Archive for the Coleção – Crônicas Category

Bilhetes (Artiviciando Formas de Viver)

Posted in Coleção - Crônicas, Coleção - Poemas, Coleção - Poesia, Pensamentos on 31 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Vadio? Sou!
Como vago pelas ruas
Como o lixo ejaculado da cidade!

Vadio? Sou!
Tossindo com fumaça de bio-combustível,
Óleo diesel, lamparinas e passeatas…

Vadio? Sou!
Escrevendo pelos muros,
Fazendo motins em rabo-de-saia!

Vadio? Sou!
Praguejado e sem emprego,
Olheiras, chapéu de aba curta!

Vadio? Sou!
Uma bagana americana grande?
Hoje o dia é de sorte!

Vadio? Sou!
Vasculhando os cestos dos shoppings
Vejo as crianças masturbadas
Da grã-finada se artiviciando
Pelos fast-foods, e propagandas light!

Vadio? Sou!
Pois meu destino é este:
Um banco vazio numa praça qualquer,
Tem valor? Sim!
Só pra gente que são sabe o que é ter um leito!

Vadio? Sou!
Colecionador de palavras e palavrões,
Que se espanta com a ociocidez
Das pessoas…
Com o ser humanidade em declínio!

E a fome vai perseguindo a gente
Como um mata-borrão
Que borra toda a alma!

Vadio? Sou!
Sem mulher e sem filhos,
Graças a Deus!!!
Vadio? Sou!
Quero chorar,
Quando vejo uma fila
E não posso entrar!

Quero desejar,
Quando vendem tantas coisas
E não posso comprar!

Quero realizar,
Quando sonham tantos sonhos
E não posso dormir!

Quero encenar,
Quando escolhem coisas belas
E não posso alegrar!

Vadio? Sou!
Quero viver
Dignamente como um ser humano qualquer!

Vadio? Sou!
Tenho vida!
Pelo menos isso!
E dizem, que o barato sai caro!

Que pelo menos
Alguém passe e olhe pra mim
E me cumprimente!

Daí então,
Estenderia as mãos
E diria:

-“Hoje vai dar borboleta na cabeça, moço!”

(Dez: 03, 1980)

Apocalipsia

Posted in Coleção - Crônicas, Coleção - Poemas, Coleção - Poesia, Pensamentos on 31 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

I
Deixe que o sino se estronde mais uma vez,
E mesmo que esteja em silencio com o teu corpo,
Não há motivos de se caminhar em vão…
Pelas paredes, velhos retratos, vivi!

O nó se aperta na garganta ao fim do mês…
O dia se aproxima de amargurado desgosto,
Querendo exaltar todas as musas,
Então, num sopro breve. No qual eu sempre previ!

II
Meus olhos se cegueiam ao vulto etéreo
Que todo o respeito simulado rosto,
Disfarça em risos e sombras de meu chão…
… de estúpida vidência desta ausência em mim!

Os poros se dilatam em hemorragia,
Estilhaçando os ossos que me são inocentes;
No peito explode um simples rufar de tambores,
Que pára no tempo, para nunca parir!

III
Condenado em formação de carne, descreio:
Em todo que é sagrado: Pai, Mãe e até Filho…
O asfalto nem sentiu meus pés pisarem fortes!
E nem sequer tenho meu nome p’ra se ouvir…

E, quando aos goles de embriagantes tintos,
Era começo de um meio fio de abandono,
Quis gritar: -”Mamãe!…” Mas era tarde demais,
Desmaiei no colo de alguém que nunca vi!

Minha presença tornou-se inválida aqui…
Emudecendo sinos, desempilhando tijolos;
Seria ladrão se roubasse minha vida…
Não houve orações… nem cantigas… Dormiram-me, apenas!

(Set: 27, 1979)

Amor, Amores, Perplexos Amares!

Posted in Coleção - Crônicas, Coleção - Poemas, Coleção - Poesia, Pensamentos on 25 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Visitando Minhas Vozes in Amar

Ficamos perplexos quando encontramos
O algo diferente que nos faz
Interagirmos com o nosso profundo querer…
Realmente, felizes são o que conseguem
Dar suas interpretações ao mundo
Às coisas que nele encontra-se,
São realidades!
Umas ilusórias…
Outras desdenhadas de prazeres descartáveis!

Porém, não ouso em dizer que o amor,
Em suas múltiplas facetas
Nos coloca em xeque!
Estamos preparados?
Ilusões! O que são as ilusões
Senão um conta-gotas da emoção…

Fico arquitetando modus de me apaixonar
Definitivamente,
Com palavras, gestos e realizações,
Mas os poetas revelam-me
Que o alimento preciso do querer
Está em sermos discretos
Em nossas ações!

Estamos preparados?
Qual seria a razão fundamental
De juntarmos tantos ingredientes
E quando reunimos todos,
Faltam ainda alguns detalhes,
Detalhes que irão dar o verdadeiro sabor
Ao que estamos querendo realizar!

O sabor de sal…
O sabor de mar…
O sabor de amar…

E qual seria este recipiente
Perfeito ao que queremos?

Estamos preparados ou então…

Bem, o que importa
É que o amor
pode significar sermos ousados em afeição,
complexos na compaixão,
indignados na misericórdia,
ou ainda, inclinação ao querer mais,
atração aos quereres,
apetite ao perfeito,
paixão pelo encontro,
querer bem o tão perto,
mergulhar na satisfação,
ser conquistador dos atos nobres,
desejar ser desejado,
libido de ser autênticos!

(Jan: 25, 2008)

Pontes Estreitas em Caminhos Distantes – I

Posted in Coleção - Crônicas, Coleção - Poemas, Coleção - Poesia, Pensamentos on 25 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

I Parte – O Monólogo

Vasculho tantas palavras
Que me sinto um rastreador de letras…
Pontes distantes,
O seixo é avistado do alto, bem do alto!
A ponte pende de um lado para o outro…
Sou um foragido dos kibutzim
Que nas gramíneas vi seixos
Não tão perfeitos como aquele
Que avista do alto da ponte!

Pergunto-me:
Quais seixos andarilhos
Percorreram sorrateiros
Tantos caminhos diferentes?

Haverá uma ponte
Que não seja tão estreita,
Ou que me torne um pêndulo
Desarrazoado nas alturas?

Andei por caminhos
Deveras formatadas e vazias…
Provei dos saquês colinescos,
Passei pelas tendas e dunas
Sentindo-me um Grão-Vizir,
Banqueteando tabules o sauce blanche,
Vinhos, frutas…
Nevei meu coração pelos desertos,
Ainda possuo na lembrança
O calor que minha amada me deixou!!!

É insisto em perguntar:

Porque estou tão distante
Ouvindo dos lugares ermos
Sons de um silêncio meu?
Sons de um silêncio meu!
Isso me faz pensar
Valeu-me tantos quilômetros
E não chegar a um ponto exato?
Leviano fui em pensar nisso!

Quem mais senão eu
Urrando pelas muralhas
Enviar-te uma mensagem?

Eu somente eu
Único entre os escombros…

Nem Parmênides de Eléia me julgou
Ante a minha inércia
Outorgada no meu impensável ser!

Socorro! Grito aos túneis da escuridão
Encontro outros gritos
Jazigos pensares funestos e vazios,
Ativos gritos do torpor…

Findam-se os dias
E com eles a coesão dos encontros…
Lendo Platão, teorizando idéias!
Idéias! Caio num esquecimento profundo
Zéfiros me acordam…

Numa simples recordação
Encontro-me em anamnesis.
Sou portanto, insensível aos atos…
Tolo por querer ser o que não posso ser:
Ator de um palco congelado
Vazio de pecados e sem fortunas
Idéias tão remotas dos meus caminhos,
Digo-lhe, portanto:
Ando condenado à sombra de um Mundo de Idéias!

Vasculho tantas palavras
Que me sinto um rastreador de letras…
Pontes distantes,
O seixo é avistado do alto, bem do alto!
A ponte pende de um lado para o outro…
Entre a mudança
E o movimento!

Pedras que precisam ser lapidadas
Por mãos que tragam mudanças na vida…

Pedras que precisam ser observadas
Por olhos que vejam o movimento da vida!

(Jan: 25, 2008)

Poema Amargurado de Um Querer Distante – II

Posted in 10 Decassílabos, Coleção - Crônicas, Coleção - Poemas, Coleção - Poesia, Pensamentos on 25 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

II – As Armadilhas

Saudade! O que fizeste para mim?
Trouxeste-me tristezas p’ra plantar
Num campo desgostoso de alecrim?
Ou queres minh’alma sepultar?

O amargo desses dias eu bebi
Enclausurado sofre com essa dor
Pedinte de alegrias me perdi
No âmago do injusto predador!

Bem antes de encontrar minha tristeza
Sonhei tão torturado neste palco,
À sombra d’um algoz o vulto morte incauto…

Sofreras meu sofrer em minha mesa
Com luto corte amargo se desfaz
Na armadilha finda minha paz!

(Abr: 14. 1980)