Sonho Desfeito

Posted in Sem categoria on 6 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Sonhei contigo ao sopro da manhã,
Tua figura em seda reluzente,
Mas logo o dia, em chama tão vã,
Rasgou do sonho a imagem tão presente.

Teu rosto claro em sombra se apagava,
Teus lábios frios negaram meu desejo,
E o que restava em mim já se calava,
Na despedida amarga do teu beijo.

A primavera em pranto se tornou,
As flores murcham sob vento agreste,
E minha vida em cinza se pintou,
Pois foste embora quando mais me deste.

Oh sonho breve, imagem de esperança,
Que se perdeu em névoa tão cruel,
Ainda guardo em mim tua lembrança,
Mas já não creio em céu.

Assim caminho em luto, em desalento,
Com olhos secos de tanto sofrer,
E cada passo, em duro sofrimento,
É peso eterno de jamais te ver.

(Betto Gasparetto – v-mmix)

O Canto Interrompido

Posted in Sem categoria on 5 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Ergui minha alma em versos de esperança,
Cantando ao vento o sonho de te ter,
Mas o destino, em dura aliança,
Fez da promessa um cântico a morrer.

Os bosques guardam rastros de tua fala,
O rio chora o tempo que se vai,
E minha vida, em dor que não se cala,
É nau sem porto em mar que nunca é paz.

Teu riso doce foi-se como aurora,
Trazendo luz e logo se apagando;
E minha voz, que em ti vivia outrora,
Agora é eco inútil, se arrastando.

Se em ti pensei o todo do universo,
E te entreguei meu mundo sem temores,
Agora restam cinzas sobre o verso,
E o coração, em dor, não vê mais flores.

Eis-me perdido, errante no caminho,
Com meu cantar suspenso e tão vazio;
A noite ri, zombando do meu hino,
E o peito arde em fogo tão sombrio.

(Betto Gasparetto – v-mmix)

A Rosa que Partiu

Posted in Sem categoria on 4 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na tarde fria, a sombra se alongava,
Teu riso doce em ecos me seguia,
E cada pétala ao vento se lançava,
Trazendo em dor a face da agonia.

Teu nome, em cinzas, rompe o firmamento,
O tempo, em vão, não cura tal ferida,
E a lembrança, que vive em desalento,
Revela em mim a lágrima contida.

O sol se esconde atrás de nuvem parda,
O mar recua em ondas de silêncio,
E a solidão, cruel, em mim se guarda,
Fazendo o peito um cárcere sem lenço.

Amor é chama em brasa que consome,
É fonte ardente em sede que não finda;
Por mais que o mundo negue o teu nome,
Ainda em mim tua lembrança é linda.

Mas vais, ao longe, e nada me devolve,
A estrada é fria, e o passo se desfaz;
E a esperança, em sombra, se dissolve,
Na cinza clara de um amor fugaz.

 (Betto Gasparetto – v-mmix)

Quando as Máscaras Caem

Posted in Sem categoria on 3 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há sociedades que não se sustentam pela violência explícita, mas pela encenação constante. Não é preciso proibir quando se pode distrair; não é necessário calar quando se pode confundir. O poder contemporâneo prefere o verniz ao confronto, o slogan à verdade, a aprovação pública ao debate real.

Estes sonetos atravessam esse território onde a aparência tornou-se método de governo. A praça exibe bustos de virtude enquanto negocia bastidores; o muro invisível separa mais do que qualquer concreto; o ouro polido recebe reverência enquanto a fome é traduzida em estatística aceitável. Não se trata apenas de política institucional — trata-se de um hábito cultural que naturaliza a encenação.

Arendt observou que o mal pode operar com normalidade burocrática. Orwell alertou para a manipulação da linguagem como ferramenta de domínio. Galeano mostrou como o mercado aprende a esquecer aquilo que o constrange. Aqui, essas intuições reaparecem não como citação erudita, mas como inquietação viva.

O homem ajustado, o eleitor seduzido, o consumidor distraído, o poeta que insiste em nomear — todos participam da mesma arena. O conflito não é apenas externo: é íntimo. Cada máscara retirada exige responsabilidade.

Se há algo que une estes poemas, é a recusa em aceitar o espetáculo como destino inevitável. A palavra surge não como ornamento, mas como instrumento de desvelamento. Nomear é retirar o disfarce. Recordar é contrariar o esquecimento conveniente. Perguntar é interromper o roteiro.

Não há ingenuidade aqui. Há consciência de que a encenação é sedutora, confortável e lucrativa. Mas há também a certeza de que nenhuma máscara é eterna.

E enquanto houver quem escreva contra o disfarce, a república das aparências não será absoluta.

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I – República das Máscaras

“O poder prefere a aparência à verdade.” (Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)

Na praça erguem bustos de virtude,
polidos rostos sem fissura ou dor;
mas sob o bronze vive o rumor
de pactos feitos em quietude.

Chamam “ordem” à velha servitude,
“bem comum” ao lucro maior;
e o cidadão, pequeno ator,
aplaude a própria inquietude.

Máscaras reinam na claridade,
cada qual vende a sua versão
como se fosse eternidade.

Eu rasgo o pano da encenação:
prefiro a frágil sinceridade
à glória oca da aprovação.

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II – Elegia ao Muro Invisível

“Minha identidade é o que me negam.” (Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)

Entre ruas sem nome e sem retrato,
ergue-se um muro de opinião;
não é de pedra, mas de negação,
de olhares que recusam contato.

Chamam “medo” ao preconceito exato,
“prudência” à segregação;
mas cada rosto pede chão
e cada passo exige trato.

O muro cai quando alguém escuta,
quando o nome encontra o seu lugar,
quando a história não é disputada.

Se o mundo insiste na conduta
de excluir para governar,
eu ergo o verso como enxada.

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III – Sermão Contra o Ouro Polido

“O colonialismo começa na mente.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

No templo erguido ao lucro e à taxa,
pregam fé no mercado invisível;
a fome é dado estatístico plausível,
e a dívida vira marcha.

Chamam “civilização” à farsa,
“progresso” ao grilhão previsível;
mas o povo, em murmúrio audível,
prepara a ruptura que não disfarça.

Não é sagrado o ouro polido,
nem eterno o trono que o sustém;
a história cobra o que foi omitido.

E quando o grito disser “amém”
não será hino do oprimido,
mas juízo contra o desdém.

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IV – O Homem e o Absurdo Eleitoral

“A revolta dá dignidade.” (Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)

Prometem céu em urna lacrada,
distribuem esperança impressa;
mas a palavra muda depressa
quando a cadeira é conquistada.

Chamam “povo” à massa cansada,
“mudança” à mesma promessa;
a revolta, se se expressa,
é tida por desvairada.

Mas há dignidade na recusa,
no “não” que rompe o protocolo,
na crítica que não se desculpa.

Se o voto vira dolo,
a consciência recusa
ser cúmplice do rolo.

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V – Litania para um Nome Esquecido

“Se você não contar sua história, outro contará por você.(Inspirado em Toni Morrison – EUA)

No bairro antigo, sob luz incerta,
um nome cai no chão da memória;
ninguém registra a breve história,
ninguém reabre a porta aberta.

Chamam “caso” à vida deserta,
“trágico” ao fato sem glória;
mas a palavra, feita vitória,
ressurge quando alguém desperta.

Escrevo o nome em pedra clara,
não para culto ou altar,
mas para que a cidade o encare.

Se o mundo insiste em apagar,
o poema insiste e repara:
lembrar é resistir ao calar.

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VI – Confissão do Homem Ajustado

“A má-fé é fugir da liberdade.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)

Disse que não era comigo,
que o mundo gira e eu apenas sigo;
mas no espelho, rosto antigo,
vi meu silêncio como abrigo.

Chamei prudência ao medo amigo,
chamei “real” ao gesto ambíguo;
mas a consciência — aço antigo —
cortou-me o pacto vago e frio.

Ajustar-se é fácil conforto,
mas custa a espinha do querer;
cala-se a alma no porto.

Hoje escolho responder:
prefiro o risco torto
à paz de não me mover.

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VII – Crônica do Mundo que Se Vende

“O sistema é especialista em esquecer.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)

Vendem a chuva em garrafa fina,
o ar em lata, o sonho em série;
a infância vira estatística etérea,
e a guerra rende oficina.

Chamam “negócio” à fome menina,
“dado” ao pranto que fere;
mas a memória, quando interfere,
desmonta a farsa que domina.

Quem compra o mundo perde o chão,
quem vende a alma perde o nome;
há preço alto na transação.

E quando o lucro consome,
descobre-se tarde a lição:
nem tudo se compra ou se some.

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VIII – A Casa que o Corpo Habita

“A identidade é construção e combate.” (Inspirado em Sylvia Plath – EUA)

No quarto estreito da própria pele,
escuto vozes que me definem;
mas minhas veias se autodeterminam
contra o rótulo que me repele.

Chamam “desvio” ao que não convém,
“normal” ao molde repetido;
mas meu corpo, lúcido e erguido,
recusa o padrão que o contém.

Habito a casa que me invento,
não a que me deram pronta;
sou gesto, falha e movimento.

Se a norma me afronta,
respondo com pensamento:
ser é luta que não desmonta.

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IX – Salmo para um Século Cansado

“O poeta é a consciência inquieta.” (Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)

Século exausto de brilho falso,
de guerras breves e longas telas;
a verdade, entre janelas,
perde o lugar no palco.

Chamam “avanço” ao passo em falso,
“rede” às novas correntes paralelas;
mas há ainda vozes singelas
que recusam o gesto encalço.

O poeta não é santo ou herói,
é aquele que nomeia a dor
quando o discurso a corrói.

Se o tempo exige temor,
ele escreve e constrói
uma ética em fervor.

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X –  A Palavra Contra o Mundo

“A leveza é uma forma de precisão.” (Inspirado em Italo Calvino – Itália)

Quando o ruído cobre a cidade,
resta a palavra como lâmina;
não para ferir, mas para a trama
de outra possível claridade.

Chamam “utopia” à liberdade,
“ingênuo” ao gesto que reclama;
mas cada verso que se inflama
abre fissura na opacidade.

Não é espada, é semente;
não é grito, é consciência;
não é fuga, é presente.

Se o mundo insiste na aparência,
a poesia, persistente,
ergue o ser contra a indiferença.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)

O Confinamento da Linguagem

Posted in Sem categoria on 2 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há violências que não exigem gritos.
Basta uma sala cheia, palmas sincronizadas e a convicção de que tudo segue “como deve ser”.

Estes poemas não nascem da indignação teatral. Nascem da observação do cotidiano: o gesto burocrático que apaga um rosto, a palavra que suaviza o confinamento, a notícia que reduz um corpo a número, a liberdade convertida em vitrine parcelada, o medo rebatizado como prudência.

O que inquieta aqui não é o excesso de brutalidade explícita, mas a administração eficiente da injustiça. O mal contemporâneo raramente se apresenta como fúria; ele prefere o expediente regular, a justificativa técnica, a estatística organizada. Ele se legitima pelo aplauso — e o aplauso pode ser tão decisivo quanto a ordem.

Quando a violência é normalizada, ela deixa de parecer violência. Quando a linguagem muda, o fato também muda de nome. O confinamento vira segurança. A censura vira zelo. A desigualdade vira mérito. A indiferença vira neutralidade.

Esses sonetos recusam essa tradução confortável.

Não pretendem oferecer heroísmo. Também não prometem pureza moral. O foco é outro: revelar a engrenagem. Mostrar como a conveniência educa o corpo, como a memória resiste ao apagamento, como a palavra pode interromper o fluxo automático da obediência.

O poema, aqui, não é ornamento — é contraponto.

Enquanto houver quem transforme o sofrimento em gráfico, será preciso devolver o nome ao número. Enquanto houver quem aplauda para não se comprometer, será necessário escrever.

Não para salvar o mundo — mas para não participar do coro.

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I – A Banalidade do Aplauso

“O mal pode ser terrivelmente comum.”(Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)

Na sala cheia, palmas disciplinam
o gesto exato do homem correto;
ninguém pergunta ao rito obsoleto
por que as engrenagens assassinam.

Chamam “ordem” ao medo que ensinam,
“dever” ao silêncio mais discreto;
e o erro, de terno e voto secreto,
sorri enquanto as vozes declinam.

O mal não ruge — cumpre expediente,
bate o ponto, carimba o destino,
aplaude a própria culpa obediente.

E eu escrevo, contra o hino
que absolve o gesto indiferente:
pensar é o único desatino.

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II – Fronteira de Pó e Oliva

“Escrevo para que a terra não me esqueça.”(Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)

Na linha seca entre pedra e vento,
um nome resiste ao mapa rasgado;
o soldado guarda o campo cercado,
mas a raiz insiste no cimento.

Chamam “segurança” ao confinamento,
“paz” ao muro armado;
e o trigo, sob o céu sitiado,
aprende a crescer em silêncio lento.

A pátria é mais que cerca e bandeira,
é voz que atravessa a fronteira
como água sob a areia.

Se o mundo fecha a cancela,
o poema abre a clareira:
ninguém exila uma ideia.

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III – Inventário da Cor Silenciada

“Minha boca será a boca das desgraças.”(Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

Catalogaram a pele em gavetas,
mediram o tom com régua moral;
chamaram “exótico” o que é vital,
e “raça” ao medo de suas metas.

Ergueram tronos sobre algemas discretas,
e à história deram verniz colonial;
mas a memória, vulcão ancestral,
arde sob as páginas quietas.

Não sou cifra em arquivo alheio,
nem figurante no drama do império;
sou a voz que recusa o freio.

Se o mundo insiste no critério,
eu escrevo — negro e inteiro —
contra o silêncio do cemitério.

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IV – O Estrangeiro em Plena Praça

“O absurdo é a claridade do mundo.”(Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)

No centro exato da cidade clara,
sinto-me alheio ao próprio chão;
a praça vibra em exaltação,
mas o sentido me escapa e dispara.

Chamam “verdade” à voz que declara
certezas prontas na multidão;
eu busco o sol na contradição
que o absurdo íntimo me prepara.

Se nada salva, salvo o gesto lúcido;
se tudo é ruído, escolho o silêncio;
se a lei é máscara, fico intrépido.

Viver é resistir ao consenso:
na praça plena, permaneço único,
estrangeiro ao falso incenso.

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V – Manual para Esquecer um Corpo

“A memória é resistência.”(Inspirado em Toni Morrison – EUA)

Enterram o corpo com notícia breve,
três linhas frias e foto menor;
a cidade segue seu rumor,
o lucro cresce, a dor não se escreve.

Chamam “fatalidade” ao que não deve,
“estatística” ao sangue em flor;
mas a memória — semente e ardor —
rompe o asfalto onde a verdade ferve.

Não esquecerei o nome calado,
nem a rua que viu o disparo;
não deixarei o rosto apagado.

Se o mundo prefere o avaro,
eu guardo o gesto lembrado:
memória é justiça em preparo.

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VI – A Liberdade em Regime de Vitrine

“O homem está condenado a ser livre.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)

Vendemos a liberdade em parcelas,
com juros brandos e selo oficial;
o medo vira hábito social,
e a escolha se faz entre janelas.

Chamam “opção” às mesmas querelas,
“autonomia” ao script digital;
mas o ser, inquieto e visceral,
recusa o molde das sentinelas.

Livre é quem assume o peso do ato,
não quem repete o gesto esperado
sob o aplauso do contrato.

E se o mundo exige lado,
eu escolho o risco exato:
ser livre é ser responsabilizado.

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VII – Crônica do Mundo ao Avesso

“Somos feitos de histórias.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)

No mercado, vendem sonhos usados,
com desconto para quem não sonha;
a guerra vira tela risonha,
e os mortos, dados já somados.

Chamam “crise” aos salários cortados,
“ordem” à rua medonha;
a verdade, tímida e tristonha,
vive nos cantos ignorados.

Mas há histórias sob a poeira,
há vozes pequenas que sustentam
o peso da noite inteira.

E quando elas se levantam,
o império treme na cadeira:
a narrativa é arma que enfrentam.

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VIII – A Casa Dentro da Tempestade

“A mente é seu próprio lugar.”(Inspirado em Sylvia Plath – EUA)

Na casa estreita da própria mente,
a chuva bate com voz severa;
mas a janela, ainda que impera
a noite, guarda luz persistente.

Chamam “fraqueza” ao peito ardente,
“histeria” à dor sincera;
mas o pensamento não se encerra
na etiqueta conveniente.

Resisto à norma que me nomeia,
recuso o rótulo fácil e estreito;
minha verdade não se enleia.

Se a tempestade insiste no peito,
eu escrevo — e a palavra semeia
uma casa mais firme que o preconceito.

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IX – Voz Clandestina

“A tentação é ajustar-se.”(Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)

Aprendem cedo a dobrar a espinha,
a concordar com o poder sentado;
chamam “prudência” ao medo calado,
e “virtude” à consciência mesquinha.

A verdade vira voz clandestina,
o grito é vício mal tolerado;
mas há no íntimo um fado
que não aceita disciplina.

Ser conveniente é fácil caminho,
mas cobra a alma como tributo;
paga-se caro pelo vizinho.

Eu escolho o verso absoluto:
prefiro o risco sozinho
à paz comprada por luto.

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X – A Cidade Transparente

“A leveza é resistência.”(Inspirado em Italo Calvino – Itália)

A cidade ergue torres de vidro,
promete céu em condomínio fechado;
mas o chão, cansado e pisado,
sussurra verdades sob o ruído.

Chamam “progresso” ao brilho polido,
“futuro” ao passado reciclado;
e o homem, em aço moldado,
perde o rosto no próprio espelho líquido.

Quero leveza contra o peso bruto,
quero ar nas ruas comprimidas,
quero espaço no concreto astuto.

Se a torre vigia nossas vidas,
eu ergo o verso, agudo e enxuto:
transparência é romper as medidas.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)