(Betto Gasparetto)
Átrio 10 – Sua Majestade a Guerra

By Dall-E 3
I
Salve, sua majestade a guerra,
Que se assenta no trono de ossos quebrados,
E ergue sua coroa, feita de dor e desespero,
Sobre os corpos daqueles que ousaram desafiar seu domínio.
Vós, que queimais os campos com promessas de glória,
E pintais o céu com as cores do sangue inocente,
Qual é o seu trono, senão um monte de cinzas,
Onde as esperanças se tornam estilhas e os sonhos, ruínas?
II
Vós, senhora da destruição, como reinais
Sobre os corações dos homens que, cegos, se lançam a vós,
Achando que em vossa chama encontrarão a liberdade,
Quando, na verdade, vós os aprisionais na eternidade do sofrimento.
Ah, como sois astuta, sua majestade a guerra!
Com seu manto de promessas grandiosas,
Seduz aqueles que, em nome da honra, se tornam peões,
E fazeis deles seus escravos, sem sequer saberem,
Que o verdadeiro inimigo não está nas trincheiras,
Mas dentro de seus próprios corações, envergonhados pela humildade.
III
Não é uma rainha de justiça,
Mas uma tirana que dança sobre os restos de um mundo em chamas,
Onde o choro das mães se confunde com os gritos dos filhos
E a carne se desfaz como cinza no vento da fúria.
Ah, como são lindas, sua majestade a guerra,
Com seu brilho feito de morte e desespero!
Vós, que prometeis glória a todos que se ajoelham,
Mas ao final, mostram-lhes nada além de uma coroa de espinhos
E uma eternidade de dor em seus espíritos marcados.
IV
E o que dizer dos homens que vocês seguem?
Vós, que os corrompeis com vossa promessa de poder,
E os usamos como armas em vosso jogo cruel?
Eles marcham, erguendo suas bandeiras de ilusão,
Sem saber que, no fim, não são mais do que carne para o canhão,
Com suas almas despedaçadas por cada passo que dão
Na sua estrada de destruição e sofrimento.
Ah, mas quem é a culpa?
Pois vós, sua majestade a guerra, assim é a verdadeira culpada,
Com vosso coração impiedoso, de ferro e fogo,
Que nada sabe da misericórdia, e tudo sabe da destruição.
V
(…)
VI
No fim, o que restará de vós,
Quando o último suspiro de uma batalha tiver cessado?
Não haverá mais coroas de espadas, nem campos conquistados,
Mas apenas a ruína de um mundo que jamais soube
Que a verdadeira vitória não se alcança pela destruição,
Mas pela construção de algo mais grandioso: a paz.
VII
Vossa majestade, então, se desvanecerá,
Como uma névoa que se dissolve sob a luz da verdade,
E os homens, finalmente, ver-se-ão livres de seu domínio,
Pois a guerra, como tudo, é passageira,
E o amor, a única verdadeira soberania, reinará.
(Betto Gasparetto- xi/xcvi)



