14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (10/14)

Posted in Sem categoria on 1 de janeiro de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Átrio 10 – Sua Majestade a Guerra

By Dall-E 3

I
Salve, sua majestade a guerra,
Que se assenta no trono de ossos quebrados,
E ergue sua coroa, feita de dor e desespero,
Sobre os corpos daqueles que ousaram desafiar seu domínio.
Vós, que queimais os campos com promessas de glória,
E pintais o céu com as cores do sangue inocente,
Qual é o seu trono, senão um monte de cinzas,
Onde as esperanças se tornam estilhas e os sonhos, ruínas?
II
Vós, senhora da destruição, como reinais
Sobre os corações dos homens que, cegos, se lançam a vós,
Achando que em vossa chama encontrarão a liberdade,
Quando, na verdade, vós os aprisionais na eternidade do sofrimento.
Ah, como sois astuta, sua majestade a guerra!
Com seu manto de promessas grandiosas,
Seduz aqueles que, em nome da honra, se tornam peões,
E fazeis deles seus escravos, sem sequer saberem,
Que o verdadeiro inimigo não está nas trincheiras,
Mas dentro de seus próprios corações, envergonhados pela humildade.
III
Não é uma rainha de justiça,
Mas uma tirana que dança sobre os restos de um mundo em chamas,
Onde o choro das mães se confunde com os gritos dos filhos
E a carne se desfaz como cinza no vento da fúria.
Ah, como são lindas, sua majestade a guerra,
Com seu brilho feito de morte e desespero!
Vós, que prometeis glória a todos que se ajoelham,
Mas ao final, mostram-lhes nada além de uma coroa de espinhos
E uma eternidade de dor em seus espíritos marcados.
IV
E o que dizer dos homens que vocês seguem?
Vós, que os corrompeis com vossa promessa de poder,
E os usamos como armas em vosso jogo cruel?
Eles marcham, erguendo suas bandeiras de ilusão,
Sem saber que, no fim, não são mais do que carne para o canhão,
Com suas almas despedaçadas por cada passo que dão
Na sua estrada de destruição e sofrimento.
Ah, mas quem é a culpa?
Pois vós, sua majestade a guerra, assim é a verdadeira culpada,
Com vosso coração impiedoso, de ferro e fogo,
Que nada sabe da misericórdia, e tudo sabe da destruição.
V
(…)
VI
No fim, o que restará de vós,
Quando o último suspiro de uma batalha tiver cessado?
Não haverá mais coroas de espadas, nem campos conquistados,
Mas apenas a ruína de um mundo que jamais soube
Que a verdadeira vitória não se alcança pela destruição,
Mas pela construção de algo mais grandioso: a paz.
VII
Vossa majestade, então, se desvanecerá,
Como uma névoa que se dissolve sob a luz da verdade,
E os homens, finalmente, ver-se-ão livres de seu domínio,
Pois a guerra, como tudo, é passageira,
E o amor, a única verdadeira soberania, reinará.

(Betto Gasparetto- xi/xcvi)

14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (09/14)

Posted in Sem categoria on 1 de janeiro de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Átrio 9 – Abortos Inglórios (Ventre Nostrum)

by Dall-E 3

I
Ah, o aborto, ignomínia disfarçada de escolha,
Onde a vida, ainda incerta, se vê arrancada,
Antes mesmo de ter o direito de respirar,
E no silêncio do ventre, o futuro é desligado.
Que vil e ingloriosa é essa decisão,
Onde o destino de uma alma está selado
Pelas mãos de quem, na ânsia de um prazer,
Esqueceu a responsabilidade que vem com o toque da criação.
II
Que se faz da promessa de uma vida
Quando ela é apenas uma sombra a desaparecer?
Aquele que escolhe abortar a esperança,
Que planta o vazio onde poderia haver luz,
Não conhece o valor de um ser que poderia nascer,
De uma possibilidade que jamais será.
E o que resta, então, senão o eco da perda
Que retumba na alma de quem, ao decidir,
Se esqueceu que a vida não é uma mercadoria
Que pode ser descartada ao sabor do desejo?
III
Ah, mas vós, que julgais ter o direito de tomar tal decisão,
Não vêem que, ao levar a vida, tomais também a vossa?
Pois quem apagou o fogo do futuro,
Esteriliza o próprio coração,
E, no fundo, se torna prisioneiro de sua própria escolha.
IV
Porque, ao matar a possibilidade de um ser,
você mata algo mais profundo:
uma chance de aprender, de amar, de mudar.
E quando o silêncio do arrependimento chegar,
Já será tarde demais, pois a decisão, tomada com pressa,
É irremediável, e o vazio de um possível filho
Se transformará em um buraco sem fim,
A carregar uma dor que não se desliga.
V
Ah, e o que será de vós, ao olhardes para o espelho,
Sabendo que fostes os carrascos de um futuro não vívido?
O que será do coração, que jamais saberá o toque da mão
De quem poderia ter sido, mas não foi?
VI
(…)
VII
A vida, com todas as suas dores e alegrias,
Não pode ser descartada como um objeto velho,
Porque o que é dado à humanidade, como o nascimento,
Não pertence ao homem para destruir, mas para respeitar.
E ao fim, o que fica, quando o aborto é inglório,
Não é a paz, mas uma cicatriz na alma
Que jamais será curada, e que não há tempo
Para apagar a marca daquilo que se fez.

(Betto Gasparetto- xi/xcvi)

14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (08/14)

Posted in Sem categoria on 1 de janeiro de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Átrio 8 – O Amor em Pontes Distantes

By Dall-E 3

I
Oh, que ironia cruel é o amor,
Quando se torna apenas mais um pedágio,
Cobrado a cada passo, a cada suspiro,
E a alma, em sua pureza, é arrancada sem piedade!
Não se pode mais amar sem pagar o preço,
E, para atravessar o caminho do coração,
É preciso entregar-se à estrada dos sacrifícios,
Onde o amor é cobrado, e o custo é imenso.
II
Você, que diz que o amor era gratuito,
Que seu coração era um refúgio sem taxas,
Onde está agora a sua engenhosidade?
O amor, que outrara florescia com facilidade,
Agora exige moedas, promessas e dores,
E, ao final, mesmo a mais pura das almas
III
(…)
IV
Será roubada, despojada de sua inocência,
Em troca de um toque, de um beijo, de um olhar,
E, ao chegar ao fim da estrada, não encontrará descanso,
mas apenas mais um pedágio, mais uma exigência.
V
Ah, como vocês vos enganam ao pensar que o amor
Era um rio que fluía livre, sem barreiras,
Quando, na verdade, é um rio de correntezas fortes,
Onde cada desejo, cada suspiro, é cobrado com juros.
VI
O que é o amor senão uma balança injusta,
Onde a mão pesada da expectativa
Sempre cobra mais do que a alma está disposta a pagar?
E vós, que andais por esse caminho tortuoso,
Acho que encontrareis a paz na chegada,
Deveis saber que a viagem nunca acaba,
E o preço do amor nunca é o mesmo,
Pois, ao final, não restará mais que cansaço,
E o vazio de um coração que não pode mais ser preenchido.
VII
E, o que é pior, meus caros,
É que ao longo desse caminho,
Quando olharmos para trás, veremos que nada fizemos
Além de pagar pedágio após pedágio,
Sem nunca encontrarmos o que procurávamos.
O amor não é mais o campo verdejante,
Mas um labirinto de moedas e promessas quebradas,
Onde, ao final, não há mais o que oferecer,
Pois tudo foi pago, tudo foi dado,
E o que resta é apenas a dúvida amarga,
De que, talvez, o preço de amar
Seja, afinal, mais do que alguém possa suportar.

(Betto Gasparetto- xi/xcvi)

14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (07/14)

Posted in Sem categoria on 31 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Átrio 7 – Bastardos Juízes

By Dall-E 3

I
(…)
II
Ah, que estranha é a face do julgamento,
Quando aqueles que sentam sobre o trono da lei
Não são senão bastardos da justiça,
Filhos do erro, herdeiros da vaidade!
Vós, que, com palavras cheias de veneno,
Dizeis o que é certo e o que é errado,
Com as suas bocas sujas de engano,
Com os seus corações podres de prepotência,
Que direito tende de pesar a balança da verdade,
Quando a sua própria essência está corrompida?
III
Ah, como sois raposas no campo da moral,
Que, com um sorriso de superioridade,
Tendeis a proclamar, como deuses, o veredicto,
Mas vossas mãos tremem ao tocar o peso da razão!
Bastardos, vós não sabeis o que é justiça,
Pois a verdadeira justiça é o olhar do justo,
E não o olhar impuro de quem,
Perto do poder, perdeu a alma.
Como podem aqueles que são filhos do erro
Impôr o peso da verdade sobre os inocentes?
IV
O que é a lei, senão um reflexo do que somos?
E se somos prejudicados, como pode a lei ser pura?
Vós, que ergueis os olhos para julgar,
Com que coragem o fazeis, quando o pecado
Mora no mais íntimo dos vossos corações?
A verdade escapa de seus lábios como veneno,
E a mentira, cheia de ouro, escorre de suas mãos.
Vocês não são juízes, mas carrascos,
Com penas de prata, que destroem as almas
Com a mesma facilidade com que arruínam os corpos.
V
Que ironia é esta, que se diz de vós como justos,
Quando, na essência, só são servos do egoísmo?
Bastardos juízes, vossas sentenças são vazias,
E o que é dito de vós se dilui no vento,
Pois, no fim, a verdadeira justiça não reside
Nos tronos que vós ocupais, mas no coração
De quem, ao ser julgado, permanece digno,
Enquanto vós, com vossas falácias,
Caem como figos podres da árvore da mentira.
VI
O seu império é de fumo, é de ilusão,
Construído sobre areia movida de interesses sujos.
E o povo, que segue cegamente,
Não percebe que o próprio sistema que cria
Está condenado a ruir sob o peso da sua hipocrisia.
Ao final, bastardo juiz, o que restará de vós
Será apenas o eco de uma mentira que jamais poderá ser redimida.
VII
(…)

(Betto Gasparetto- xi/xcvi)

14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (06/14)

Posted in Sem categoria on 31 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Átrio 6 – Geração de Ostentações

By Dall-E 3

I
Ah, que geração é esta, onde a dor é uma herança,
Onde os filhos nascem não da luz, mas da escuridão!
Vós, filhos do aço e do sangue derramado,
Que nascem com as mãos manchadas de culpa,
E os olhos cegos pela indiferença,
Não só são senão os algozes de sua própria linhagem.
Onde estão os heróis, aqueles que, com coragem,
Erguem a cabeça contra a tirania e a injustiça?
Agora, em seu lugar, vós sois os carrascos,
Derramando o veneno da ignorância e do ódio,
E com suas mãos imundas, calcais os sonhos
Que, outrara, poderia ter sido grande.
II
O que foi que fizestes de vosso espírito,
De vossas almas que, por sua vez, deveriam ser puras?
Ah, vós sois criaturas forjadas no fogo da dor,
Mas não em busca de redenção,
Mas em busca de destruição.
Seus passos não são ecos de sabedoria,
mas os passos pesados ​​de quem já sabe que não há salvação.
Vós sois os algozes de vossos próprios pais,
E, sem saber, já estais condenados a carregar
O peso de um fardo que vós mesmos criastes.
III
(…)
IV
(…)
V
Não é por força que se impõe a justiça,
mas por coração, por entendimento profundo.
Mas onde está o coração? Onde está a compaixão?
Ah, não, vós sois apenas sombras,
Almas vazias que se alimentam do sofrimento,
E vossos olhos, ao invés de verem a luz,
Apenas refletem o ódio que vós mesmos semeais.
Onde, então, a espera pode florescer
Se o solo é escasso de verdade e entendimento?
VI
Você é uma geração que se regozija na destruição,
Seus nomes serão lembrados não pela grandeza,
Mas pela dor que deixou para trás de si.
Vós que fazemeis da mentira a vossa espada
E da indiferença o vosso escudo,
Sois os algozes de uma geração perdida,
E, ao fim, não há reino, nem coroa,
Somente o vazio de um mundo que foi dado em sacrifício
Pelas mãos de quem nunca soube o valor do perdão.
VII
O que vós semeiais, oh geração,
É uma colheita amarga de desespero,
E, quando o sol da verdade brilha sobre vós,
Ver-se-á que nada resta, senão escombros,
Pois vós não criastes, mas destruístes,
E ao vosso redor o silêncio ecoará
De um mundo que, por sua causa, se desintegrou.

(Betto Gasparetto- xi/xcvi)