O relógio dorme e o tempo se dispersa, Quando teu riso dobra a dimensão. O ar suspende o ponteiro e conversa Com a quietude pura da emoção. Nenhuma hora é dona de nós dois, Nem calendário ousa nos medir. O amor é eterno em seu depois, E aprende o dom antigo de florir. Cada minuto, ao teu redor, repousa, E o tempo, humilde, enfim se recompõe.
Tu és o instante em que o mundo cessa, E a pressa perde o fôlego e o tom. O coração, que antes vivia em pressa, Descobre o verbo lento da canção. O sol demora a cruzar tua janela, E o dia pede pausa no relógio. O vento aprende a ser sentinela, E o céu refaz a cor do seu antológico. A vida, em ti, é sonho atemporal, É o silêncio pleno e natural.
No teu abraço mora o interstício Que o tempo ignora e Deus recorda. E o amor, que é mais que artifício, Transforma o medo em flor que não se dobra. Os dias, em tua pele, são feriados, E as noites, luas de respiração. No compasso manso dos teus lados, O corpo aprende o ritmo da razão. E a eternidade, clara, nos visita, Em cada gesto simples que se imita.
Não há relógio que nos contenha, Nem cronômetro que saiba medir. A vida inteira em teu olhar se empenha Em traduzir o verbo de existir. O mundo corre, eu fico no teu passo, E o tempo erra a hora de partir. O sol repousa inteiro em teu abraço, E a sombra esquece o dom de dividir. Até o vento muda de sentido, Pra ver o amor ser lento e decidido.
Teus olhos marcam o compasso certo, São bússolas do agora e do além. E quando a tarde chega por perto, Tudo parece calma e vai-se bem. O relógio, cético, se resigna, Entende o tempo como gesto humano. E cada toque teu um estigma, Faz do futuro um solo soberano. Assim o amor governa a duração, E dita o pulso da respiração.
Se o mundo ruge e o caos se multiplica, Tua voz organiza o calendário. O peito segue o ritmo que indica, E a vida acha sentido solidário. Teu nome é pausa entre uma era e outra, É o intervalo em que o sol descansa. Na ampulheta do afeto, a rota é outra, E o grão do tempo é pó de confiança. Tudo o que urge cede à calmaria, E o amor se ergue como liturgia.
Não peço eternidade em monumento, Mas o instante claro que nos contém. O tempo é breve, o gesto é fundamento, E o coração conhece o seu além. Se amanhã vier frio, trarei coberta; Se vier calor, serei sombra e abrigo. A vida, em ti, é estrada descoberta, E o tempo, em nós, aprende o que é antigo. No livro das horas, reescrevi Que o tempo é amor quando está em ti.
Se a morte vier em seu compasso exato, Encontrará dois corpos no descanso. E o céu, ciente, ouvirá o relato De dois amores plenos, sem remanso. O tempo, ouvindo, há de parar também, E o mundo, em respeito, guardará. Pois o amor, que é alma e chão de alguém, É quem ensina o tempo a perdoar. E as horas, antes firmes, vão sorrir: Não há relógio que saiba medir.
Assim seguimos, fora do costume, Com o olhar que eterniza o cotidiano. E o coração, em sua doce fome, Descobre o pão do gesto soberano. Amar-te é suspender toda medida, É dar à vida um eixo e uma estação. E o tempo, ao ver, desiste da corrida, Pois já entendeu a nossa dimensão. E o relógio, cansado de esperar, Canta as horas que o amor quis poupar.