Arquivo para setembro, 2026

Réquiem aos Fragmentos Humanos (05/10)

Posted in Coleção - Poemas on 5 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 10 – Pacto de Ausência

5. O Mercado dos Afetos

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Transformamos quase tudo em mercadoria e depois estranhamos a solidão, como se fosse possível colocar preço na amizade, vantagem na delicadeza, rentabilidade na confiança e prazo de validade nos sentimentos humanos sem terminar algum dia negociando também aquilo que somos.

Há quem distribua carinho conforme a importância social do destinatário, quem aperte mãos calculando silenciosamente o benefício daquele contato, quem elogie apenas os poderosos e atravesse os humildes com os olhos, como se a dignidade obedecesse à mesma tabela utilizada para calcular fortunas.

Meu amor também foi negociado sem que eu conhecesse as condições, e talvez essa tenha sido a parte mais amarga de toda aquela história; entreguei presença imaginando receber verdade, ofereci lealdade esperando respeito e descobri tarde demais que participava sozinho daquele acordo sentimental.

Não me revolta o término, porque todo amor pode encontrar seu último dia, mas a falsificação dos sentimentos me provoca uma repulsa difícil de explicar; há algo profundamente miserável em permitir que alguém continue acreditando naquilo que já morreu apenas porque sua permanência ainda oferece conforto.

Somos extraordinariamente hábeis em contabilizar aquilo que os outros devem e  assustadoramente incompetentes quando precisamos examinar nossas dívidas, por isso tantos caminham orgulhosos carregando uma riqueza exterior admirável enquanto deixam atrás de si uma multidão de afetos que jamais souberam honrar.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)

Réquiem aos Fragmentos Humanos (04/10)

Posted in Coleção - Poemas on 4 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 08 – Marquises

4. A Anatomia da Indiferença

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Existe uma crueldade silenciosa que não necessita levantar a voz, pois vive tranquilamente naquele que observa a necessidade alheia e decide continuar sua caminhada para preservar alguns minutos, algumas moedas, alguma comodidade ou a integridade de seu conforto.

Essa indiferença me parece mais repugnante do que muitas hostilidades, porque o inimigo declarado ao menos concede a honestidade do confronto, enquanto o indiferente contempla a queda, ajusta cuidadosamente a roupa e segue adiante satisfeito por não ter sido escolhido pela desgraça.

Amar alguém assim foi minha maneira mais dolorosa de aprender o mundo, pois durante anos confundi silêncio com serenidade e distância com prudência, até compreender que havia simplesmente uma ausência organizada de afeto onde minha esperança insistia em construir uma residência permanente.

Não guardo desejo de vingança, porque seria continuar preso ao mesmo gesto, mas existe em mim um desprezo profundo por aquela facilidade de abandonar, pela habilidade humana de esquecer rapidamente quem esteve ao seu lado quando a própria vida parecia pesada demais para ser carregada sozinho.

O amor perdido ainda dói, porém dói menos que aquilo que revelou, porque perder alguém pode ser somente uma circunstância da existência, enquanto descobrir a indigência escondida em quem julgávamos generoso é assistir ao desabamento de uma ideia que jamais poderá ser reconstruída.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)

Trilha: Espelhos – Monólogo da Anatomia

Réquiem aos Fragmentos Humanos (03/10)

Posted in Coleção - Poemas on 3 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 05 – Degraus Humanos

3. O Desprezo dos Satisfeitos

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Nunca compreendi completamente a satisfação dos que vencem humilhando, essa alegria estreita de contemplar alguém diminuído aos seus pés, como se crescer significasse reduzir a altura daqueles que caminham próximos e como se toda conquista necessitasse do fracasso de outra pessoa.

Talvez a humanidade tenha aprendido cedo demais a construir degraus com as costas daqueles que acreditaram em promessas de companheirismo; depois chama isso de inteligência, competência, oportunidade ou destino, porque sempre encontramos palavras elegantes para nossas piores escolhas.

Também no amor conheci semelhante arquitetura de crueldade, quando alguém recebeu minha confiança como quem recebe uma casa e retirou lentamente as janelas, as portas, os móveis e as lembranças, deixando apenas paredes suficientes para que eu reconhecesse a ausência.

Desde então, certas demonstrações humanas provocam em mim uma ojeriza que não nasce do desejo de condenar pessoas, mas do cansaço de observar a facilidade com que a bondade é utilizada enquanto oferece alguma serventia e descartada quando exige coragem, renúncia ou simplesmente fidelidade.

Há dias em que me pergunto se evoluímos realmente além das aparências, pois inventamos máquinas extraordinárias e palavras cada vez mais sofisticadas, mas continuamos incapazes de sentir vergonha diante da dor que provocamos quando ninguém importante está olhando para aquilo que fazemos.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)

Réquiem aos Fragmentos Humanos (02/10)

Posted in Coleção - Poemas on 2 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 04 – Luxo Vazio

2. A Pobreza que Veste Seda

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Há criaturas elegantemente vestidas cuja miséria atravessa o tecido, porque nenhuma aparência consegue esconder por muito tempo a pequenez de quem mede amizades pela utilidade, afetos pela conveniência e pessoas pela quantidade de portas que podem abrir em seu benefício.

Eu também atravessei salões onde a delicadeza servia apenas de verniz, onde mãos se apertavam enquanto pensamentos calculavam vantagens, e sorrisos impecáveis escondiam aquela antiga avidez de possuir o mundo sem oferecer ao mundo sequer a honestidade de uma palavra verdadeira.

Foi nesses lugares que senti saudade de um amor que não permaneceu, embora hoje eu saiba quanto havia de fingimento naquela antiga ternura; a memória possui crueldades particulares, pois conserva a beleza do gesto muito depois de compreendermos a pobreza moral de quem o praticou.

O que me causa repugnância não é a fragilidade natural de qualquer pessoa, porque todos carregamos falhas, hesitações, egoísmos e contradições, mas a serenidade daqueles que ferem deliberadamente e depois caminham como se a dor alheia fosse apenas um objeto quebrado deixado para trás.

Prefiro a pobreza das mãos vazias à abundância de uma alma interesseira, pois quem nada possui ainda pode oferecer presença, respeito e lealdade, enquanto certos homens acumulam tanto durante a existência que terminam possuindo tudo, exceto alguma coisa que mereça ser amada.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)

Réquiem aos Fragmentos Humanos (01/10)

Posted in Coleção - Poemas on 1 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 02 – Virtudes Extras

1. O Homem Diante do Espelho

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Há no homem uma pobreza que nenhum ouro consegue esconder, uma espécie de quarto abandonado por trás das roupas bem passadas, onde repousam promessas que ele pronunciou somente para parecer digno e afetos que ofereceu enquanto julgava possível receber alguma vantagem.

Conheci essa miséria quando amei alguém mais do que deveria, pois o amor, quando sincero, possui o terrível costume de iluminar aquilo que a conveniência humana prefere conservar na penumbra, e descobri que muitos abraços possuem a duração exata do interesse.

Não me entristece que o homem deseje possuir aquilo que ainda não tem, mas que despreze com tanta facilidade aquilo que um dia implorou para ter; há nisso uma indigência que nenhuma fortuna consegue remediar, porque o coração ingrato permanece pobre mesmo cercado de abundância.

Vi palavras de ternura envelhecerem antes de chegar ao fim da tarde, vi juramentos perderem importância diante de uma oportunidade mais cômoda, e compreendi que algumas pessoas não abandonam somente quem as ama, abandonam também a parte decente de si mesmas para não perder vantagens.

Talvez por isso eu contemple o homem com uma tristeza quase fatigada, não porque espere dele uma pureza impossível ou uma perfeição absurda, mas porque tantas vezes ele conhece perfeitamente o caminho da dignidade e escolhe, ainda assim, a pequena estrada onde sua consciência vale menos.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)