Arquivo para junho, 2026

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 49/49)

Posted in Sem categoria on 10 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 5 — A Geometria das Ausências

Trilha: Sergei Rachmaninoff — Vocalise

(Betto Gasparetto)

Capítulo 49—  A Mulher do Retrato

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Pouco antes do amanhecer Sophie saiu do quarto.

Não pensava.

Ou pensava demais.

Corredores silenciosos.

Tapetes.

Lampiões.

Neve além das janelas.

Silêncio.

Caminhou até o corredor norte.

Aquele evitado pelos criados.

Aquele onde Helena raramente permanecia.

Parou.

Muito.

Porque algo estava diferente.

A parede.

Silêncio.

Havia um retrato.

Grande.

Antigo.

E Sophie tinha absoluta certeza:

não estava ali no dia anterior.

Aproximou-se lentamente.

Luz baixa.

Poeira.

Moldura escura.

Silêncio absoluto.

Uma mulher.

Vestido azul.

Luvas claras.

Olhar triste.

Mesma mulher do medalhão.

Mesma.

Mas agora havia algo novo.

Muito.

Na parte inferior:

placa metálica.

Pequena.

Gravada:

Marguerite Lefèvre

Silêncio.

Mais abaixo:

“Primeiro Inverno.”

Longa pausa.

Muito longa.

E então Sophie percebeu algo impossível.

O retrato.

Os olhos.

Silêncio absoluto.

Porque pareciam voltados diretamente para o corredor.

Não para a frente.

Não para o salão.

Para ela.

E atrás da moldura: GY

E abaixo:

“Toda casa escolhe uma criança para observar primeiro.”

Silêncio.

Muito.

Muito longo.

Última frase do episódio:

“Quando Sophie virou-se lentamente, percebeu que Helena Dubois estava parada ao fim do corredor — e, pela primeira vez em anos, a governanta parecia assustada.”


Fim do Episódio V

O jogo agora muda: Sophie deixa de ser observadora secundária e torna-se eixo central da percepção. E algo começa a nascer lentamente:

a suspeita de que a criança desaparecida talvez não tenha sido retirada da casa.

Talvez tenha permanecido nela o tempo inteiro.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 6

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 48/49)

Posted in Sem categoria on 9 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 5 — A Geometria das Ausências

Trilha: Franz Schubert — Impromptu Op.90 No.3

(Betto Gasparetto)

Capítulo 48—  O Quarto de Sophie

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela madrugada Sophie não dormiu.

Os ventos atravessavam corredores.

As janelas vibravam.

As sombras das árvores moviam-se sobre as paredes.

E sobre a cama:

seus cadernos.

Muitos.

Anos de observações.

Desenhos.

Frases.

Sensações.

Pessoas.

Silêncio.

Começou a folhear.

Página após página.

Parou.

Depois outra.

E outra.

Silêncio.

Porque encontrou algo.

Pequenas anotações antigas.

Muito antigas.

Frases escritas anos antes:

“Papai fica estranho quando ouve determinadas músicas.”

Outra:

“Mamãe chorou quando encontrou retrato antigo.”

Outra:

Helena mentiu para mim hoje.”

Silêncio.

Mais.

“Encontrei as letras GY na sala do piano.”

Sophie parou.

Empalideceu.

Silêncio absoluto.

Porque aquela anotação tinha oito anos.

Oito.

Muito antes.

Muito.

As letras já estavam ali.

Antes de hóspedes.

Antes de tempestades.

Antes de Adrien.

Longa pausa.

Muito longa.

Depois abriu último diário.

Na última página:

uma frase.

Escrita quando era criança.

Caligrafia irregular.

“Existe alguém na casa que todos conhecem, mas ninguém fala.”

Silêncio.

E Sophie fechou o caderno lentamente.

Porque pela primeira vez começou a desconfiar:

talvez a pessoa ausente nunca tivesse desaparecido.

Talvez tivesse sido treinada para desaparecer.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 49

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 47/49)

Posted in Sem categoria on 8 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 5 — A Geometria das Ausências

Trilha: Edward Elgar — Elegy for Strings

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 47—  Retorno à Biblioteca: Greta Holm

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning


Após o jantar, ninguém regressou imediatamente aos aposentos.

As pessoas dispersaram-se.

Mas dispersaram-se como fumaça dentro de um mesmo cômodo:

sem realmente partir.

E Greta Holm foi conduzida à biblioteca.

Helena Dubois a acompanhou.

Depois vieram Alaric.

Henrik Sørensen.

Marguerite.

Émile.

Clara insistiu em permanecer.

E, discretamente, Sophie aproximou-se da porta lateral.

Não entrou.

Mas ouviu.

Porque crianças, adolescentes e pessoas feridas possuem algo em comum:

aprendem a escutar antes de serem autorizadas.

Silêncio.

A lareira queimava.

Neve golpeava os vidros.

Greta observou os livros.

Depois Helena.

Depois Alaric.

Longamente.

Muito.

Até falar:

— Passei metade da vida ajudando crianças a entrar no mundo.

Silêncio.

Mais um.

— E a outra metade observando adultos expulsarem pessoas dele.

Ninguém respondeu.

Porque Greta não falava por metáforas.

Nunca.

Olhou Alaric.

Depois Henrik.

Depois:

— Havia uma noite.

Longa pausa.

Muito longa.

— Chuva.

Carruagem.

Confusão.

E uma criança.

Silêncio absoluto.

Henrik fechou os olhos.

Marguerite apertou lentamente os dedos.

Clara permaneceu imóvel.

Greta continuou:

— Não vi rostos.

Mas ouvi nomes.

Silêncio.

Depois:

Helena chorava.

Silêncio absoluto.

Helena Dubois empalideceu.

Muito.

Porque pela primeira vez em décadas alguém falava dela.

Não como guardiã.

Não como observadora.

Mas como participante.

Longo silêncio.

E Greta concluiu:

— Algumas pessoas esquecem fatos.

Outras apenas enterram.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 48

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 46/49)

Posted in Sem categoria on 7 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 5 — A Geometria das Ausências

Trilha: Antonín Dvořák — Largo

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 46—  O Salão Nobre: Greta Holm

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela noite o jantar transcorria em tensão elegante.

Taças.

Velas.

Pratarias.

Piano.

Lareiras.

Todos fingindo normalidade.

Até que a porta principal abriu-se.

Silêncio.

Vento.

Neve.

E uma figura.

Greta Holm.

Velha parteira da aldeia.

Mulher que conhecia nascimentos, mortes, nomes esquecidos e registros apagados.

Helena Dubois levantou-se imediatamente.

Alaric empalideceu.

Henrik Sørensen, ao vê-la, baixou os olhos.

Silêncio absoluto.

Greta retirou lentamente as luvas.

Observou todos.

Longamente.

Depois:

— A estrada abriu por algumas horas.

Silêncio.

Ninguém respondeu.

Então caminhou.

Muito lentamente.

Parou exatamente diante de Alaric.

Olhou.

Mais silêncio.

Depois:

— O inverno voltou cedo demais.

Silêncio absoluto.

E então:

— Porque a criança voltou antes.

Ninguém respirou.

Ninguém.

Porque Greta não perguntou.

Não explicou.

Não esclareceu.

E o pior das frases incompletas é que obrigam pessoas a terminá-las sozinhas.

Última frase:

“No alto da escadaria, Sophie percebeu que Clara chorava em silêncio. Mas não olhava para Greta. Olhava para Émile Laurent.”

E naquela noite a neve voltou a engrossar.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 47

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 45/49)

Posted in Sem categoria on 6 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 5 — A Geometria das Ausências

Trilha: Franz Schubert — Der Leiermann (instrumental)

(Betto Gasparetto)

Capítulo 45—  O Porão

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela mesma noite Nikola desapareceu outra vez.

E dessa vez Sophie foi atrás.

Porque crianças reconhecem outras crianças que carregam perguntas.

Percorreram corredores.

Escadas.

Passagens laterais.

Até o antigo porão.

Silêncio.

Frio.

Pedras.

Caixas.

Tonéis.

Luz fraca.

Nikola caminhava decidido.

Como se soubesse.

Ou fosse guiado.

Parou.

Apontou.

Silêncio.

— Ontem isso não estava aqui.

Sophie aproximou-se.

Parou.

Empalideceu.

Porque havia uma porta.

Pequena.

Antiga.

Integrada à pedra.

Quase invisível.

Silêncio absoluto.

Na madeira: GY

E abaixo:

“Algumas entradas aparecem quando alguém finalmente está pronto para olhar.”

Silêncio.

Muito.

Muito longo.

Sophie aproximou a mão.

Mas não tocou.

Porque compreendera algo:

não tinha medo da porta.

Tinha medo de quem a conhecia antes dela.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 46