Arquivo para junho, 2026

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 6 – Cap 54/54)

Posted in Sem categoria on 15 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 6 — O Terceiro Inverno

Trilha: Gustav Mahler — Adagietto from Symphony No.5

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 54 –  O Salão Principal

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela noite a neve regressou.

Violenta.

Outra vez.

As janelas tremiam.

Lampiões oscilavam.

Lareiras ardiam fortemente.

Todos reuniram-se no salão principal.

Não por prazer.

Pela tempestade.

E tempestades prolongadas possuem talento para aproximar pessoas que preferiam distância.

Alaric permanecia junto à lareira.

Silencioso.

Mais do que habitual.

Helena observava.

Clara parecia cansada.

Marguerite evitava olhares.

Lukas caminhava.

Émile lia.

Nikola desenhava.

Sophie escrevia.

Silêncio.

Até que a luz oscilou.

Uma vez.

Duas.

Três.

E apagou.

Escuridão.

Absoluta.

Nenhum som.

Depois vozes.

Pequenas.

Passos.

Lampiões.

Movimento.

Silêncio.

Muito.

Muito longo.

E então, durante aquela escuridão quase completa, Sophie ouviu.

Muito perto.

A voz de Alaric.

Baixa.

Pensando estar sozinho.

Ou acreditando.

Disse apenas:

— Ele não deveria ter voltado.

Silêncio absoluto.

Depois:

— Não desta vez.

Silêncio.

Mais um.

Quando a luz retornou parcialmente, Alaric permanecia imóvel.

Exatamente onde estava.

Mas Sophie já não o observava da mesma maneira.

Porque a pergunta surgira.

Terrível.

Irremovível.

Quem voltou?

E por que Alaric falava como alguém esperando um retorno havia décadas?

Última frase:

“Naquela madrugada, enquanto a neve soterrava lentamente os jardins, Helena Dubois abriu discretamente uma gaveta antiga e retirou uma chave marcada apenas por duas letras: GY.”

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Fim do Episódio VI

Agora o mistério desloca-se: não é apenas quem desapareceu.

É quem retornou.

E alguém no Solar já esperava esse retorno muito antes da tempestade.

Próximo Capítulo: 7

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 6 – Cap 53/54)

Posted in Sem categoria on 14 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 6 — O Terceiro Inverno

Trilha: Maurice Ravel — Pavane pour une infante défunte

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 53 –  A Piscina Coberta

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na ala leste do Solar havia um lugar quase esquecido.

A antiga piscina coberta.

Desativada havia muitos anos.

Pouquíssimos hóspedes a conheciam.

Menos ainda a visitavam.

E quase ninguém falava sobre ela.

Talvez porque lugares abandonados desenvolvam estranha reputação.

Ou talvez porque determinadas famílias aprendam a transformar silêncio em arquitetura.

Sophie chegara ali por acaso.

Ou pelo tipo de acaso que a casa parecia praticar.

Corredor estreito.

Escada baixa.

Porta pesada.

Silêncio.

Ao abrir—

o ar frio encontrou seu rosto.

Parou.

Imóvel.

O espaço era enorme.

Muito.

Cobertura de vidro arqueada.

Colunas claras.

Luminárias apagadas.

Bancos antigos.

Pequenas mesas de ferro.

E ao centro:

a piscina.

Vazia.

Sem água.

Mas não completamente.

No fundo permanecia fina camada escura, imóvel, refletindo pequenas luzes vindas das janelas superiores.

Silêncio.

Muito.

Muito longo.

Sophie aproximou-se lentamente.

Os passos ecoavam.

Cada som retornava.

Como se o ambiente devolvesse pessoas a si mesmas.

Parou junto à borda.

Olhou.

Silêncio.

Então:

algo.

Muito pequeno.

Muito baixo.

Quase imperceptível.

Uma voz.

Não exatamente voz.

Mais lembrança de voz.

Sophie permaneceu imóvel.

Outra vez.

Mais nítido:

“Não corra.”

Silêncio absoluto.

Virou-se imediatamente.

Ninguém.

Nada.

Colunas.

Escuridão.

Silêncio.

Respiração curta.

Depois outra frase.

Muito baixa.

Muito.

“Espere.”

Silêncio.

Sophie aproximou-se da parede.

Parou.

Na pedra: GY

E abaixo:

“Nem toda memória pertence a quem a recorda.”

Silêncio absoluto.

Porque naquele instante surgiu ideia terrível:

talvez certas lembranças circulassem naquela casa procurando donos.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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 Próximo Capítulo: 54

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 6 – Cap 52/54)

Posted in Sem categoria on 13 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 6 — O Terceiro Inverno

Trilha: Johannes Brahms — Intermezzo Op.118 No.2

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 52 —  A Biblioteca e a Volta de Sophie

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela tarde Sophie voltou à biblioteca.

Precisava.

Porque começava a sentir algo estranho.

A casa parecia antecipar seus movimentos.

Como se corredores esperassem.

Como se portas observassem.

Como se determinadas descobertas surgissem pouco antes de serem procuradas.

Silêncio.

Percorreu estantes.

Parou.

Franziu a testa.

Porque havia livro novo.

Ou aparentemente novo.

Capa azul-escura.

Sem título.

Sem autor.

Sem marca.

Silêncio.

Pegou.

Abriu lentamente.

Primeira página:

“Para Sophie.”

Silêncio absoluto.

Nenhuma respiração.

Nenhum som.

Folheou.

Páginas em branco.

Mais.

Mais.

Até encontrar única frase:

“A casa não escolhe quem observa.”

Silêncio.

Outra página:

“Escolhe quem lembra.”

Longa pausa.

Muito longa.

Última página: A.D.C

Silêncio.

Adrien.

Outra vez.

Mas havia mais.

Muito pequeno.

No rodapé: GY — TERCEIRO INVERNO

Silêncio absoluto.

E Sophie percebeu algo terrível:

não encontrava mensagens.

As mensagens encontravam Sophie.

Última frase:

“Na parte interna da capa havia uma data escrita a lápis: 17 anos antes do nascimento de Sophie.”

E naquele instante a casa pareceu tornar-se maior outra vez.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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 Próximo Capítulo: 53

 

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 6 – Cap 51/54)

Posted in Sem categoria on 12 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 6 — O Terceiro Inverno

Trilha: Edward Elgar — Salut d’Amour (versão lenta para cordas)

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 51 —  20 Anos em uma Noite

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

 Na manhã seguinte Clara pediu algo incomum:

desejava ver Marguerite.

Sozinha.

Sem Helena.

Sem Alaric.

Sem médicos.

Sem justificativas.

Silêncio.

Marguerite entrou no quarto pouco antes do meio-dia.

A neve transformava as janelas em superfícies quase brancas.

Lareira acesa.

Perfume de chá.

Livros.

Silêncio.

Clara permanecia sentada próxima à janela.

Olhava o jardim.

Ou fingia.

Marguerite aproximou-se.

Nenhuma falou inicialmente.

Porque algumas conversas envelhecem dentro das pessoas.

E quando finalmente chegam tornam-se maiores do que palavras.

Longo silêncio.

Muito longo.

Depois Clara:

— Eu odiei você.

Silêncio absoluto.

Marguerite permaneceu imóvel.

Não surpresa.

Não indignada.

Apenas cansada.

Clara continuou:

— Durante anos.

Pausa.

— Muito.

Silêncio.

Depois:

— Porque era mais fácil.

Marguerite aproximou-se lentamente.

Muito.

Clara continuou:

— O problema nunca foi você.

Mais silêncio.

E então:

— O problema era perceber que eu estava dividindo minha vida com fantasmas.

Silêncio absoluto.

Marguerite sentou-se.

Muito lentamente.

Olhou a neve.

Depois:

— Eu também perdi coisas aqui.

Silêncio.

Clara ergueu os olhos.

Marguerite sorriu.

Mas havia tristeza.

Muita.

— Mais do que imagina.

E pela primeira vez em muitos anos as duas mulheres não pareciam rivais.

Pareciam sobreviventes.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 52

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 6 – Cap 50/54)

Posted in Sem categoria on 11 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 6 — O Terceiro Inverno

Trilha: Camille Saint-Saëns — Le Cygne

(Betto Gasparetto)

Capítulo 50—  Helena Dubois e o Medo

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Helena Dubois permaneceu imóvel.

Ao fim do corredor.

Sob a luz baixa dos lampiões.

Silêncio.

Muito.

Muito longo.

E Sophie observava.

Não a governanta de décadas.

Não a mulher de postura impecável.

Não a guardiã da ordem.

Observava alguém diferente.

Porque existem instantes em que as pessoas envelhecem diante dos nossos olhos.

Não fisicamente.

Mas emocionalmente.

E Helena parecia carregar muitos anos naquela madrugada.

Sophie continuava próxima ao retrato.

Marguerite.

Vestido azul.

Primeiro Inverno.

Silêncio.

Helena aproximou-se.

Muito lentamente.

Parou.

Olhou o quadro.

Fechou os olhos.

Pequena pausa.

Depois:

— Não deveria estar aqui.

Silêncio.

Sophie não respondeu.

Porque havia percebido algo.

Pela primeira vez Helena não dizia:

“Você não pode.”

Dizia:

“Você não deveria.”

E existia enorme diferença.

Sophie ergueu os olhos.

— Por quê?

Silêncio.

Helena permaneceu olhando o quadro.

Longamente.

Depois:

— Algumas perguntas não melhoram pessoas.

Silêncio.

Sophie aproximou-se.

Mais.

— E algumas mentiras?

Silêncio absoluto.

Helena fechou os olhos.

Porque pela primeira vez percebeu algo terrível:

a menina deixara de fazer perguntas infantis.

E perguntas adultas, feitas por pessoas jovens, possuem crueldade particular.

Porque chegam cedo demais.

Silêncio.

Longo.

Depois Helena:

— Volte ao quarto.

Sophie permaneceu imóvel.

Porque compreendera.

Helena não respondera.

Helena fugira.

E fugas costumam revelar mais do que respostas.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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 Próximo Capítulo: 51