Arquivo para junho, 2026

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 7 – Cap 59/64)

Posted in Sem categoria on 20 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 7 — Três Gerações

Trilha: Edward Elgar — Chanson de Nuit

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 59—  Franz Adler e a fotografia

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na oficina antiga Franz Adler permanecia trabalhando.

Peças.

Relógios.

Ferramentas.

Engrenagens.

Silêncio.

Nikola sentara-se próximo.

Observava.

Porque crianças gostam de pessoas que trabalham com coisas delicadas.

Franz retirou pequena caixa de madeira.

Parou.

Silêncio.

Abriu.

Dentro:

fotografias.

Muitas.

Muito antigas.

Nikola aproximou-se.

Parou.

Silêncio.

Porque todas mostravam o Solar.

Jardins.

Famílias.

Festas.

Neve.

Carruagens.

E em quase todas—

um homem.

Distante.

Muito distante.

Sempre ao fundo.

Sobretudo escuro.

Relógio preso ao bolso.

Silêncio absoluto.

Nikola apontou:

— Quem é?

Franz permaneceu olhando.

Longamente.

Depois:

— Não sei.

Silêncio.

Mais um.

— O estranho é outro.

Nikola aproximou-se.

Franz entregou fotografia.

Silêncio.

Porque o rosto—

não aparecia.

Não borrado.

Não apagado.

Simplesmente impossível de distinguir.

Em todas.

Silêncio absoluto.

E no verso: GY

E abaixo:

“Algumas pessoas desaparecem antes de partir.”

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 60

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 7 – Cap 58/64)

Posted in Sem categoria on 19 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 7 — Três Gerações

Trilha: Maurice Ravel — Miroirs: Une barque sur l’océan

(Betto Gasparetto)

Capítulo 58—  Sophie e o Espelho

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Sophie não dormiu.

Outra vez.

Talvez porque o sono seja privilégio das pessoas em paz.

E paz era exatamente aquilo que o Solar parecia consumir lentamente.

A imagem do salão permanecia viva:

a longa mesa.

As velas.

Alaric.

As sombras.

E o reflexo.

O reflexo impossível.

Porque Sophie tinha certeza absoluta.

Havia alguém sentado.

Alguém.

Não imaginação.

Não cansaço.

Não susto.

Alguém.

Silêncio.

Levantou-se.

Vestiu casaco.

Abriu a porta.

Corredores.

Lampiões.

Tapetes.

Neve além dos vidros.

Silêncio absoluto.

Desceu lentamente.

Atravessou o salão vazio.

Parou diante do espelho.

Grande.

Antigo.

Moldura escura.

Olhou.

Nada.

Silêncio.

Aproximou-se.

Muito.

E então percebeu algo estranho.

Seu reflexo.

Não exatamente atrasado.

Mas lento.

Muito pouco.

Quase imperceptível.

Piscou.

Silêncio.

Piscou novamente.

Outra vez.

Respiração curta.

Porque por uma fração impossível de tempo teve a impressão de que a imagem demorava.

Muito pouco.

Mas demorava.

Silêncio absoluto.

Então viu.

Muito pequeno.

No canto inferior da moldura: GY

E abaixo:

“Nem todo reflexo mostra o presente.”

Silêncio.

Muito.

Muito longo.

Sophie recuou.

Porque certas frases deixam de parecer enigmas.

E começam a parecer avisos.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 59

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 7 – Cap 57/64)

Posted in Sem categoria on 18 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 7 — Três Gerações

Trilha: Franz Schubert — Ständchen (instrumental)

(Betto Gasparetto)

Capítulo 57—  O Jantar

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela noite o jantar ocorreu cedo.

A tempestade voltara.

Outra vez.

Mais neve.

Mais vento.

Mais confinamento.

O salão principal brilhava.

Lareiras.

Velas.

Piano.

Pratas.

Mas os rostos estavam diferentes.

Muito.

Porque o medo começava a mudar de forma.

Antes temiam a casa.

Agora começavam a temer respostas.

Silêncio.

Conversavam pouco.

Muito pouco.

Até Sophie levantar os olhos.

Fechar o caderno.

E perguntar:

— Posso fazer uma pergunta?

Silêncio.

Todos olharam.

Alaric primeiro.

Helena depois.

Clara.

Marguerite.

Émile.

Lukas.

Anika.

Nikola.

Silêncio.

Sophie observou todos.

Longamente.

Muito.

Depois:

— Quem voltou?

Silêncio absoluto.

Nenhum som.

Nenhum.

O vento.

A lareira.

Nada mais.

Porque a pergunta atravessou a mesa como lâmina.

Lukas ergueu lentamente os olhos.

Marguerite empalideceu.

Clara segurou a taça.

Helena parou.

E Alaric

Alaric olhou Sophie.

Muito.

Longamente.

Demais.

Como quem observa alguém atravessar porta proibida.

Depois sorriu.

Pequeno.

Quase imperceptível.

E respondeu:

— Depende.

Silêncio.

Mais um.

— Do que você chama de voltar.

Silêncio absoluto.

Porque respostas incompletas são parentes próximas das mentiras.

E Sophie finalmente percebeu:

todos naquela mesa sabiam conversar sem responder.

Última frase:

“Na parede atrás de Alaric, refletido discretamente no espelho, havia alguém a mais sentado à mesa.”

Mas quando Sophie virou—

não havia cadeira ocupada.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 58

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 7 – Cap 56/64)

Posted in Sem categoria on 17 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 7 — Três Gerações

Trilha: Edward Elgar — Serenade for Strings

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 56—  A Sala das Coleções

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No dia seguinte Émile Laurent vagava pelo Solar.

Não procurava.

Ou talvez procurasse sem admitir.

Parou diante da antiga Sala das Coleções Históricas.

Um ambiente raramente visitado.

Vitrines.

Medalhas.

Sabres.

Relógios.

Mapas.

Instrumentos antigos.

Animais empalhados.

Artefatos militares.

Pequenas placas douradas.

Silêncio.

Entrou.

A sala possuía cheiro de madeira antiga, couro e verniz.

O tipo de cheiro que parece conservar o tempo.

Passou lentamente pelas vitrines.

Parou.

Silêncio absoluto.

Porque reconheceu algo.

Um pequeno cavalo de madeira.

Escuro.

Simples.

Muito simples.

Mas familiar.

Demasiadamente.

Aproximou-se.

As mãos tocaram a vitrine.

Longo silêncio.

E então uma lembrança.

Muito rápida.

Mãos pequenas.

Chuva.

Escadas.

Uma voz:

“Esconda.”

Silêncio.

Mais uma imagem.

Uma mulher chorando.

Depois:

nada.

Desapareceu.

Émile recuou.

Respiração curta.

E então percebeu.

Atrás do objeto:

uma pequena etiqueta.

Não identificação.

Não data.

Apenas: GY

E abaixo:

“Certos objetos lembram antes das pessoas.”

Silêncio absoluto.

Porque naquele instante Émile compreendeu algo perturbador:

a casa parecia menos interessada em esconder.

E mais interessada em devolver.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 57

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 7 – Cap 55/64)

Posted in Sem categoria on 16 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 7 — Três Gerações

Trilha: Johannes Brahms — Clarinet Quintet, II Adagio

(Betto Gasparetto)

Capítulo 55—  Helena Dubois e o Medo

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela madrugada Helena Dubois não voltou imediatamente ao quarto.

Permaneceu sentada diante da pequena escrivaninha antiga.

Silêncio.

Muito.

A tempestade golpeava o Solar como se desejasse entrar.

Os galhos antigos dos cedros riscavam os vidros.

Lampiões projetavam sombras longas pelas paredes.

E diante dela:

a chave.

Pequena.

Escura.

Desgastada.

Marcada apenas: GY

Silêncio.

Helena passou os dedos sobre o metal.

Longamente.

Muito.

Como quem toca uma cicatriz antiga.

Porque certas pessoas não envelhecem carregando lembranças.

Envelhecem carregando portas que jamais abriram.

E aquela chave atravessara décadas.

Décadas.

Passara pelas mãos de governantas.

Arquivistas.

Administradores.

E antes deles:

mães.

Silêncio.

Abriu lentamente a gaveta inferior.

Outra.

Mais antiga.

Lá dentro:

cartas.

Fotografias.

Fitas.

Documentos.

Pequenos objetos.

E um caderno.

Capa azul escura.

Muito gasta.

Helena fechou os olhos.

Porque conhecia aquele caderno.

Muito.

Demais.

Na primeira página:

“Não herdem propriedades.
Herdem coragem.”

Silêncio absoluto.

Abaixo: A.D.C

Adrien.

Outra vez.

Mas Helena não parecia surpresa.

Parecia cansada.

Muito.

Porque alguns nomes deixam de assustar quando convivem tempo suficiente conosco.

E naquele instante a mulher que parecia conhecer tudo revelou silenciosamente algo pior:

talvez carregasse esse nome muito antes dos outros.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 56