Perdidos Dentro de uma Dança de Salão
Seis danças entre o esplendor de um encontro, a vertigem do desejo e a música que sobrevive à despedida.
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
DANÇA # I — A VALSA DOS OLHARES INCONFESSOS
Sob os cristais de um século esquecido,
A noite desdobrava o seu cetim;
Teu vulto atravessou o salão florido,
E o mundo inteiro se afastou de mim.
Havia em teus cabelos certa aurora,
Um delicado anúncio de esplendor;
E o meu olhar, que nunca se enamora,
Rendeu-se à majestade desse ardor.
Pedi-te a mão com tímida ousadia,
Sentindo o peito em súbita expansão;
E antes que a orquestra principiasse,
Já nos perdíamos na mesma canção.
DANÇA # II — O MINUETO DAS MÃOS ENTRELAÇADAS
Teus dedos repousaram entre os meus,
Qual confidência entregue ao pensamento;
E os passos, sob a bênção dos céus,
Ganharam a cadência do encantamento.
Não era apenas dança o que fazíamos,
Mas uma antiga forma de dizer
Aquilo que em silêncio pressentíamos,
Sem que a razão pudesse compreender.
Teu corpo, em delicada proximidade,
Guardava a compostura e a sedução;
E cada volta, em sua brevidade,
Tornava mais profundo o coração.
DANÇA # III — O TANGO DAS PAIXÕES VELADAS
A música desceu às regiões secretas,
Onde o desejo aprende a murmurar;
Teus olhos, como lâminas discretas,
Fizeram minha prudência vacilar.
Havia em teus movimentos tal nobreza,
Que até o fogo parecia obedecer;
E em cada pausa, envolta em sutileza,
Um universo ousava estremecer.
Não quis possuir o instante ou dominá-lo,
Mas conceder-lhe inteira devoção;
Pois há um beijo que, antes de alcançá-lo,
Já deixa sua marca na emoção.
DANÇA # IV — A MAZURCA DAS HORAS FUGIDIAS
O grande relógio anunciou a madrugada,
E a orquestra entristeceu seu esplendor;
Teu rosto, sob a luz já fatigada,
Guardava a inquietação de alguma dor.
Pressenti que uma sombra nos seguia,
Vestida de silêncio e discrição;
Talvez o Tempo, em sua tirania,
Viesse reclamar nossa ilusão.
Apertei tua mão sem dizer nada,
Temendo que o destino a reclamasse;
E a última cadência, prolongada,
Suplicou que a manhã não despertasse.
DANÇA # V — O ADÁGIO DOS SALÕES DESERTOS
Partiste quando os lustres se apagaram,
Sem que eu soubesse a causa ou a razão;
As flores, que teus dedos perfumaram,
Restaram como súplica no salão.
O piano conservou tua lembrança,
Nas notas que ninguém tornou a ouvir;
E o espelho, testemunha de nossa dança,
Parecia perguntar por teu partir.
Voltei sozinho àquela mesma sala,
Buscando entre os reflexos teu perfil;
Mas a saudade, quando o peito a cala,
Faz de uma breve ausência um tempo hostil.
DANÇA # VI — A ÚLTIMA VALSA ANTES DA ETERNIDADE
Se algum inverno devolver teus passos,
E a vida consentir nosso reencontro,
Não pedirei explicações aos teus abraços,
Nem julgarei os anos do desencontro.
Convidar-te-ei à valsa derradeira,
Sob a ternura de um clarão outonal;
E mesmo que a estação seja estrangeira,
Teremos novamente o nosso baile real.
Pois quem se perde em tão sublime dança
Não busca nos relógios direção;
Descobre que o amor, quando alcança a alma,
Faz de dois destinos um só coração.
(Betto Gasparetto – 2010)
Deixe um comentário