NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (07/33)

Posted in Sem categoria on 25 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio VII – Quem Roubou Minhas Noites?

By Dall-E 3

No cair da noite, quando as horas se estendem como um véu sem fim, ecoa no peito uma pergunta murmurada pelo silêncio: Quem roubou minhas noites? Quem apagou o lume das estrelas que antes brilhavam sobre meu existir? Quem furtou os sonhos que um dia povoavam minhas madrugadas, deixando-me entregue ao vazio que, agora, se ocupa de memórias tão amargas quanto a saudade?

As noites, outrora minhas aliadas, foram sequestradas. Já não me pertencem. Delas foram levadas as conversas que embalavam o sono, os risos perdidos entre almofadas e os olhos que, no escuro, se buscavam sem medo do amanhã. Agora, há apenas um abismo onde o silêncio se estende sem consolo, e a escuridão se torna companheira incômoda, como um estranho que ocupa o lugar de um velho amigo.

Quem, senão o tempo, teria mãos tão hábeis para roubar-me as noites sem que eu percebesse? Ah, o tempo! Arquiteto invisível das perdas, ladrão que não deixa rastros, mas cuja ausência pesa como chumbo no espírito. Um dia éramos jovens e as noites eram nossas – longas e cheias de promessas. Elas pertenciam ao amor, ao encontro, ao desejo que queimava sem culpa. Agora, elas pertencem ao vazio, ao eco dos passos que não voltam e das vozes que não mais sussurram.

Sim, quem roubou minhas noites? Teria sido o esquecimento, esse carrasco silencioso que apaga os vestígios daquilo que fomos? Ou teria sido a própria vida, que nos consome tão rápido durante os dias, que já não sobra nada a oferecer quando o céu se pinta de sombras? Há cansaço onde antes havia dança. Há exílio onde antes havia refúgio. Ah, noites que me foram roubadas! Quando vos perdestes? Em que esquina vos deixei escapar?

Nas noites roubadas, eu vejo agora apenas sombras do que um dia possuí. As janelas abertas que recebiam o vento são agora portais de solidão. O relógio, que antes era ignorado entre risos, hoje parece gritar cada segundo, como uma sentença que me condena ao vazio. E o peito, outrora cheio de vida, torna-se um tambor surdo, ecoando a ausência de tudo o que não voltou.

Talvez, quem tenha roubado minhas noites seja a própria realidade. Pois não há mais espaço para os devaneios, não há mais tempo para esperar a lua crescer ou para ouvir o canto dos grilos como uma sinfonia improvisada. A vida exige pressa, e o espírito, já gasto, cede ao peso das horas. O que restou das noites é um entardecer distorcido, um espaço onde o cansaço e a memória se abraçam, mas nunca se consolam.

No entanto, quem poderá roubar o que vive dentro de mim? Por mais que as noites se afastem, há uma centelha que ainda arde, e na escuridão vejo o rastro das estrelas que um dia foram minhas. Elas podem ter se apagado no céu visível, mas ainda brilham no íntimo, onde a esperança teima em resistir. Talvez, então, minhas noites não tenham sido completamente roubadas. Talvez eu as tenha apenas perdido em algum ponto do caminho.

Se assim for, eu posso buscá-las. Não nas horas vazias do relógio, mas no que me faz vibrar mesmo na ausência do som. Pois as noites roubadas não desapareceram; elas se esconderam na memória, onde ainda dormem os sorrisos, as promessas e os gestos que me fizeram acreditar que o escuro não era um fim, mas um convite ao recomeço.

Quem roubou minhas noites? Pergunto, e o vento responde com um sopro leve: “Ninguém pode roubar o que ainda vive em ti.”

Assim, no cair da noite, percebo que o vazio é um artifício passageiro; as noites que pareciam roubadas ainda pertencem ao coração que ousa buscá-las, ainda que em meio às sombras.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

Fragmentos Humanos (25/50)

Posted in Sem categoria on 25 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

XXV – Ruas Nuas de Nós

By Dall E-3

Nas ruas nuas de nós,

onde os passos se emaranham,

Entre laços e desenlaces,

 a cidade se desabafa.

Cada esquina é um ponto de encontro,

um nó que se desfaz,

Emaranhados de histórias,

onde o tempo se refaz.

São ruas de pedra, testemunhas do tempo que passa,

Onde os nós se formam,

 onde a vida se enlaça.

Cada rua é um labirinto de memórias entrelaçadas,

Onde os destinos se cruzam,

onde as almas são encontradas.

Nas ruas nuas de nós,

os corações se abrem e se fecham,

Entre encontros e desencontros,

entre o amor que se desenlaça.

São linhas tortuosas que tecem os destinos,

Onde os sonhos se entrelaçam,

onde os medos são vencidos.

Em cada esquina, um suspiro ecoa no ar,

Um momento capturado,

um desejo por realizar.

São ruas de nós que se desatam e se renovam,

Onde o tempo se desfaz,

onde o presente se move.

Nas ruas nuas de nós, a vida pulsa intensamente,

Entre o caos e a calma,

entre o ser e o sentir presente.

Cada passo é uma jornada,

cada esquina um novo começo,

Onde os nós se desfazem, onde o destino é um só regresso.

É nas ruas nuas de nós que encontramos a verdade,

Onde os caminhos se entrelaçam na nossa própria idade.

Cada rua é uma história, um capítulo por escrever,

Onde os nós se desfazem, onde a vida é nosso dever

(Betto Gasparetto – ii/xx)

NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (06/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio VI – O Espelho das Horas Perdidas

By Dall-E 3

No cair da noite, quando os olhos buscam no escuro o que o dia se recusou a mostrar, há um instante inevitável em que nos deparamos com o espelho. Não o espelho de Menestrel que reflete apenas o que é visível, mas aquele que habita o fundo do peito, onde moram as verdades que evitamos e as horas que perdemos. E lá, diante dessa superfície turva e implacável, notamos: a imagem refletida já não é a mesma.

Quem sois, vós, que agora vos contemplais no silêncio da noite? Quem sois, senão uma sombra mais pálida do que outrora fostes? O tempo, esse escultor invisível, talha lentamente as faces, apaga os brilhos, estende linhas onde antes havia plenitude. O olhar, que um dia ardia de esperança, hoje carrega o peso de um cansaço mudo. E o espelho, impassível, sussurra: “Eis o que te tornaste.”

Quantas vezes, ao dobrar as esquinas do dia, evitamos olhar para dentro de nós mesmos? Pois sabemos que ali, no entardecer interno, está a verdade sem adornos, despida de impressões. Ah, o espelho não mente! Ele revela o que as palavras disfarçam e o que os sorrisos escondem. No vazio das horas noturnas, ele é o juiz que nos confronta, trazendo à tona memórias sepultadas, promessas esquecidas, desejos que nunca encontraram morada.

Contemplai-vos, pois, mas não vos desespereis. A imagem no espelho não é o fim, mas o testemunho de um caminho percorrido. Quantas vezes ouvimos que “O tempo muda todas as coisas, menos as verdades que carregamos”? E eis que, mesmo no entardecer gasto e na aparência cansada, há algo que permanece: o espírito que resiste, a chama que, ainda que trêmula, não se extinguiu.

É verdade que os olhos não brilham como antes, mas ainda enxergam. O rosto não sorri tão fácil, mas ainda é capaz de ternura. O corpo se curva sob o peso dos anos, mas a alma, se não a deixardes morrer, permanece jovem e ousada. O espelho reflete as cicatrizes, mas cada uma delas é uma história; cada marca é uma vitória silenciosa, conquistada no campo de batalhas invisíveis.

Por que, então, temer o entardecer? Por que lamentar a imagem que se alterou? No cair da noite, quando as memórias se dissipam e tudo que resta é a verdade crua, olhai para vós mesmos e vede: ainda sois. Ainda existis. E, enquanto o peito respira, há tempo de reescrever o que o espelho ainda não viu.

Quantos de vós, ao contemplar vossa própria face, murmuram com pesar: “Não sou mais o que fui”? Ah, mas quem deseja sê-lo? Pois o passado, embora belo, já não vos pertence. O que vedes agora é mais forte, mais sábio, mais pleno, pois carrega em si todas as quedas e reerguimentos, todos os silêncios suportados, todas as noites atravessadas com esperança.

E, se vos parece que o vazio das horas devorou quem sois, recordai-vos disto: “O espelho reflete apenas o que o tempo lhe mostra, mas o que sois está além de qualquer superfície.” Pois a alma não envelhece no Menestrel; ela repousa nos sonhos que ainda ousais sonhar, nas promessas que ainda podeis cumprir, nos caminhos que ainda podem ser trilhados.

A imagem mudou, sim, como tudo muda sob o véu das horas. Mas o espelho, tão cruel em sua fidelidade, também traz uma bênção: ele recorda que ainda sois vós mesmos, por mais que os contornos tenham sido redesenhados pelo tempo. O entardecer é apenas um lembrete de que o tempo passa, mas a essência – essa que vos define – permanece intacta, aguardando o amanhecer de novas promessas.

Assim, no cair da noite, quando o vazio se esconde atrás do Menestrel, o espelho não mente: ele não reflete o fim, mas um recomeço que ainda espera por vós, se tiverdes coragem de enxergá-lo.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (05/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio V – As Candeias da Esperança

By Dall-E 3

No cair da noite, quando a música noturna desliza entre frestas e janelas, os suspiros brotam como flores tardias, carregados de ausências e desalentos. São leves, quase etéreos, mas pesados no âmago daquele que os expira. Oh, quantos suspiros já foram ouvidos pelo silêncio das horas vazias! E quantos deles ficaram presos nos lábios, como palavras que jamais ousaram ser ditas?

Um suspiro, dizem, carrega mais do que o ar expelido; é a medida exata do que o coração suporta calar. “Ai!” – solta o peito – e o som se perde, vagando pelas paredes do tempo, sem testemunhas. Há nos suspiros algo de solenidade: eles não gritam, mas falam. Não choram, mas lamentam. E, ah, como a noite escuta! Ela escuta como nenhum outro dia ousaria ouvir, pois na escuridão não há olhos julgadores, apenas um vácuo onde os ecos repousam, suaves, invisíveis.

Quem nunca suspirou pelo que foi, ou pelo que nunca será? Quem nunca, diante de uma janela entreaberta, deixou o olhar escapar ao horizonte e ali depositou, junto ao vento, um pesar inexplicável? Há uma verdade universal no suspiro, pois ele pertence tanto ao desespero quanto ao amor. É o murmúrio mais honesto da alma, a entrega de um fardo que já não cabe no peito. Quando a última luz se extingue e a sombra reina soberana, os suspiros tornam-se os senhores das horas.

O vazio das horas, contudo, engana-se ao parecer mudo. Ele é pleno de murmúrios, sussurros e, sobretudo, suspiros. “Ah…” – solta o apaixonado, recordando olhos que jamais lhe olharam de volta. “Oh…” – expira o solitário, lembrando promessas feitas por lábios que mentiram suavemente. Mesmo aquele que ousa desafiar a noite com um silêncio feroz, se trai num suspiro: o suspiro de quem perdeu, de quem aguarda, de quem desistiu.

Não sois vós, ó homem, o artífice de vossos próprios suspiros? Acaso não carregais dentro do peito um oceano onde as ondas se quebram sem ruído? Há nos suspiros a verdade de que somos frágeis e impotentes perante o tempo que não se dobra, perante os amores que se dissipam e perante as memórias que adornam o vazio como flores secas num vaso antigo. Eles falam, mesmo que sem palavras, e são, talvez, a única oração que a noite aceita sem reprovação.

Na janela onde o vento se insinua, os suspiros ganham forma. Eles se elevam, contorcem-se e, então, somem, como se a própria noite os absorvesse em seu seio profundo. Quem escuta esses ecos? Quem os guarda? Talvez ninguém além de nós mesmos. Porque, no final, um suspiro é sempre uma mensagem para dentro, uma confissão murmurada no escuro. “Eu sinto falta,” diz o primeiro. “Eu não entendo,” completa o segundo. E o terceiro, quase imperceptível, murmura: “Eu aceito.”

Mas que ironia há nesse suspiro derradeiro, o da aceitação! Ele não é o fim do vazio, mas o início de uma resignação que se veste de falsa paz. O vazio das horas, agora, parece menos hostil, pois está cheio de suspiros que são ecos de batalhas que não travamos ou vencemos. Eles nos acompanham como companheiros silenciosos, carregando nossas derrotas mais íntimas, mas também nossas esperanças mais ternas.

No cair da noite, cada homem se torna um poeta de si mesmo, um autor que escreve versos sem tinta, apenas com o sopro quente de um lamento. Os suspiros não mentem. Eles são a mais fiel tradução do que nos atormenta e, ainda assim, nos consolam. Pois, como gotas de orvalho que caem no silêncio, eles nos recordam que o coração, mesmo sofrido, ainda pulsa. Que o peito, mesmo apertado, ainda respira.

Assim, no cair da noite, quando o vazio se apresenta, os suspiros o preenchem como testemunhas do que fomos, do que somos e do que jamais seremos.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (04/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio IV – O Eco dos Suspiros Perdidos

By Dall-E 3

No cair da noite, quando a música noturna desliza entre frestas e janelas, os suspiros brotam como flores tardias, carregados de ausências e desalentos. São leves, quase etéreos, mas pesados no âmago daquele que os expira. Oh, quantos suspiros já foram ouvidos pelo silêncio das horas vazias! E quantos deles ficaram presos nos lábios, como palavras que jamais ousaram ser ditas?

Um suspiro, dizem, carrega mais do que o ar expelido; é a medida exata do que o coração suporta calar. “Ai!” – solta o peito – e o som se perde, vagando pelas paredes do tempo, sem testemunhas. Há nos suspiros algo de solenidade: eles não gritam, mas falam. Não choram, mas lamentam. E, ah, como a noite escuta! Ela escuta como nenhum outro dia ousaria ouvir, pois na escuridão não há olhos julgadores, apenas um vácuo onde os ecos repousam, suaves, invisíveis.

Quem nunca suspirou pelo que foi, ou pelo que nunca será? Quem nunca, diante de uma janela entreaberta, deixou o olhar escapar ao horizonte e ali depositou, junto ao vento, um pesar inexplicável? Há uma verdade universal no suspiro, pois ele pertence tanto ao desespero quanto ao amor. É o murmúrio mais honesto da alma, a entrega de um fardo que já não cabe no peito. Quando a última luz se extingue e a sombra reina soberana, os suspiros tornam-se os senhores das horas.

O vazio das horas, contudo, engana-se ao parecer mudo. Ele é pleno de murmúrios, sussurros e, sobretudo, suspiros. “Ah…” – solta o apaixonado, recordando olhos que jamais lhe olharam de volta. “Oh…” – expira o solitário, lembrando promessas feitas por lábios que mentiram suavemente. Mesmo aquele que ousa desafiar a noite com um silêncio feroz, se trai num suspiro: o suspiro de quem perdeu, de quem aguarda, de quem desistiu.

Não sois vós, ó homem, o artífice de vossos próprios suspiros? Acaso não carregais dentro do peito um oceano onde as ondas se quebram sem ruído? Há nos suspiros a verdade de que somos frágeis e impotentes perante o tempo que não se dobra, perante os amores que se dissipam e perante as memórias que adornam o vazio como flores secas num vaso antigo. Eles falam, mesmo que sem palavras, e são, talvez, a única oração que a noite aceita sem reprovação.

Na janela onde o vento se insinua, os suspiros ganham forma. Eles se elevam, contorcem-se e, então, somem, como se a própria noite os absorvesse em seu seio profundo. Quem escuta esses ecos? Quem os guarda? Talvez ninguém além de nós mesmos. Porque, no final, um suspiro é sempre uma mensagem para dentro, uma confissão murmurada no escuro. “Eu sinto falta,” diz o primeiro. “Eu não entendo,” completa o segundo. E o terceiro, quase imperceptível, murmura: “Eu aceito.”

Mas que ironia há nesse suspiro derradeiro, o da aceitação! Ele não é o fim do vazio, mas o início de uma resignação que se veste de falsa paz. O vazio das horas, agora, parece menos hostil, pois está cheio de suspiros que são ecos de batalhas que não travamos ou vencemos. Eles nos acompanham como companheiros silenciosos, carregando nossas derrotas mais íntimas, mas também nossas esperanças mais ternas.

No cair da noite, cada homem se torna um poeta de si mesmo, um autor que escreve versos sem tinta, apenas com o sopro quente de um lamento. Os suspiros não mentem. Eles são a mais fiel tradução do que nos atormenta e, ainda assim, nos consolam. Pois, como gotas de orvalho que caem no silêncio, eles nos recordam que o coração, mesmo sofrido, ainda pulsa. Que o peito, mesmo apertado, ainda respira.

Assim, no cair da noite, quando o vazio se apresenta, os suspiros o preenchem como testemunhas do que fomos, do que somos e do que jamais seremos.

(Betto Gasparetto – iii/xx)