Crônica romântica em duas partes — Entre a ventura dos encontros e a melancolia dos desencontros
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I — O PORTO ONDE MEU CORAÇÃO ANCOROU
Há encontros que não pertencem ao calendário dos homens. Acontecem quando a vida, cansada de suas próprias incertezas, resolve conceder ao coração uma felicidade que ele já não ousava esperar. Assim foi naquela manhã em que te encontrei à beira de um lago, entre montanhas revestidas de verde e águas tão transparentes que pareciam guardar, em suas profundezas, todos os segredos do céu.
O pequeno barco de madeira repousava junto ao cais, como se aguardasse havia séculos a chegada de dois desconhecidos destinados a partilhar a mesma travessia. Não havia solenidade naquele instante. O sol espalhava sua claridade sobre as encostas, os peixes deslizavam entre as pedras submersas, e uma brisa delicada percorria as margens, indiferente ao extraordinário acontecimento que principiava dentro de mim.
Tu sorrias. E naquele sorriso havia uma espécie de liberdade que nenhuma riqueza poderia comprar. Teus cabelos, tocados pelo vento, pareciam desafiar a disciplina dos penteados, enquanto teus olhos procuravam os meus com a naturalidade de quem encontra, numa terra estrangeira, alguém que conhece desde a infância.
Ofereci-te a mão para entrares na embarcação. Aceitaste-a sem cerimônia, mas teus dedos permaneceram entre os meus por um instante além do necessário. Foi então que compreendi como os acontecimentos decisivos da existência dispensam testemunhas, discursos e celebrações. Às vezes, basta o breve contato de duas mãos para que um homem abandone, sem resistência, todas as certezas que julgava possuir.
Partimos lentamente. O barco cortava a superfície tranquila, deixando atrás de si um caminho que as águas logo desfaziam. Falávamos de coisas pequenas: lugares que desejávamos conhecer, livros ainda não lidos, músicas que sobreviviam à passagem dos anos e sonhos que, por excessiva prudência, havíamos aprendido a esconder. Entretanto, sob a aparência daquela conversa despretensiosa, nossos sentimentos ensaiavam uma linguagem que nenhum de nós dominava inteiramente.
Perguntaste-me se eu gostava de navegar. Respondi que sempre admirara os horizontes, embora jamais houvesse encontrado razão suficiente para persegui-los. Riste de minha gravidade, como quem reconhece o esforço inútil de um homem tentando disfarçar a própria emoção.
Naquele momento, aproximaste-te para observar os peixes que acompanhavam a embarcação. Apoiei delicadamente a mão em tua cintura, receando que perdesses o equilíbrio. Tu, porém, permaneceste junto de mim, tranquila, como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo.
Foi assim que descobri uma verdade cuja simplicidade me constrangeu: durante tantos anos, eu procurara a felicidade em lugares distantes, sem perceber que ela talvez não fosse um destino, mas uma companhia.
O lago parecia não ter fim. As montanhas erguiam-se majestosas, os pássaros atravessavam o céu e a manhã amadurecia em silêncio. Contudo, já não me interessava saber até onde poderíamos chegar. Bastava-me a proximidade de teu rosto, o calor de tua presença e a possibilidade de que, ao regressarmos, ainda desejasses permanecer ao meu lado.
Não te prometi mares sem tempestades, tampouco uma existência protegida de todas as dores. Seria desonesto oferecer aquilo que nem os reis puderam assegurar aos seus amados. Disse-te apenas que, enquanto me fosse permitido escolher, preferiria enfrentar contigo as incertezas da travessia a contemplar sozinho a segurança de qualquer porto.
Tu me olhaste longamente e repousaste a cabeça sobre meu ombro. Nenhuma resposta teria sido mais eloquente.
Naquele dia, pela primeira vez, deixei de perguntar à vida para onde deveria seguir.
II — AS MARÉS QUE NÃO SOUBERAM NOS SEPARAR
Mas a felicidade, por mais sincera que seja, não recebe do tempo qualquer privilégio. Os dias prosseguem com sua indiferença habitual, e os amantes, que imaginam ter descoberto uma exceção às leis do mundo, acabam percebendo que também lhes pertencem as partidas, as hesitações e os silêncios.
Não sei precisar quando nossos caminhos começaram a afastar-se. Talvez tenha sido numa tarde em que uma palavra permaneceu sem resposta, ou numa manhã em que os compromissos pareceram mais urgentes que os afetos. A verdade é que raramente os grandes desencontros anunciam sua chegada. Instalam-se discretamente, como a umidade nas paredes de uma casa antiga, até que um dia reconhecemos o estrago sem recordar o primeiro sinal.
Continuávamos a nos querer, mas já não sabíamos encontrar o caminho um do outro. Tu esperavas uma palavra que eu julgava desnecessária; eu aguardava um gesto que teu orgulho, talvez ferido, não permitia oferecer. E assim, entre expectativas jamais confessadas, transformamos pequenos equívocos em distâncias que nenhum mapa poderia medir.
Recordo-me da última vez em que estivemos junto àquele cais. O barco permanecia no mesmo lugar, envelhecido apenas pela ação das estações. As montanhas conservavam sua imponência, e as águas, sua transparência quase insolente. Tudo parecia disposto a repetir nossa primeira manhã, exceto nós.
Falamos pouco. Havia em teus olhos uma tristeza que eu não soube aliviar, e em minha voz uma prudência que, naquele instante, se confundia com covardia. Desejei abraçar-te, pedir que ficasses, confessar que nenhuma das razões de nosso afastamento valia o sacrifício de nossa ternura. Entretanto, permaneci imóvel, prisioneiro daquela absurda dignidade que tantas vezes impede os homens de salvar aquilo que mais amam.
Partiste sem acusação. E talvez essa tenha sido a parte mais dolorosa de nossa despedida. Teria sido mais fácil suportar tua cólera, pois nela ainda encontraria uma forma de presença. Mas tua serenidade, tão cuidadosamente construída sobre a tristeza, deixou-me diante de uma ausência que não sabia combater.
Durante muito tempo evitei regressar ao lago. Temia descobrir que a paisagem permanecera bela sem nós, como se o mundo não tivesse obrigação alguma de lamentar nossos desencontros. E, naturalmente, não tinha.
Foi numa tarde de outono que finalmente voltei. O cais estava quase deserto, e o barco, preso à mesma amarra, oscilava suavemente. Sentei-me à margem e contemplei as águas, tentando compreender por que certas lembranças, embora dolorosas, continuam sendo os lugares mais preciosos de nossa existência.
Então ouvi passos atrás de mim.
Não me voltei imediatamente. Há esperanças que, depois de muito contrariadas, aprendem a desconfiar até da própria felicidade.
Mas tua voz pronunciou meu nome.
Quando me ergui, estavas ali. Não trazias explicações preparadas nem promessas grandiosas. Havia em teu semblante a delicada gravidade de quem conhecera a ausência e descobrira que nem toda separação significa o fim do amor.
Perguntaste-me se o barco ainda navegava.
Respondi que sim, embora houvesse passado demasiado tempo à espera de uma razão para soltar suas amarras.
Sorriste. Era o mesmo sorriso da primeira manhã, agora enriquecido por uma tristeza que ambos compreendíamos. Aproximaste-te e ofereceste-me a mão. Dessa vez, fui eu quem demorou um instante além do necessário para soltá-la.
Não procuramos recuperar os dias perdidos. Seria inútil exigir do passado aquilo que ele já não poderia devolver. Tampouco prometemos que jamais voltaríamos a nos ferir. Havíamos aprendido que o amor não se torna verdadeiro pela ausência de dificuldades, mas pela coragem de reconhecê-las sem abandonar o respeito, a ternura e a liberdade de quem amamos.
Entramos no barco quando o sol começava a esconder-se entre as montanhas. As águas receberam nossa embarcação com a mesma tranquilidade de outrora, e o vento, sem conhecer nossas histórias, acariciou novamente teu rosto.
Desta vez, não falamos de destinos distantes. Conversamos sobre a vida que ainda poderíamos construir, sobre os erros que não desejávamos repetir e sobre a delicada responsabilidade de cuidar de um sentimento que sobrevivera à nossa própria imperícia.
Quando a noite principiou a cobrir o lago, aproximaste-te e repousaste a cabeça sobre meu peito. Envolvi-te nos braços, sentindo que nenhuma vitória seria comparável àquela reconciliação silenciosa.
Perguntaste-me, então, se eu ainda desejava navegar pelo mundo.
Contemplei as montanhas, o horizonte e as primeiras estrelas refletidas nas águas. Durante alguns instantes, pensei em todos os lugares que jamais conheceríamos, nas viagens que talvez não pudéssemos realizar e nas incontáveis possibilidades que a vida reservara a outros homens.
Depois olhei para ti.
E compreendi que não precisava possuir o mundo para sentir-me inteiramente vivo.
Respondi, enfim, com a serenidade de quem encontrara sua mais profunda convicção:
— Navegar é preciso, meu amor. Só se for em teus braços.
E naquela noite, enquanto o barco deslizava lentamente sob as estrelas, descobri que os encontros nos ensinam a amar, os desencontros nos obrigam a compreender, mas somente a escolha de permanecer transforma duas histórias numa existência compartilhada.
Porque o verdadeiro porto não é aquele onde terminam as viagens. É aquele onde, depois de todas as tempestades, ainda encontramos alguém disposto a receber nossa mão.
(Betto Gasparetto – 2023)
