Monólogo das Mãos que Controlam

Posted in Sem categoria on 13 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

As mãos não falam,
Mas ordenam.
Elas moldam destinos,
Sem pedir permissão.
Mãos escrevem contratos,
E apertam gargantas.
Assinam acordos,
E selam condenações.
Há mãos que acolhem,
Outras que retêm.
Mãos distribuem poder,
E recolhem liberdades.
O controle começa no toque,
Na posse do gesto.
Quem segura decide,
Quem solta perde.
Mãos constroem muros,
E fecham portas.
Também levantam pontes,
Quando convém.
O domínio reside nos dedos,
Na precisão do comando.
Mãos contam recursos,
Medem forças,
Calculam riscos.
O controle é manual,
Direto,
Frio.
Mãos treinadas não tremem.
Executam,
Administram,
Punem.
As mãos determinam limites,
Do corpo,
Do espaço,
E da vontade.

Mas as mãos não pensam sozinhas.
Recebem ordens invisíveis.
Repetem gestos aprendidos,
Chamam de hábito o que é doutrina.

Há mãos que herdam privilégios,
Antes mesmo do nome.
Outras aprendem cedo
O peso de pedir.

Mãos não discutem ética,
Executam protocolos.
O erro raramente é delas,
A culpa sempre encontra outro dono.

Quando lavadas, parecem limpas.
Quando cruzadas, fingem neutralidade.
Quando apontam, desviam o foco.

O mundo não gira —
É girado.
Por mãos que apertam alavancas,
Enquanto outras contam os danos.

O silêncio também é manual.
Constrói-se dedo a dedo,
Arquivo por arquivo,
Carimbo após carimbo.

E quando tudo cai,
Quando a estrutura falha,
As mãos se afastam.
Nunca estiveram ali.

Restam as marcas:
No pulso,
Na memória,
Na história.

Porque as mãos não falam.
Mas deixam tudo dito.

(Betto Gasparetto – vii-mcmxcvii)

Monólogo: O Poder da Palavra

Posted in Sem categoria on 12 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A palavra nasce antes do gesto.
E sobrevive depois do silêncio.
Ela não pede licença ao tempo,
Nem repousa na boca por acaso.
A palavra escolhe quem fere,
E também quem cura.
Uma sílaba pode erguer cidades,
Outra pode incendiá-las.
Reis tombaram por frases breves.
Povos caminharam por promessas.
A palavra não sangra,
Mas faz sangrar.
Não empunha lâmina,
Mas corta destinos.
Ela se infiltra nos ouvidos,
E constrói morada na alma.
Quando dita com verdade,
Sustenta o mundo.
Quando lançada com ódio,
Envenena gerações.
A palavra cria nomes,
E ao nomear, domina.
Tudo o que existe primeiro foi dito,
Mesmo o que jamais existiu.
O amor nasce pronunciado.
O medo também.
Há palavras que libertam grilhões,
Outras que os reforçam.


Um discurso pode ser abrigo,
Ou sentença.
Não há neutralidade no verbo.
Toda palavra escolhe lado.
Quem fala assume peso.
Quem escuta assume risco.
A palavra ensina a lembrar,
E obriga a esquecer.
Há palavras que salvam uma noite,
Outras que condenam uma vida.
Elas não envelhecem,
Apenas mudam de boca.
A palavra atravessa séculos,
Disfarçada de conselho,
De ordem,
De oração.
Quem domina a palavra,
Não precisa gritar,
Pois o eco trabalha por ele.
A palavra retorna sempre,
Mesmo quando negada.
Ela persegue consciências,
Assombra decisões,
Sustenta impérios invisíveis,
Derruba máscaras,
Revela intenções,
Cala covardias,
E desmascara mentiras.
A palavra jamais é inocente.

(Betto Gasparetto – viii-mcmxcvii)

Monólogo: Até as Sombras Choram

Posted in Sem categoria on 11 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há noites em que a luz desiste
E as sombras assumem o mundo
Elas crescem nas paredes
E aprendem a sentir
Sombras guardam memórias
Que os corpos rejeitam
Elas escutam tudo
Quando o silêncio domina
Até as sombras choram
Sem lágrimas
Mas com peso
O chão sente
As paredes absorvem
Sombras não mentem
Apenas refletem
O que foi esquecido
Elas se alongam
Quando a dor aumenta
Encolhem
Quando a esperança ameaça voltar
Há sombras que imploram
Outras acusam
Todas testemunham
O que ninguém confessa
Sombras conhecem segredos
Que a luz teme revelar
Elas vivem do resto
Do gesto incompleto
Da palavra engolida
Quando o amor parte
A sombra permanece
Quando o ódio grita
A sombra escuta
Sombras não escolhem lados
Mas sofrem as consequências
Até as sombras choram
Quando o humano falha
Quando o tempo pesa
Quando o perdão não vem
Elas tremem
Ao toque da culpa
E se espalham
Para não desaparecer
Sombras sabem
Que a luz é breve
E que o escuro
Sempre retorna
Por isso choram
Em silêncio disciplinado
Sem plateia
Sem absolvição
Sombras não pedem redenção
Apenas suportam
E guardam
Tudo o que caiu
Do coração dos homens

(Betto Gasparetto – viii-mcmxcvii)

Monólogo: Interlúdio Entre Amor e Ódio

Posted in Sem categoria on 10 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Entre o amor e o ódio há um intervalo.
Um espaço estreito onde o coração vacila.
Não é terra firme nem abismo.
É travessia.
Ali o afeto treme
E a raiva aprende a esperar.
O amor não parte inteiro,
O ódio não chega completo
Ambos respiram o mesmo ar.
E disputam o mesmo pulso.
Nesse intervalo mora a dúvida
Que beija e fere
Que acolhe e empurra
O amor lembra o que foi
O ódio anuncia o que pode ser
Nenhum deles dorme
Ambos vigiam
O amor implora permanência
O ódio exige ruptura
Mas no interlúdio
Eles se reconhecem,
Como espelhos deformados,
O amor sangra em silêncio,
O ódio grita para esconder a dor,
Entre um e outro.
O tempo suspende o juízo,
O coração hesita.
E nessa hesitação
Nasce o gesto mais humano
Perdoar
Ou ferir com consciência
O interlúdio não escolhe
Apenas expõe
Ali o amor aprende limites
E o ódio revela saudade
Nada é puro nesse espaço.
Nada é definitivo.
O amor se arma de cautela,
O ódio se veste de razão.
E o ser caminha,
Com ambos nos bolsos.
Sabendo que um passo errado,
Pode transformar carinho em cinza.
Ou devolver à raiva,
O rosto da ternura.
Entre amor e ódio,
O interlúdio governa…

(Betto Gasparetto – iii-mcmxcvii)

TUDO O QUE EU PRECISO É DE UM POUCO DE PAZ

Posted in Sem categoria on 9 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Tardo clama o peito em lida escura
Um mundo em guerra assedia o coração
De tanto peso nasce a noite impura
Onde a razão sangra sem redenção

Olhai: nem ouro acalma tal tormento

Quando a alma implora simples claridade
Um sopro basta ao frágil pensamento
E em silêncio encontre dignidade

Eu nada peço aos tronos nem à glória
Universos ruem longe do meu cais

Por entre ruínas busco a calma breve
Recanto humano onde o tempo cesse
Em paz repousa o ser que já não deve
Culpa ao passado que jamais esquece
Interno abrigo contra a voz do medo
Sem o clamor que a vida nos refaz
Onde o existir não seja mais degredo

Eis meu clamor, sem lâmina ou furor:

Desmanchei todo o silêncio em nós,

E acabei criando uma redoma!

Um instante só, liberto de voraz

Mesmo que o mundo arda em desrazão

Pouco me basta: um pacto com a luz
Os dias curvam-se à respiração
Um fio de sol que o ser conduz
Calma que ensina a resistir em vão
Onde a esperança, enfim, produz

Da eternidade não reclamo nada
Exijo apenas cessar a dor fugaz

Porque viver já é cruz demasiado
Ao homem que pensa, sente e cai
Zela-me o tempo: paz — só isso eu faço

(Betto Gasparetto – i-mcmxcvii)