,
e minha prudência esquece o caminho de regressar.
Desejo teus lábios como a noite deseja a aurora,
não para possuí-los, mas para neles me perder.
Quero o instante em que tua respiração encontra a minha,
quando dois silêncios se confundem num só arrepio;
e o próprio Tempo, envergonhado, deixa de nos interromper.
V — O QUE OS ANOS NÃO LEVAM
Que venham os anos com seus passos inevitáveis,
e escrevam sobre nós as marcas de sua passagem.
Hei de amar também a prata em teus cabelos,
como hoje amo a juventude de tua face iluminada.
Quando nossas mãos carregarem mapas de outras eras,
ainda procurarei teus dedos entre todos os caminhos.
Não quero um amor preservado contra o envelhecimento,
quero envelhecer para descobrir novas maneiras de amar-te;
pois há belezas que somente o tempo sabe revelar.
VI — A ESCOLHA
Entre mil caminhos, escolheria novamente o teu,
mesmo conhecendo cada pedra que encontraria.
Repetiria as esperas, os receios e as distâncias,
se ao término de cada noite tua presença me aguardasse.
Não desejo uma história sem tempestades ou cicatrizes,
mas aquela em que permaneçamos depois delas.
Pois amar não é encontrar um destino sem invernos,
é reconhecer a mesma mão quando a luz desaparece;
e dizer: fica — ainda temos primavera para inventar.
VII — O INEXPLICÁVEL
Ainda me perguntas por que te amo tanto assim?
Como explicar ao mar por que procura a margem?
Como perguntar à rosa por que oferece perfume,
ou à madrugada por que devolve luz às janelas?
Meu amor não nasceu de cálculo, promessa ou conveniência;
chegou como chegam as coisas destinadas a permanecer.
Fez morada onde eu guardava antigos receios,
transformou minha solidão em espaço para dois;
e tornou teu nome a mais íntima palavra do meu coração.
VIII — A RESPOSTA
Agora sei por que te amo tanto assim:
não por aquilo que possuis, prometes ou aparentas,
mas pelo que desperta em mim quando estás perto.
Contigo desejo ser mais verdadeiro que perfeito,
mais humano que invencível, mais inteiro que eterno.
E se um dia me perguntarem o que fiz desta existência,
não falarei de glórias, riquezas ou caminhos conquistados;
direi apenas que encontrei alguém por quem valeu a pena viver —
e que te amar foi a mais bela resposta que a vida deu à minha pergunta.
(Betto Gasparetto – 2009)
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