Deixai aberta a porta desta casa, que a felicidade não costuma anunciar-se; ela chega nos passos de quem amamos e encontra um coração onde abrigar-se. Que entrem os amigos, os filhos e os sonhos, que ninguém tenha pressa de partir; pois pobre é o palácio de portas cerradas, e rico o humilde lar onde se pode sorrir. Se o mundo lá fora nos cobrar tristezas, deixemo-las do outro lado do portão; porque a primeira chave da felicidade é haver sempre lugar para outro coração.
CHAVE II — A MESA
Ponde mais um prato sobre a mesa, mesmo que não saibamos quem virá; o pão repartido multiplica-se em ternura, e o vinho compartilhado jamais faltará. Não são os banquetes que alimentam a alma, mas os olhos que se encontram ao redor; um pedaço de pão entre pessoas queridas vale mais que o ouro servido sem amor. Que sobrem histórias, risos e lembranças, e falte somente espaço para a solidão; pois toda mesa cercada de afetos é um pequeno reino sem necessidade de coroa.
CHAVE III — O RISO
Ri, meu amor, que quando tu ris até o velho Tempo parece recuar; há primavera escondida em tua boca e juventude no modo de me olhar. Deixa que os anos contem nossas rugas; não lhes permitas nossos sonhos contar. Se amanhã vier carregado de invernos, hoje ainda temos motivos para celebrar. Que tua alegria encontre sempre a minha, como dois rios procurando o mesmo mar; pois quem possui alguém com quem rir já encontrou uma razão para ficar.
CHAVE IV — O ABRAÇO
Abraça-me agora, antes que o instante passe; não deixemos ternura alguma para depois. Há abraços que duram poucos segundos e permanecem uma vida inteira em nós. Não me prometas riquezas nem eternidades, promete somente não esquecer de me tocar; pois o amor não vive apenas de palavras: necessita de braços onde possa repousar. Quando meus cabelos conhecerem o inverno, aproxima-te de mim como na primeira vez; e descobriremos que envelhecer lado a lado é outra maneira de chamar amor à felicidade.
CHAVE V — A MÚSICA
Deixa o velho disco novamente girar, que nossa juventude ainda dança escondida nele. Talvez aquela canção recorde o primeiro beijo, quando o mundo inteiro cabia entre mim e ti. Dança comigo, mesmo que nossos passos errem; o amor jamais exigiu perfeição para bailar. Que importa se a noite envelhece depressa, quando dois corações ainda desejam ficar? Enquanto houver música nesta velha casa, nenhum silêncio haverá de nos vencer; pois algumas melodias terminam no aparelho, mas continuam tocando dentro de quem soube viver.
CHAVE VI — O TEMPO
Não amaldiçoemos o Tempo por passar, pois foi ele quem trouxe todos até esta mesa. Levou-nos alguns sonhos, é verdade, mas transformou outros tantos em certeza. Deu-nos cabelos brancos, filhos e saudades, fotografias, reencontros e histórias para contar. Se cada ruga custou uma lembrança, benditas sejam as marcas que aprendemos a carregar. Não desejo retornar à juventude, meu amor, se para isso tiver de esquecer o que vivi; prefiro os poucos anos que ainda nos restarem a uma eternidade onde jamais te conheci.
CHAVE VII — O BRINDE
Erguei as taças! Não à riqueza nem à glória, mas aos que ainda estão sentados junto a nós. Aos que partiram, reservemos uma lembrança; aos que chegaram, ofereçamos nossa voz. Brindemos aos amores que sobreviveram aos anos, aos amigos, às crianças, aos reencontros e ao perdão. Brindemos às pequenas coisas esquecidas que silenciosamente sustentam o coração. E quando a última taça desta noite se esvaziar, que ninguém diga que a felicidade terminou: pois quem encontrou sete chaves para amar a vida descobriu que a oitava sempre foi o Amor…
Parti quando a aurora ainda dormia, sem coragem de acordar meu próprio lar. Deixei a porta entreaberta, como quem promete que antes do anoitecer haverá de regressar. Beijei-te a fronte sem dizer palavra, pois despedidas sabem o futuro anunciar. Levei comigo teu perfume nos meus dedos e aquela vontade absurda de ficar. Atrás de mim ficaram nossas pequenas coisas, a mesa, os livros, o fogo e teu olhar. E dei meu primeiro passo para a guerra, quando tudo em mim suplicava para voltar.
PASSO II — A CHUVA
Depois veio a chuva sobre os homens, lavando o rosto, mas jamais o coração. Marchávamos como sombras condenadas, cada qual carregando a própria solidão. A lama devorava nossas botas, o frio fazia da carne uma prisão. Mas eu guardava junto ao peito tua lembrança, como um mendigo guarda sua última oração. E quando o céu rugia sobre nossas cabeças, eu pronunciava teu nome em devoção: pois há amores que, mesmo sob a guerra, permanecem intactos na destruição.
PASSO III — O BRINQUEDO NA LAMA
Então encontrei um pequeno brinquedo, abandonado entre a água e o chão. Não tinha sangue, voz, bandeira ou pátria; tinha apenas a forma triste da recordação. Quem o abraçou antes que o mundo enlouquecesse? Que pequena mão lhe concedeu afeição? Parei — e naquele pobre objeto vi toda a vergonha de nossa geração. Pois quando a guerra alcança os brinquedos, já não existe glória em qualquer vitória. Há somente uma infância interrompida pedindo ao mundo que lhe devolva a história.
PASSO IV — A CARTA QUE NÃO ESCREVI
Quis escrever-te naquela noite fria: “Meu amor, talvez eu não possa regressar.” Mas como dizer àquela que me espera que seu amanhã talvez não vá chegar? Escrevi teu nome — e a mão me tremeu; a chuva fez a tinta se espalhar. Parecia que até as próprias letras recusavam-se a aprender como acabar. Então guardei o papel ainda vazio: certos adeuses não devemos pronunciar. Enquanto uma palavra permanecer por escrever, há uma esperança secreta de voltar.
PASSO V — OS QUE FICARAM PELO CAMINHO
Éramos muitos quando tudo começou; hoje evito contar quem ainda vem atrás. Alguns deixaram sonhos sobre a estrada; outros encontraram um silêncio sem jamais. Cada ausência marcha ao nosso lado, como um companheiro que a morte não desfaz. Aprendi que os mortos têm passos silenciosos e caminham na memória dos demais. Não desejo vingança pelos que partiram; desejo apenas aquilo que não tiveram mais: uma porta aberta, uma mesa, um abraço, e o direito simples de envelhecer em paz.
PASSO VI — O HOMEM QUE JÁ NÃO CONHEÇO
Vi meu rosto refletido numa poça e perguntei: “Quem és tu que olhas para mim?” Havia nos meus olhos tantas noites que já não reconheci quem fui no princípio. Onde está o homem que beijou aquela mulher? Onde o rapaz que acreditava no porvir? Talvez tenha ficado junto àquela porta, esperando o corpo que partiu sem realmente partir. Ó guerra, podes tomar-me os anos, mas uma coisa jamais te permitirei destruir: a lembrança daquela que ainda amo e a esperança de novamente lhe sorrir.
PASSO VII — SEM DIREÇÃO
Dou agora o sétimo passo na lama e já não sei se avanço ou se retorno. À frente há fumaça; atrás, lembranças; dentro de mim, teu nome feito porto. Se amanhã meus pés encontrarem nossa estrada, correrei para teus braços como outrora; não quero medalhas, glórias ou monumentos, quero apenas chegar vivo à nossa porta. E se meus passos cessarem neste caminho, não chores eternamente minha ausência, meu amor: planta uma flor onde deixei minhas pegadas e deixa que ela diga aquilo que não pude dizer. Pois talvez o homem perdido não seja aquele sem caminho, mas aquele que já não possui alguém por quem voltar.
Ontem havia pássaros onde hoje descem homens, e o céu era somente o reino azul da infância. Hoje até as nuvens carregam o medo, e cada vento traz o rumor da distância. Ó guerra, que fizeste de meus jardins? Quem te deu licença para entrar em minha casa? Eu era pequeno demais para conhecer a morte, mas ela aprendeu meu nome antes que eu aprendesse o dela. Minha mãe dizia: “Não temas a noite, meu filho”; mas não me ensinou a não temer o dia. Pois foi sob o Sol que o mundo desabou, e minha infância envelheceu numa única manhã.
LÁGRIMA II — O RETRATO
Seguro entre as mãos o que restou de nós: um pequeno retrato ferido pelo pó. Aqui minha mãe ainda sorri eternamente; aqui meu pai jamais pronunciou adeus. Que estranho poder possui uma fotografia: faz viver quem meus braços não alcançam. Beijo seus rostos quando ninguém me vê e pergunto ao papel se ainda se lembram de mim. Ó retrato, não envelheças como envelhece o mundo! Guarda-lhes os olhos, o sorriso e a ternura. Se minha memória um dia fraquejar de dor, sê tu a casa para onde meu coração possa voltar.
LÁGRIMA III — A ROSA ENTRE AS PEDRAS
Encontrei uma rosa entre as ruínas, vermelha como o coração que ainda resiste. Como ousas florescer, pequena criatura, onde até as paredes desaprenderam a existir? Talvez Deus tenha esquecido uma semente para recordar aos homens aquilo que destruíram. Eu te darei a pouca água que me resta; tu me darás a coragem que me falta. Cresce, rosa — ainda que entre pedras; abre tuas pétalas contra toda desesperança. Enquanto houver uma flor sobre a terra, a guerra jamais poderá declarar-se eterna.
LÁGRIMA IV — MEU PEQUENO COMPANHEIRO
Quando todos partiram, tu permaneceste. Não perguntaste quem venceu nem quem perdeu. Deitaste apenas teu corpo junto ao meu como se teu calor pudesse reconstruir nossa casa. Ó pequeno amigo, que sabes tu das guerras? Talvez saibas mais que reis e generais: que nenhuma bandeira vale uma criança, e nenhuma vitória consola uma casa vazia. Quando choro, encostas tua cabeça em meus joelhos; quando tremes, abraço-te como fazia minha mãe. Somos dois pequenos sobreviventes do mundo, dividindo entre nós o pouco amor que ainda restou.
LÁGRIMA V — OS HOMENS QUE VOLTAM
Vejo homens caminhando entre a poeira, e outros descendo do céu que já temi. Não sei os nomes escritos em seus uniformes, nem compreendo as razões que os trouxeram aqui. Só sei que homens carregam nas próprias mãos o poder de ferir — e também o de salvar. Se vierdes até mim, não me tragam vingança; tragam pão, silêncio e braços para amparar. Não quero saber quem conquistou estas pedras: quero saber quem reconstruirá minha escola. Grande não é aquele que domina a terra, mas aquele que devolve uma criança ao seu lar.
LÁGRIMA VI — SE MINHA MÃE VOLTASSE
Se minha mãe surgisse agora entre as ruínas, eu não lhe pediria brinquedos nem presentes. Correria descalço sobre todas estas pedras somente para esconder meu rosto em seu vestido. Dir-lhe-ia que fui valente — embora tenha chorado; que guardei nosso retrato contra o peito. Meu pai talvez viesse caminhando atrás dela, e outra vez o mundo teria portas e janelas. Ah, esperança, não zombes de uma criança! Deixa-me sonhar somente esta noite. Pois às vezes um sonho é a última morada daqueles a quem a realidade tomou tudo.
LÁGRIMA VII — A PAZ
Se algum dia perguntarem o que desejo, não me ofereçam ouro, coroas ou glória. Deem-me uma manhã sem estrondos no horizonte, uma mesa, minha família e nenhuma vitória. Quero ouvir novamente pássaros no céu sem perguntar se alguma coisa cairá dele. Quero plantar esta rosa diante de minha casa e vê-la envelhecer muito depois de mim. Que os homens aprendam, enfim, esta verdade: nenhum triunfo merece as lágrimas de uma criança. E se o mundo ainda possuir um coração, que a última lágrima derramada seja a primeira lágrima da Paz.
Vi-te quando o mundo ainda era primavera, e o Sol, por inveja, ocultou-se em teu olhar. Meu coração, que livre se julgara, fez-se teu servo antes de te tocar. Não houve juramento, altar ou testemunha; somente dois silêncios aprendendo a desejar. E desde então carrego em minha alma a doce condenação de sempre te amar.
PÉTALA II — O ESPELHO DO DESEJO
Agora habitas o cristal que nos separa, tão perto de meus olhos, tão distante de minha mão. Estendo os dedos — e o frio me responde; chamo teu nome — e responde o coração. Ó espelho cruel, concede-me um instante: quebra-te e deixa meu amado regressar! Pois vale mais um beijo e depois a morte que uma existência inteira sem o poder tocar.
PÉTALA III — AS PÉROLAS DA SAUDADE
Guardei nossas lembranças como pérolas, uma para cada noite em que chorei. Algumas nasceram doces de teus beijos; outras, das lágrimas que jamais te revelei. Se um dia voltares, adornarei teu peito com tudo aquilo que em silêncio conservei. E saberás que mesmo abandonada, em nenhum amanhecer te abandonei.
PÉTALA IV — A AMPULHETA
Cai, areia! Cai, cruel mensageira! Conta os instantes que me afastam de meu bem. Mas sabe, Tempo: embora roubes minha juventude, não tomarás o amor que minha alma contém. Transforma meus cabelos em prata, se desejares, faz desta carne o pó de que ela vem; quando meu último segundo abandonar-me, meu coração ainda pronunciará: meu bem.
PÉTALA V — A ROSA IMPOSSÍVEL
Planto esta rosa sobre pedras sem esperança, onde nenhum sábio ousaria semear. Se ela florescer, saberei que ainda existe algum caminho para o amor nos reencontrar. Cada espinho guardará uma de minhas dores; cada pétala, um desejo de te beijar. E se sete pétalas nascerem nesta haste, sete eternidades hei de te esperar.
PÉTALA VI — AS AVES DA LIBERDADE
Ide, pequenas aves, atravessai os céus! Buscai aquele a quem meu peito chama senhor. Dizei-lhe que nenhuma distância foi bastante para transformar em cinzas nosso amor. Trazei de volta ao menos uma palavra, um pensamento, uma lembrança, uma flor; pois quem verdadeiramente amou uma única vez carrega para sempre a glória e a dor.
PÉTALA VII — O BEIJO ETERNO
E quando enfim se romper o velho espelho e o Tempo, derrotado, deixar de nos ferir, não quero tronos, pérolas ou paraísos, somente teus braços quando eu partir. Beija-me então como quem vence a própria morte, como quem faz a eternidade consentir; e se sete pétalas caírem sobre nós, que a última guarde o beijo que nem a morte há de extinguir.