O Que Permanece Quando Tudo Passa (02/10)

Posted in Sem categoria on 1 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Capítulo II — Antes da Guerra

Najillah, a Musa — O Amor Como Descoberta

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O encontro não foi grandioso.
Foi cotidiano.
Um gesto comum.
Um olhar sustentado por segundos a mais.
Ela não sentiu medo.
Sentiu curiosidade.
Ele não prometeu nada.
Isso a tranquilizou.
Os dias passaram a ter expectativa.
O tempo ganhou textura.
Ela passou a observar detalhes.
A forma como ele escutava.
A maneira como segurava objetos.
A atenção silenciosa.
O amor cresceu sem anúncio.
Sem pressa.
Sem discursos.
Ela se sentia segura.
Não protegida — respeitada.
A rotina ganhou cor.
O mundo parecia estável outra vez.
Ela passou a planejar.
Não muito.
Mas passou.
Pensava em continuidade.
Em permanência.
Não em urgência.
O amor era abrigo.
Não refúgio.
Ela não sabia que isso mudaria.


Yahzzir, o Menestrel— O Amor Como Âncora

Ele percebeu antes do que admitiu.
Não resistiu.
Não romantizou.
Apenas permaneceu.
O amor lhe trouxe equilíbrio.
Uma sensação de eixo.
Ele passou a pensar em dois.
A reorganizar escolhas.
Não sentia medo do compromisso.
Sentia responsabilidade.
Via nela algo que não queria perder.
Mas não pensava em perda.
Pensava em cuidado.
O mundo parecia menos áspero.
A rotina, mais habitável.
Ele acreditava que a vida seguia.
Que os dias se acumulavam.
Que o futuro era administrável.
Não percebia as fissuras.
Não ouvia os alertas.
O amor o ancorava.
E o tornava, sem saber, vulnerável.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (01/10)

Posted in Sem categoria on 31 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Capítulo I — Antes da Guerra

Najillah, a Musa — A Juventude Intacta / A Promessa

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Ela nasceu em um tempo que ainda acreditava na ordem das coisas.
Cresceu entre manhãs claras e tardes previsíveis.
Aprendeu cedo a ajudar em casa.
Sabia cozinhar, costurar, organizar.
Não por obrigação, mas por costume.
A vida lhe parecia um caminho contínuo.
As ruas eram familiares.
Os rostos, reconhecíveis.
Havia segurança nos gestos repetidos.
O rádio era companhia diária.
As músicas falavam de amor simples.
Ela acreditava nessas letras.
Acreditava no futuro como extensão do presente.
Vestia-se com cuidado.
Gostava de cores suaves.
Gostava de se sentir vista.
Não imaginava ser lembrada pela história.
Imaginava apenas viver.
Trabalhava desde cedo.
Guardava pequenos sonhos.
Casar não era urgência.
Era possibilidade.
A guerra era palavra distante.
Algo que acontecia fora do mapa íntimo.
Ela não tinha vocabulário para o medo.
Seu corpo ainda não conhecia tensão constante.
Dormia sem sobressaltos.
Acreditava na normalidade como direito.
Não desconfiava do tempo.
Nem da fragilidade das coisas.
Amava o cotidiano.
E isso a tornava vulnerável.


Yahzzir, o Menestrel— O Homem Antes da Ruptura

Ele já conhecia responsabilidades.
Não era ingênuo.
Mas também não era cínico.
Trabalhava com regularidade.
Sentia orgulho do que fazia.
Acreditava no esforço como valor.
O mundo lhe parecia duro, porém justo.
Havia regras.
Havia consequências.
Ele aceitava ambas.
Gostava de caminhar à noite.
Observava mais do que falava.
Tinha planos contidos.
Não sonhava alto.
Sonhava possível.
Via o futuro como construção gradual.
A política lhe parecia distante.
A guerra, improvável.
Acreditava em estabilidade.
Sentia-se jovem, mas não despreparado.
Usava ternos simples.
Cuidava dos sapatos.
Gostava de silêncio.
Gostava de ordem.
Tinha respeito pelo tempo.
Não acreditava em heroísmo.
Acreditava em constância.
Ainda não sabia o que perder significava.
Ainda não sabia o peso da ausência.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Jardim Que Cresceu Entre Nós

Posted in Sem categoria on 30 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

Entre nós cresceu um jardim secreto,
Feito de gestos, sol e paciência.
A terra era bruta, o chão discreto,
Mas floresceu no húmus da ausência.
Teu olhar foi semente e claridade,
Meu passo, enxada em sulco de ternura.
E a chuva trouxe a música da idade,
Enquanto o tempo adubou a doçura.
O primeiro broto, tímido, insistia,
Como um milagre que se repetia.

II

Regávamos o chão com nossos risos,
E a flor se ergueu com cheiro de descanso.
As folhas guardam sonhos indecisos,
Mas no perfume mora o reencontro manso.
As cores se misturam sem disputa,
E o sol assina o quadro do querer.
A abelha vem, a brisa nos escuta,
E o amor aprende o dom de florescer.
O tempo passa, mas o chão recorda:
A vida é flor, a pressa é quem desborda.

III

Houve pragas, sim, e algum desgosto,
Mas nada que o cuidado não curasse.
O amor, que é vento e adubo posto,
Sabe onde o broto dorme e renasce.
E o coração, de tanto se inclinar,
Aprendeu o ofício da espera.
Cada manhã é convite pra regar,
Cada tarde é bênção que prospera.
E se a noite cai, o luar vigia,
Com olhos de orvalho e poesia.

(Betto Gasparetto- vii-mmxvi)

De Todos os Frutos da Ventura

Posted in Sem categoria on 29 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

No jardim, há flores sem nome ainda,
Que o tempo batizará mais tarde.
E há raízes que se aprofundam lindas,
Firmando o chão do que nos resguarde.
Eu sei de cor o canto dos teus ramos,
O modo como o vento te percorre.
E quando o sol desponta, nós chamamos
A esperança pelo nome que não morre.
O ar tem cheiro de manhã recente,
E o mundo se refaz de semente.

II

Teu corpo é árvore em paz com a estação,
Teus braços são galhos de ternura.
Em teu sorriso vive a plantação
De todos os frutos da ventura.
E quando o tempo tenta ser rude,
Teu gesto o acalma, puro jardineiro.
Tu sabes que o cuidado é quem decide
O que floresce, o que dorme no canteiro.
E a vida entende, em nossa companhia,
Que a eternidade é feita em dia a dia.

III

Há flores raras que nascem do pranto,
Com cor de cinza e cheiro de saudade.
São delicadas, frágeis, mas em canto
Revelam força e profundidade.
Eu as cultivo com tua lembrança,
Com dedos de silêncio e devoção.
E no perfume há traço de esperança,
Que faz do ontem um campo de oração.
O amor, enfim, é horto misterioso,
Que tem no tempo o seu jardim precioso.

(Betto Gasparetto- vii-mmxvi)

Réquiem para os Sonhos Perdidos

Posted in Sem categoria on 28 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Distante de um jardim de alegrias
e de um ludismo afável,

Prevaleceram labirintos infinitos:
paredes úmidas,
luminescências espectrais,
tons amarelados que perpetuavam o tédio.

Inarticuladas eram as falas
daqueles que puderam apenas vislumbrar
o léxico do pavor
e jamais compreenderam
o significado de “lar”.

Tiveram apenas cristalizado,
em raízes podres,
o reduto de telha rubra jorrando dos céus,
a indiferença penetrante
de um cobertor frio
sobre um corpo trêmulo.

Agora andam a vagar, sem rumo,
comunicando-se em um dialeto morto,
à beira de abismos —
escolhendo olhar para baixo
na tentativa de avistar alguma beleza
perdida nos escombros
de brinquedos quebrados.

(Brenda GG – i-xxvi)