Archive for the Coleção – Poemas Category

O Distante Também Se Perde

Posted in Coleção - Poemas on 2 de outubro de 2026 by Prof Gasparetto

Elegia em três movimentos sobre aquilo que partiu antes que o coração aprendesse a despedir-se

(Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Estudo nr 02 – Olhares de Inverno

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — A DISTÂNCIA QUE NASCEU ENTRE NÓS

Quando partir não exige sequer um adeus

Não foi tua partida que primeiro me feriu,
mas o silêncio que chegou antes de teus passos.
Estavas ainda perto — e já eras distância,
como estrela que contemplamos quando já se extinguiu.
Eu poderia ter chamado; calei-me por orgulho.
Poderia ter ficado; escolhi parecer ausente.
E enquanto nossos olhos evitavam despedidas,
o amor, sem testemunhas, abandonava lentamente a casa.
Agora sei: ninguém parte apenas quando vai embora;
há quem comece a partir permanecendo ao nosso lado.
E eu, insensato, vi nascer entre nós um oceano
e julguei que amanhã ainda haveria ponte.
Ah, se soubesse que o distante também se perde,
teria atravessado o mundo antes de deixar-te partir.

II — O TRIBUNAL DA MEMÓRIA

Onde o remorso interroga aquilo que o tempo não absolveu

Agora a noite traz teu rosto aos meus aposentos,
e cada sombra conhece aquilo que não confessei.
Pergunto às horas onde escondeste tua presença;
elas respondem com tudo quanto desperdicei.
Por que guardei palavras quando desejava dizê-las?
Por que neguei meus braços quando queriam acolher?
Que miserável soberba fez de mim um estrangeiro
diante daquele amor que eu temia merecer?
Hoje daria meus amanhãs por uma única tarde,
um instante apenas para corrigir aquele adeus.
Diria: “Fica”; e nessa breve palavra entregaria
o que meu silêncio outrora sepultou dentro de nós.
Mas o remorso é um relógio sem ponteiros:
marca eternamente a hora que jamais regressará.

III — ONDE A AUSÊNCIA APRENDEU MEU NOME

E o coração compreende tarde demais o valor do que perdeu

Há um lugar vazio ao lado de minha esperança
onde nenhuma outra presença conseguiu repousar.
Não porque o mundo tenha perdido sua beleza,
mas porque certos olhos nos ensinam como contemplá-la.
O mar ainda recebe o ouro do entardecer,
as flores ainda se oferecem à primavera,
e contudo alguma coisa falta em cada maravilha,
como se tua ausência houvesse empobrecido a luz.
Já não peço ao destino que te faça regressar;
há súplicas que chegam tarde até aos céus.
Peço somente que, onde quer que tua vida floresça,
alguma brisa te recorde que foste profundamente amada.
Quanto a mim, guardarei esta verdade até o último inverno:
não é somente o que possuímos que podemos perder —
o distante também se perde quando demoramos demais para alcançá-lo.

(Betto Gasparetto – 2011)

Por Que Eu Te Amo Tanto Assim?

Posted in Coleção - Poemas on 1 de outubro de 2026 by Prof Gasparetto

Oito movimentos para uma pergunta que o coração jamais termina de responder

(Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Concerto aos Espelhos – Colar de Pérolas

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — O MISTÉRIO

Por que eu te amo tanto assim? Não sei dizer,
pois certas verdades recusam explicação;
talvez teu olhar tenha encontrado em meu silêncio
uma porta que eu julgava fechada à emoção.
Talvez tua presença tenha acordado em minha alma
o que nenhum sonho conseguira despertar.
Sei apenas que, antes de ti, eu simplesmente existia,
e depois de ti aprendi a desejar o infinito;
desde então, viver é procurar-te em tudo quanto é belo.

II — O PRIMEIRO ENCANTO

Não foi somente a beleza que me rendeu,
nem o fulgor sereno que repousava em teu olhar;
foi algo sem nome, anterior às palavras,
que fez meu coração reconhecer-te sem te conhecer.
Havia em teu sorriso uma promessa sem juramento,
uma ternura capaz de desarmar minha razão.
E quando tua mão, por acaso, encontrou a minha,
o mundo pareceu pequeno para tamanha felicidade;
naquele instante, meu destino mudou sem fazer ruído.

III — A CONFISSÃO

Eu te amo porque junto a ti não preciso esconder-me,
nem vestir minha alma com aparências ou temor;
posso entregar-te minhas frágeis imperfeições,
e ainda assim permanecer inteiro diante de teus olhos.
Amo-te porque escutas até aquilo que não pronuncio,
e compreendes a tristeza antes que ela se torne lágrima.
Em ti encontro o raro repouso de ser quem sou,
sem recear que minhas sombras diminuam tua ternura;
amar-te é ser acolhido onde jamais pensei caber.

IV — O DESEJO

Mas não julgues ser apenas doce este sentimento:
há fogo em mim quando te aproximas devagar.
Meu sangue aprende tempestades ao sentir teu perfume,
e minha prudência esquece o caminho de regressar.
Desejo teus lábios como a noite deseja a aurora,
não para possuí-los, mas para neles me perder.
Quero o instante em que tua respiração encontra a minha,
quando dois silêncios se confundem num só arrepio;
e o próprio Tempo, envergonhado, deixa de nos interromper.

V — O QUE OS ANOS NÃO LEVAM

Que venham os anos com seus passos inevitáveis,
e escrevam sobre nós as marcas de sua passagem.
Hei de amar também a prata em teus cabelos,
como hoje amo a juventude de tua face iluminada.
Quando nossas mãos carregarem mapas de outras eras,
ainda procurarei teus dedos entre todos os caminhos.
Não quero um amor preservado contra o envelhecimento,
quero envelhecer para descobrir novas maneiras de amar-te;
pois há belezas que somente o tempo sabe revelar.

VI — A ESCOLHA

Entre mil caminhos, escolheria novamente o teu,
mesmo conhecendo cada pedra que encontraria.
Repetiria as esperas, os receios e as distâncias,
se ao término de cada noite tua presença me aguardasse.
Não desejo uma história sem tempestades ou cicatrizes,
mas aquela em que permaneçamos depois delas.
Pois amar não é encontrar um destino sem invernos,
é reconhecer a mesma mão quando a luz desaparece;
e dizer: fica — ainda temos primavera para inventar.

VII — O INEXPLICÁVEL

Ainda me perguntas por que te amo tanto assim?
Como explicar ao mar por que procura a margem?
Como perguntar à rosa por que oferece perfume,
ou à madrugada por que devolve luz às janelas?
Meu amor não nasceu de cálculo, promessa ou conveniência;
chegou como chegam as coisas destinadas a permanecer.
Fez morada onde eu guardava antigos receios,
transformou minha solidão em espaço para dois;
e tornou teu nome a mais íntima palavra do meu coração.

VIII — A RESPOSTA

Agora sei por que te amo tanto assim:
não por aquilo que possuis, prometes ou aparentas,
mas pelo que desperta em mim quando estás perto.
Contigo desejo ser mais verdadeiro que perfeito,
mais humano que invencível, mais inteiro que eterno.
E se um dia me perguntarem o que fiz desta existência,
não falarei de glórias, riquezas ou caminhos conquistados;
direi apenas que encontrei alguém por quem valeu a pena viver —
e que te amar foi a mais bela resposta que a vida deu à minha pergunta.

(Betto Gasparetto – 2009)

Perfume Escondido

Posted in Coleção - Poemas on 30 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora:

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Espanhol Português
La flor despierta en la tarde calladaA flor desperta na tarde silenciosa
Su aroma dulce me dio la miradaSeu doce aroma me trouxe o olhar
La guitarra canta perfume escondidoA guitarra canta um perfume escondido
Y mi voz grita lo que he sentidoE minha voz grita aquilo que senti
En la tarde guardo tu flor tempranaNa tarde guardo tua flor tão precoce
Su aroma limpio me dio la ganaSeu aroma puro despertou meu desejo
Y en cada pétalo vi tu reflejoE em cada pétala vi teu reflexo
Dejé mi alma rendida y esperoDeixei minha alma rendida e espero
La despedida fue cruel y tempranaA despedida foi cruel e prematura
Me dejó el alma vacía y lejanaDeixou minha alma vazia e distante
Pero tu sombra volvió a mi serMas tua sombra voltou ao meu ser
Y en cada noche volví a creerE a cada noite voltei a acreditar
Beso de vino me da fortalezaBeijo de vinho me dá força
Cuerpo a cuerpo se borra tristezaCorpo a corpo, apaga-se a tristeza
Lágrimas dulces regaron el sueloLágrimas doces regaram o chão
Y la esperanza me abrió su cieloE a esperança abriu seu céu para mim
Cajón que suena con voz encendidaCajón que ressoa com voz ardente
Palmas que lloran la pena vividaPalmas que choram a dor vivida
La guitarra canta su pena escondidaA guitarra canta sua dor escondida
Y en mi garganta renace la vidaE em minha garganta renasce a vida
Tus pasos vuelven con brisa tempranaTeus passos retornam com a brisa da manhã
Mi voz despierta buscando tu llamaMinha voz desperta procurando tua chama
Y en cada beso renace mi calmaE em cada beijo renasce minha calma
Mi piel descansa, descansa mi almaMinha pele descansa, descansa minha alma
Tus ojos claros me dan compañíaTeus olhos claros me fazem companhia
Mi voz suspira con tu alegríaMinha voz suspira com tua alegria
Y en tu ternura florece el amorE em tua ternura floresce o amor
Donde descansa mi corazónOnde descansa meu coração
Somos el fuego que nunca se apagaSomos o fogo que nunca se apaga
Dos corazones venciendo la nadaDois corações vencendo o vazio
Si el día muere tu voz me defiendeSe o dia morre, tua voz me protege
Y la esperanza conmigo se enciendeE a esperança se acende comigo
Palmas que cierran marcando destinoPalmas que encerram marcando o destino
La voz se quiebra llamando al caminoA voz se quebra chamando pelo caminho
Guitarra arde con notas de llantoA guitarra arde em notas de pranto
Y en tu ternura descanso tantoE em tua ternura encontro tanto descanso

(Betto Gasparetto – 2009)

Nossos Passos na Areia Nos Tatuaram

Posted in Coleção - Poemas on 29 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Poema em quatro movimentos para um amor que nem o mar conseguiu apagar

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — ONDE NOSSOS PASSOS COMEÇARAM

Caminhei contigo quando o céu chorava,
e cada gota parecia o mundo abençoar;
tua mão na minha fez pequena a tempestade,
pois quem ama encontra abrigo sem precisar parar.
Nossos passos escreviam sobre a areia
segredos que somente o mar podia decifrar;
e enquanto nossas sombras se tocavam nas águas,
meu coração aprendia teu nome a soletrar.
Não soube então que aquela breve caminhada
seria o primeiro passo de uma vida inteira a te amar.

II — A CHUVA SOBRE NÓS

Deixa chover, meu amor, que importa a tormenta,
se sob teu olhar encontro meu verão?
Que o vento roube os rastros de nossos pés,
mas jamais o caminho escrito no coração.
Aproxima-te mais, deixa que nossos ombros
aprendam juntos o peso da estação;
pois amar não é esperar que o céu se abra,
é caminhar sob a chuva na mesma direção.
E se o frio ousar alcançar nossos corpos,
hei de aquecer tua alma com o fogo de minha paixão.

III — A PÉROLA DO TEMPO

Há uma pérola escondida entre as pedras,
como um segredo que o oceano quis guardar;
talvez tenha nascido de uma antiga lágrima
que por amar demais aprendeu a cintilar.
Assim também meu coração te guarda:
ferido, fez da própria dor um modo de te amar.
Se um dia o Tempo nos cobrir de cabelos brancos,
voltaremos lentamente a este mesmo lugar;
e entre conchas, lembranças, ventos e marés,
descobriremos que envelhecer foi outra forma de nos apaixonar.

IV — A TATUAGEM QUE O MAR NÃO APAGA

Um dia o mar apagará nossas pegadas,
como apaga impérios, nomes e verão;
não temas, meu amor: aquilo que vivemos
não foi escrito na areia, mas no coração.
Cada passo teu deixou-se dentro de mim,
cada beijo meu em ti encontrou habitação;
e quando já não houver praia, chuva ou juventude,
ainda caminharemos pela mesma recordação.
Pois nossos pés apenas tocaram aquela areia —
foram nossas almas que, ao caminharem juntas, se tatuaram.

(Betto Gasparetto – 1995)

Quando a Tempestade Passar

Posted in Coleção - Poemas on 28 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Poema de amor em cinco movimentos

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — O MAR ENTRE NÓS

Se o céu se parte em cólera sobre o mar,
deixa que o mundo inteiro tema a tormenta;
eu, tendo a tua mão junto da minha,
farei do próprio medo uma oferenda.
Que as ondas ergam tronos sobre abismos,
que o vento rasgue as velas sem piedade;
mais feroz que o oceano é este desejo
que em meu peito reclama eternidade.
Se amar-te é naufragar, não me resgates:
prefiro o teu abismo à terra sem amar-te.

II — A DANÇA DOS AMANTES

Vem, dança enquanto o convés ainda treme,
e faz de meus braços teu secreto cais;
que importa se a tormenta enlouqueceu,
se em teus olhos encontro a minha paz?
Teu corpo junto ao meu desafia os ventos,
tua boca é promessa que não sei negar;
e cada passo nosso sobre as tábuas
parece ordenar às águas que aprendam a calar.
Se esta for nossa última dança, amor,
que a morte espere até eu te beijar.

III — O BEIJO CONTRA A TEMPESTADE

Beija-me agora, antes que o trovão responda,
antes que a noite apague o nosso céu;
deixa em meus lábios tua febre ardente,
como quem grava amor onde nasceu o adeus.
Não quero um beijo tímido ou prudente,
mas desses que fazem o próprio Tempo estremecer;
um beijo em que tua alma invada a minha
e já não saibamos quem deixou de ser.
Pois se o mar reclamar nossos destinos,
que encontre duas bocas recusando-se a morrer.

IV — O JURAMENTO DAS ÁGUAS

Prometo-te não calmarias, minha amada,
pois nenhum homem pode o mar governar;
prometo apenas permanecer contigo
quando até as estrelas deixarem de brilhar.
Se envelhecermos juntos, bendirei os anos;
se forem poucos, hei de bendizê-los também.
Porque uma hora inteira em teus braços
vale mais que cem vidas sem ninguém.
E se perdermos porto, rumo e horizonte,
sê tu meu Norte — e não me perderei jamais.

V — QUANDO A TEMPESTADE PASSAR

Quando a tempestade enfim passar,
e o Sol tocar de ouro os nossos rostos,
veremos sobre as águas adormecidas
os restos da tormenta e os nossos sonhos postos.
Então descansarei minha fronte em teus cabelos
e ouvirei teu coração ainda chamar por mim;
não haverá vitória maior sobre o mundo
que descobrir que permanecemos juntos até o fim.
E se outra tempestade algum dia regressar,
dança comigo, amor — pois contigo é navegar, jamais naufragar.

(Betto Gasparetto – 1995)