——Tratado Breve sobre o Amor e a Vaidade ——- …………..(Seis Sonetos e uma Hesitação)……………..

Posted in Sem categoria on 19 de dezembro de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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CAPÍTULO I — Das Raízes da Vaidade

O amor nasceu soberbo como aurora,
Vestiu-se em ouro antes de ser verdade;
Mirou-se em mim qual fonte que se adora
E fez do próprio ardor sua vaidade.

Quis ser jardim sem aceitar a terra,
Flor sem raiz, perfume sem espera;
Mas todo afeto que se exalta e erra
Aprende tarde o peso que o tempera.

Amei-te assim, altivo e desmedido,
Crendo ser rei num trono imaginado;
Hoje sei bem: o amor só é erguido
Quando se curva, humano, ao ser amado.


CAPÍTULO II — Lábios de Aconchego

Teus lábios são abrigo contra o tempo,
Portas abertas quando a noite cai;
Neles repousa o verbo mais sereno
Que a dor escuta e, dócil, se desfaz.

Não pedem pressa, exigem permanência,
São casa acesa em tarde de inverno;
Beijá-los é firmar sobrevivência
Num pacto antigo, terno e sem governo.

Se o mundo ruge em vozes de aço e medo,
Tua boca me ensina outro idioma:
O silêncio que salva, lento e cedo,
E aquece o peito como antiga soma.


CAPÍTULO III — Abraços de Ternura

Há braços teus que sabem do meu cansaço
Antes que eu diga o peso de existir;
Eles me cercam como firme laço
Que não aprisiona — ensina a florir.

No teu abraço, o caos se ajoelha,
A alma desaprende a se defender;
Sou menos lâmina, sou mais centelha,
Quando teu corpo escolhe me acolher.

Quem toca assim não busca posse ou mando,
Mas comunhão, repouso e partilha;
Teu gesto é reino manso se formando
Onde o amor governa sem armilha.


CAPÍTULO IV — Beijos e Desejos

O beijo é chama escrita em carne viva,
Promessa breve que incendeia o chão;
Desejo é rio que jamais deriva
Sem encontrar teu corpo em contramão.

Não é só fome: é sede de infinito,
É verbo ardendo à beira do dizer;
Na boca o mundo cabe, pequeno e rito,
E o tempo esquece a pressa de correr.

Se peco, é por querer-te em demasia,
Por fazer do teu toque religião;
Pois todo amor que ousa em poesia
Prefere o risco à fria negação.


CAPÍTULO V — Por um Motivo a Mais

Amo-te não por tudo que me dás,
Mas pelo que em mim fazes despertar;
Por esse “a mais” que nunca pedes, mas
Insistes, silenciosa, em me ofertar.

És causa quando o efeito já termina,
Luz remanente após o pôr do sol;
Amar-te é escolha lúcida e contínua,
Não acidente, impulso ou arrebol.

Se o mundo exige máscaras e jogos,
Contigo sou apenas o que sou;
E nesse excesso simples — entre nós —
Descubro o amor maior que já restou.


CAPÍTULO VI — Soneto Inacabado (Do Amor que Hesita)

Se te disser que o amor não sabe o rumo,
Minto: ele sabe, mas prefere tardar;
Tem medo antigo de perder o lume
Que faz do peito um lugar de ficar.

Teu nome soa em mim como sentença
Que pede vida antes de conclusão;
Sou verso preso à própria reticência,
Temendo o fim que nasce da paixão.

Se avanço, temo o peso da verdade;
Se calo, sangra em mim o não dizer…

(o soneto se interrompe, como o amor que ainda não ousou concluir-se)

(Betto Gasparetto – x-mmxx)

INTERVALLUM

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2025 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

Doloroso é abrir os olhos e perceber-me
na superficialidade,
Aninhada nos destroços que essa lucidez
deixou.

É a quietude, o passo mais perto
que me corroí —
Inevitavelmente.

Aquele milésimo de segundo que
distanciara sua mão fria
Do meu eu morno.

Antevejo a dor maior quando
O fragmento dessa lembrança for
lançado ao espaço,
Oco.

E o martírio repentino e repensado
milhares de vezes
Sobre a evitabilidade do abandono.

Inclino minha cabeça pesada ao longo
braço de um sofá envelhecido.
Atiro meu corpo ali, como um animal
abatido,
Aguardando a dissecação.

Sinto-me observada através do teto,
Que se assemelha às bordas de um
abismo familiar.
Lindo, transparente, porém cortante.

Fecho os olhos.
À espera de que, sutilmente, a sonolência
atordoada de divagações angustiantes
Me adormeça, imperceptível, imprecisa e
doce.

(BRENDA GGxvii-xii-mmxxv)

Teu Nome é Verbo Exato

Posted in Sem categoria on 17 de dezembro de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

No quarto, o amor repousa e se refaz,
A luz da lua encobre as imperfeições.
E os corpos, entre o tempo e o que se faz,
Compõem orações em vibrações.

Teu nome, dito ali, é verbo exato,
Que o peito diz sem precisar de voz.
E o mundo, lá fora, perde o trato,
Pois a verdade cabe apenas em nós.

O teto respira e o dia se renova,
Com cada beijo que o instante prova.

II

A janela abre a alma à claridade,
E o sol visita as flores da varanda.
A vida sorri em sua simplicidade,
E o amor, maduro, planta e comanda.

Não há espelho que te defina inteira,
Pois tua essência é móvel e contínua.
Teu gesto é ponte entre a luz primeira
E o infinito que em ti culmina.

E o mundo aprende, ao ver-te, em calma:
Que o lar é o reflexo de uma alma.

(Betto Gasparetto- vii-mmxvii)

O Céu Repousa em Desatino

Posted in Sem categoria on 16 de dezembro de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

A varanda se abre em pura entrega,
Com flores que não cansam de florir.
O sol se apoia em tua sombra, e não nega
Ao tempo a arte sutil de te seguir.

A escada do teu riso é caminho,
Que sobe em espiral até o infinito.
No alto, o céu repousa em desatino,
E o coração descansa no bonito.

Teu sonho é arquitetura de esperança,
Feita de fé, de luz e confiança.

II

A cozinha exala aromas de ternura,
O pão do amor fermenta o cotidiano.
E o fogo, em sua chama mais pura,
Queima o egoísmo e o engano.

No canto, o bule assovia memórias,
Enquanto a tarde pousa na cortina.
E o tempo, em calma, escreve histórias
Com letras doces de farinha e sina.

Assim o lar, pequeno e discreto,
É catedral do simples, mas completo.

(Betto Gasparetto- vii-mmxvii)

O Tempo se Acomoda

Posted in Sem categoria on 15 de dezembro de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

Teu sonho é a casa onde o amor habita,
Com portas que só abrem de dentro.
O vento, ao passar, saúda e imita
A brisa que te envolve por completo.

Teu corpo é alicerce, muro e ponte,
E o teto é céu de puro amanhecer.
Em cada vão, há luz que me aponte
O rumo exato do melhor viver.

E o chão, tecido em sombra e claridade,
Sustenta o peso leve da verdade.

II

Na sala, mora o riso do descanso,
No corredor, o tempo se acomoda.
O mundo, ao ver teu gesto manso,
Encontra paz e aprende a nova moda.

Nos teus cabelos, rios desenhados,
Correntes de lembrança e claridade.
E os teus olhos, candeeiros delicados,
Iluminam a rota da saudade.

Se o amor tem forma, forma tem teu nome,
Feito edifício que o vento consome.

(Betto Gasparetto- vii-mmxvii)