Arquivo para 10 de setembro de 2026

Réquiem aos Fragmentos Humanos (10/10)

Posted in Sem categoria on 10 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 18 – Restos de Silêncio

10. A Última Miséria do Homem

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Depois de observar durante anos as pequenas crueldades praticadas diariamente, concluí que a maior miséria humana talvez não esteja naquilo que possuímos, nem na posição que ocupamos, nem mesmo nos erros inevitáveis que cometemos, mas na capacidade de reconhecer o sofrimento causado e permanecer indiferentes. O homem inventa justificativas com extraordinária competência quando necessita continuar admirando a própria imagem depois de ter destruído alguma confiança; chama abandono de necessidade, covardia de prudência, egoísmo de liberdade e transforma suas conveniências em argumentos suficientemente nobres para dormir.

Também fizeram isso comigo quando meu amor já não oferecia novidade, e ouvi explicações tão cuidadosamente organizadas que quase admirei sua arquitetura; faltava apenas aquilo que nenhuma eloquência consegue fabricar artificialmente: a consideração por alguém que havia compartilhado sinceramente uma parte da vida.

Não odeio quem partiu, porque o ódio ainda exige uma proximidade demasiada, as desprezo profundamente a maneira como certas pessoas atravessam existências, deixando feridas que poderiam evitar com uma palavra simples e verdadeira e depois reclamando da frieza de um mundo que ajudaram diariamente a construir.

Talvez nossa última pobreza seja exatamente essa contradição persistente: queremos receber uma humanidade que frequentemente recusamos oferecer, exigimos fidelidade enquanto negociamos princípios conforme as circunstâncias e pedimos compreensão para erros que jamais perdoaríamos se fossem cometidos contra nós.

Por isso já não procuro perfeição em ninguém, pois seria desejar o impossível, mas ainda espero encontrar pessoas que sintam algum desconforto diante da injustiça, que conservem vergonha suficiente para corrigir aquilo que fizeram de indigno e não precisem diminuir outro ser humano para acreditar que possuem algum valor.

Se ainda houver grandeza possível dentro desta criatura contraditória chamada homem, ela talvez comece quando ele conseguir olhar demoradamente para o próprio espelho, sem adornar suas intenções, sem absolver previamente suas escolhas e sem fugir da miserabilidade que tanto condena nos outros enquanto silenciosamente alimenta em si.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)