Arquivo para maio, 2026

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 14/14)

Posted in Sem categoria on 6 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Trilha: Johann Sebastian Bach — Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ, BWV 639


(Betto Gasparetto)

Capítulo 14 — O Pacto Ainda Sem Nome

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A noite voltou devagar, sem tempestade. O céu escureceu em camadas, e as primeiras estrelas apareceram acima dos ciprestes. A casa recebeu de novo o amarelo das velas, o calor das lareiras, o perfume da cera e da lenha. Mas algo havia mudado. Não na arquitetura. No ar.

Jantaram pouco. Falaram menos. A conversa essencial já fora dita, e o coração precisava agora de tempo para acomodar o que ouvira. Depois do jantar, tornaram à varanda. O canal, negro, refletia apenas alguns pontos de luz vindos da casa e de uma janela distante de alguma propriedade vizinha.

Nenhum dos dois se sentou. Ficaram lado a lado, apoiados na grade de ferro, olhando a água.

— Não posso prometer serenidade — disse a visita. — Trago comigo consequências que ainda não terminei de resolver. Dívidas morais, materiais, vínculos quebrados, notícias que talvez não lhe agradem.

— Eu não quero promessas ornadas — respondeu a voz da casa. — Quero permanência com verdade. Só isso.

A resposta foi tão exata que quase parecia ter sido preparada pela alma durante anos.

Após uma longa pausa, a visita estendeu a mão. Não com a autoridade de quem reivindica, nem com o atrevimento da juventude, mas com a reverência de quem pede licença ao que feriu.

A outra mão pousou sobre ela.

Não havia ainda perdão inteiro.
Não havia futuro definido.
Não havia nome para o que recomeçava.

Mas havia, entre ambos, algo que não existia na noite da chegada: uma decisão tácita de não deixar que o passado continuasse a ser o único morador daquela casa.

E assim terminou o segundo episódio da grande travessia — não com o triunfo do amor, mas com algo mais verdadeiro: o consentimento, ainda frágil, de reconstruir.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 3

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 13/14)

Posted in Sem categoria on 5 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Trilha: Henry Purcell — When I Am Laid in Earth


(Betto Gasparetto)

Capítulo 13 — A Confissão Junto À Escadaria

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

À tarde, o sol apareceu por breve tempo. Um ouro pálido pousou sobre a escadaria de pedra que descia ao jardim lateral e tocou os vasos vazios, os bancos úmidos e a treliça coberta de hera escurecida pelo frio. Desceram juntos, não por decisão formal, mas porque a conversa parecia exigir um espaço onde o ar circulasse melhor do que entre paredes.

Na metade da escadaria, pararam.

A casa erguia-se atrás deles com toda a sua antiga autoridade. O canal, ao longe, permanecia silencioso. O jardim ainda guardava traços da geada da noite, mas ali e ali a terra começava a ceder sob o possível.

Foi nesse lugar suspenso entre interior e exterior que a confissão mais difícil veio.

— Houve um tempo — disse a visita — em que julguei que, ao me afastar, o pouparia de uma vida de ruínas. Achei que a ausência seria uma espécie de misericórdia.

A outra presença soltou um breve riso sem alegria.

— A ausência nunca foi misericordiosa. Foi apenas vazia.

A visita baixou os olhos.

— Eu sei.

— Não — respondeu a voz com suavidade severa. — Você sabe agora. Naquele tempo, sabia apenas o que temia.

O vento moveu a hera. Um cheiro de terra fria subiu do canteiro junto à escada.

— E você? — perguntou a visita, desta vez quase em voz baixa. — Houve alguém depois?

A resposta foi dada sem teatralidade, o que a tornou mais bela.

— Houve deveres. Houve convites. Houve presenças sem morada. Houve quem admirasse a casa, as terras, a herança. Mas não houve quem soubesse onde nesta escadaria a luz da tarde se recolhe no inverno. Não houve quem conhecesse o perfume exato do corredor leste depois da chuva. Não houve quem olhasse esta varanda sem me lembrar do que foi perdido.

Pela primeira vez, os olhos da visita se encheram de uma dor clara, quase humilde.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 14

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 12/14)

Posted in Sem categoria on 4 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Sugestão musical: Claudio Monteverdi — Lamento della Ninfa

Æsthesis – Lamento della ninfa (Clip officiel)


(Betto Gasparetto)

Capítulo 12 — O Retrato Velado

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No canto do salão havia um retrato coberto por um pano claro. A visita o observou por alguns instantes, como quem reconhece um objeto íntimo sem se permitir nomeá-lo.

— Ainda o mantém coberto — disse.

— Nunca soube se era devoção ou castigo — respondeu a outra voz.

Levantou-se, então, e retirou o véu.

Sob o tecido, revelou-se uma pintura feita anos antes: uma paisagem com canal, varanda e um céu de primavera. Não havia figuras humanas, mas havia, sobre a grade de ferro, duas taças. Era um retrato sem corpos e, por isso, mais doloroso do que se mostrasse rostos.

A visita aproximou-se com visível abalo.

— Eu me lembro deste dia.

— Eu também. Por isso o cobri.

O silêncio que se seguiu tinha qualquer coisa de litúrgico. Como se o quadro não representasse apenas uma lembrança, mas a prova material de que um tempo inteiro existira e fora real, apesar do que o sofrimento posterior tentara fazer parecer.

— Eu devia ter voltado antes do inverno daquele ano — disse a visita.

— Devia — respondeu a outra voz. — E eu devia ter deixado de esperar como se a espera fosse uma virtude.

Os olhos encontraram-se outra vez, mas dessa vez com menos dureza e mais exaustão. A exaustão é, às vezes, o primeiro terreno possível para a compaixão.

— E agora? — perguntou a visita, com simplicidade.

A resposta demorou, porque não dizia respeito apenas ao dia, nem à semana, nem à presença na casa.

— Agora eu não quero mais viver cercado de coisas cobertas — veio enfim a resposta. — Nem retratos, nem cartas, nem verdades.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 13

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 11/14)

Posted in Sem categoria on 3 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Sugestão musical: John Dowland — Flow My Tears

Flow my tears – Fiona Campbell


(Betto Gasparetto)

Capítulo 11 — O Salão das Janelas Fechadas

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Ainda pela manhã, recolheram-se para um pequeno salão lateral, mais íntimo do que o grande aposento da noite anterior. As janelas estavam fechadas contra o frio, e sobre uma mesa oval repousavam uma bandeja de café, pão morno, frutas conservadas e um vaso com ramos secos de inverno. As paredes, revestidas de madeira escura, sustentavam quadros discretos: naturezas-mortas, uma paisagem marítima, um retrato antigo quase desbotado.

Havia ali um calor mais humano. Menos teatral. Menos sujeito ao peso da memória pública da casa.

A visita tomou a xícara, mas não bebeu de imediato.

— Quando parti — começou — acreditei estar me afastando apenas de um conflito passageiro. Um ou dois meses, pensei. Talvez uma estação. Encontraria meios, resolveria o que me exigiam, voltaria com a dignidade inteira.

A outra presença nada disse. Apenas escutou.

— Mas tudo se desfez em sequência. O contrato foi rompido. O homem que me fizera promessas morreu devendo mais do que possuía. A casa onde me hospedava foi vendida. Depois veio a doença. E, quando por fim pude ter alguma liberdade, eu já não tinha rosto para bater a esta porta.

A xícara foi enfim pousada.

— Diga a verdade inteira — respondeu a voz que escutava. — Não foi só a pobreza que o manteve longe.

A visita ergueu os olhos.

— Não. Foi também o medo de encontrá-lo curado de mim.

A resposta permaneceu no ar com uma intensidade quase insuportável.

A luz que entrava pelas frestas das cortinas desenhou faixas pálidas sobre o chão. Do lado de fora, alguém atravessou o corredor. O mundo continuava. Mas naquele pequeno salão, duas vidas começavam a revisar a própria ruína sem a máscara da retórica.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 12

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 10/14)

Posted in Sem categoria on 2 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Sugestão musical: Guillaume de Machaut — Douce dame jolie

Guillaume de Machaut: Douce Dame Jolie | La Morra


(Betto Gasparetto)

Capítulo 10 — As Cartas Que Não Chegaram

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Um vento leve atravessou a varanda, trazendo consigo o rumor seco de folhas no caminho lateral. De algum lugar da casa vinha o som abafado de porcelana sendo posta sobre bandejas. A manhã avançava com aquela lentidão cerimonial própria das residências antigas, onde cada gesto parecia carregar consigo o eco de gerações.

A voz da casa permaneceu voltada para o canal, como se falasse à água.

— Houve cartas — disse. — Poucas. Frias. Breves demais. Em algumas, mal se reconhecia quem escrevia. Em outras, reconhecia-se apenas o cuidado de não dizer.

A visita ergueu o rosto devagar.

— Eu escrevi outras.

Agora foi o olhar que se voltou com espanto.

— Outras?

— Sim. Algumas longas. Algumas indecorosas em sua franqueza. Algumas em noites tão ruins que eu as teria confiado ao próprio fogo se não houvesse acreditado, por um momento, que ainda poderiam salvá-lo de me odiar.

— Nunca chegaram.

O canal pareceu escurecer por um instante, embora o céu permanecesse claro.

A visita passou a mão pelos cabelos com cansaço.

— Então alguém as reteve.

A frase caiu entre os dois com uma gravidade nova. Porque o dano, quando vinha do abandono, podia ser lamentado. Mas quando vinha da intervenção de mãos alheias, tornava-se quase uma profanação.

— Havia interesses demais em nossa distância — disse a voz da casa, baixando enfim o orgulho suficiente para nomear o que antes apenas suspeitava. — Havia olhos atentos demais à ordem desta propriedade, às conveniências dos parentes, à expectativa dos nomes, dos acordos, das heranças.

A visita fechou a mão sobre a grade da cadeira.

— Eu fui fraco diante deles.

— E eu fui orgulhoso demais diante da dor.

Pela primeira vez desde o reencontro, a culpa não foi lançada como arma. Foi depositada como pedra comum, diante da qual ambos se reconheceram igualmente feridos.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 11