O Distante Também Se Perde

Elegia em três movimentos sobre aquilo que partiu antes que o coração aprendesse a despedir-se

(Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Estudo nr 02 – Olhares de Inverno

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — A DISTÂNCIA QUE NASCEU ENTRE NÓS

Quando partir não exige sequer um adeus

Não foi tua partida que primeiro me feriu,
mas o silêncio que chegou antes de teus passos.
Estavas ainda perto — e já eras distância,
como estrela que contemplamos quando já se extinguiu.
Eu poderia ter chamado; calei-me por orgulho.
Poderia ter ficado; escolhi parecer ausente.
E enquanto nossos olhos evitavam despedidas,
o amor, sem testemunhas, abandonava lentamente a casa.
Agora sei: ninguém parte apenas quando vai embora;
há quem comece a partir permanecendo ao nosso lado.
E eu, insensato, vi nascer entre nós um oceano
e julguei que amanhã ainda haveria ponte.
Ah, se soubesse que o distante também se perde,
teria atravessado o mundo antes de deixar-te partir.

II — O TRIBUNAL DA MEMÓRIA

Onde o remorso interroga aquilo que o tempo não absolveu

Agora a noite traz teu rosto aos meus aposentos,
e cada sombra conhece aquilo que não confessei.
Pergunto às horas onde escondeste tua presença;
elas respondem com tudo quanto desperdicei.
Por que guardei palavras quando desejava dizê-las?
Por que neguei meus braços quando queriam acolher?
Que miserável soberba fez de mim um estrangeiro
diante daquele amor que eu temia merecer?
Hoje daria meus amanhãs por uma única tarde,
um instante apenas para corrigir aquele adeus.
Diria: “Fica”; e nessa breve palavra entregaria
o que meu silêncio outrora sepultou dentro de nós.
Mas o remorso é um relógio sem ponteiros:
marca eternamente a hora que jamais regressará.

III — ONDE A AUSÊNCIA APRENDEU MEU NOME

E o coração compreende tarde demais o valor do que perdeu

Há um lugar vazio ao lado de minha esperança
onde nenhuma outra presença conseguiu repousar.
Não porque o mundo tenha perdido sua beleza,
mas porque certos olhos nos ensinam como contemplá-la.
O mar ainda recebe o ouro do entardecer,
as flores ainda se oferecem à primavera,
e contudo alguma coisa falta em cada maravilha,
como se tua ausência houvesse empobrecido a luz.
Já não peço ao destino que te faça regressar;
há súplicas que chegam tarde até aos céus.
Peço somente que, onde quer que tua vida floresça,
alguma brisa te recorde que foste profundamente amada.
Quanto a mim, guardarei esta verdade até o último inverno:
não é somente o que possuímos que podemos perder —
o distante também se perde quando demoramos demais para alcançá-lo.

(Betto Gasparetto – 2011)

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