Monólogo de uma Voz Que Mora no Espelho do Silêncio

Posted in Sem categoria on 8 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há no espelho uma voz que se recorda,
Não é minha — é o eco do que fui.
Ela fala baixo, pede-me que acorde,
E o reflexo devolve o que destrói.
Não há culpa: há memória e aprendizado,
E o olhar, mais manso, busca o essencial.
A noite é mestra, o corpo, aliado,
E o coração respira sem igual.
A voz no espelho ensina o que é sereno:
Aceitar-se é o amor mais pleno.

Falo com ela como se falasse
A um velho amigo, sábio e discreto.
Ela responde em luz, sem que me abrace,
Mas cada frase é toque indireto.
“Perdoa-te” — diz — “pelos descuidos,
Pelos excessos de querer o certo.
O amor é feito também de ruídos,
E o erro faz do caminho um deserto.”
Escuto, atento, e sinto em meu semblante
Que o perdão é abraço constante.

O espelho, cúmplice, não censura,
Apenas mostra o tempo e sua lida.
Cada ruga é lembrança e é ternura,
Cada traço é trilha refletida.
A noite entende o rito dessa fala,
E o ar se faz discípulo da calma.
O amor humano é casa que não cala,
É templo simples dentro da alma.
E o reflexo, entre o claro e o escuro,
Ensina a ser gentil com o futuro.

As sombras passam lentas pela parede,
E o espelho vibra em tom de serenata.
Eu o encaro, e ele cede e cede,
Transforma o medo em ponte delicada.
Vejo ao fundo rostos de outros tempos,
Gente que amei e ainda me habita.
O amor se estende, vivo em sentimentos,
E o coração, sereno, não limita.
A voz retorna e sussurra outra vez:
“Amar é errar com lucidez.”

Deixo o reflexo falar o que deseja,
Sem resistência, sem me explicar.
O silêncio é quem rege e enseja
Que o humano aprenda o verbo cuidar.
As palavras se dissolvem como neve,
E o quarto se ilumina em humildade.
A voz do espelho, agora mais leve,
Canta: “amar é pura liberdade.”
Eu sorrio, e o vidro se embaça,
Como se o próprio tempo me abraçasse.

A madrugada abre portas de ouro,
E o ar respira o cheiro da confissão.
A voz diz: “segue, o amor é tesouro
Que só se dá quando é doação.”
Eu me inclino e agradeço em silêncio,
Com olhos brandos e peito limpo.
O reflexo sorri, denso e imenso,
E o medo deixa de ser labirinto.
A noite entende e guarda a lição:
O amor é perdão em expansão.

Apago a luz, o espelho ainda brilha,
Como um farol discreto no horizonte.
E a voz se apaga, mas vigia, filha
Do que em mim deseja ser mais ponte.
Deixo o quarto e fecho a porta lenta,
Como quem encerra uma oração.
No corredor, o chão já se apresenta,
E o coração caminha em redenção.
O silêncio fala, a alma se refaz,
E o humano aprende a paz que traz.

Penso em ti — e a lembrança é ternura,
Não mais tormento, mas compreensão.
O espelho guarda, fiel, minha figura,
E nela mora a nossa união.
Pois quem se ama aprende a amar o mundo,
E quem se perdoa ensina a fé.
O amor humano é simples e profundo,
Não tem dogma, tem o que é.
A noite termina com rosto em lume:
Sou eu — completo, inteiro, costume.

Quando o sol nascer, o espelho dorme,
Mas deixará gravada a sua voz.
Ela dirá: “sê justo, sê conforme,
Ama o outro, mas ama o que é vós.”
E o dia abrirá suas cortinas brancas,
Com cheiro de café e de renovo.
A alma, limpa, em paz e franca,
Começará de novo, sempre novo.
E o amor, no espelho e em mim, reflete:
A vida é quem perdoa e repete.

(Betto Gasparetto- iii-mmxiii)

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Posted in Sem categoria on 7 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

Monólogo ao Livro que Dorme na Mesa Noturna

Posted in Sem categoria on 7 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O quarto respira o lume da lembrança,
E o livro dorme aberto sobre a mesa.
Há uma rosa seca em paz e esperança,
E o ar conserva a mesma sutileza.
Tua letra vive em cada margem,
E o papel guarda o cheiro da tua ausência.
A página suspira em linguagem,
Que mistura silêncio e paciência.
Não leio mais o texto: o texto é vida,
E nele encontro a minha despedida.

A noite, cúmplice, vela o manuscrito,
E o vento folheia sem ruído.
Cada palavra brilha, e no infinito
Reescreve o amor não esquecido.
A mesa guarda o peso do caderno,
E o tempo, ali, parece se deter.
O verbo amar, discreto e sem moderno,
Permanece verbo de entender.
Leio o teu nome e ouço o coração:
É som de fé, ternura e condição.

O livro não ensina, apenas mostra
O que o humano ousa preservar.
As páginas são tábuas, são respostas,
São gestos que aprenderam a escutar.
O amor que ali dorme é paciente,
Não quer glória, tampouco redenção.
É pão partido em mesa consequente,
É disciplina e é revelação.
E a noite, vendo a chama que persiste,
Assina o prólogo de tudo o que existe.

O texto fala sobre convivência,
Sobre o milagre simples do perdão.
Sobre o silêncio feito de presença,
E o riso como forma de oração.
Cada linha é costura, é tentativa
De entender o amor que não se mede.
E o coração, em paz e em narrativa,
Descansa em cada vírgula que pede.
O livro ensina, sem jamais doutrinar:
Amar é verbo, é verbo de cuidar.

Há manchas de café, há mãos antigas,
Há notas de rodapé escritas às pressas.
Há frases cortadas pelas fadigas,
E margens que registram nossas promessas.
Tudo é humano, simples, imperfeito,
E por isso mesmo essencial.
O livro guarda o que é mais direito:
A leveza do que é natural.
E o som do vento, entre as cortinas,
Lê cada página com mãos divinas.

A madrugada chega, atenta e pura,
E o abajur derrama luz discreta.
Na penumbra, a sombra é criatura
Que observa o amor, fiel esteta.
Folheio mais um pouco, e reconheço
Teu rosto desenhado em devaneio.
E o tempo, ao ver, desacelera o preço
De cada erro, de cada meio.
Fecho o livro e beijo o teu escrito:
A noite guarda o gesto mais bonito.

E quando o sol tocar o parapeito,
A mesa ainda será altar e história.
O livro dormirá, pleno e perfeito,
Como memória viva da memória.
E se o dia vier pedir lição,
Darei o livro em prova de ternura.
Porque o amor não cabe em pregação,
Mas em silêncio, tempo e compostura.
Deixo a mesa e a rosa, em seu lugar:
A fé é ler e continuar amar.

No fim, o quarto volta ao seu sossego,
O chão respira, o vidro se debruça.
E a brisa, como um toque em nosso ego,
Sussurra o que a lembrança traduz.
O livro dorme, e nele dorme a gente,
Como capítulos que se entrelaçam.
E o dia, entrando, lê docilmente
As notas que o destino nos repassa.
O amor não tem final, só intervalo:
Cada leitura é novo amparo.

Guardo o livro, e guardo em mim teu nome,
Como um prefácio que jamais termina.
E o som do vento em mim ressoa e some,
Deixando o peito em calma feminina.
Se o mundo pede um texto que explique,
Respondo: “não, o amor não se ensina.”
O livro dorme — e o coração edifica.
A noite é paz, e o verbo se ilumina.
E o leitor, quando por fim acordar,
Verá que amar é sempre recomeçar.

(Betto Gasparetto- xii-mmxiii)

Monólogo do Amor Noturno

Posted in Sem categoria on 6 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A noite acende o quarto em azul contido,
E o vidro aprende o mapa do teu traço.
Meu nome volta em brisa, comovido,
E a casa abre o rumor do teu abraço.
No abajur, lenta, a luz respira calma,
Enquanto a rua esquece a própria pressa.
Teu rosto é códice que a memória salva,
E o coração traduz sem que confessa.
No livro escuro, escrevo mansamente
O rito humano do cuidado ardente.

A noite é concha, escuta o não-dito,
E o corpo fala éticas de amparo.
O gesto simples torna-se infinito,
Quando a ternura se assume raro.
Eu te prometo o pão do estar presente,
O copo d’água, a manta, a paciência.
E o verbo amar, discreto e consequente,
Faz-se conduta, escolha, consciência.
Nada de altar: só mesa e mão estendidas,
Para ligar nossa dor às nossas vidas.

A janela vê sombras e confidências,
Relógios mudos, passos no ladrilho.
O coração elabora suas ciências,
E remenda o que o dia fez em trilho.
Não somos santos: somos persistência,
Que aprende a ouvir antes de responder.
No breu, o afeto encontra a justa essência:
Cuidar é verbo, não é parecer.
Falo baixinho ao eco dos teus medos,
E aceito em mim teus vícios, teus segredos.

A noite escreve códigos nos móveis,
E o lençol dobra o susto dos cansaços.
Eu te recobro em gestos simples, nobres,
Que devolvem ao mundo novos passos.
Se a culpa vier tarde e te apertar,
Eu serei chão, farol, clareza exata.
E se o passado insistir em voltar,
Minha escuta o desfaz, minha alma o trata.
O amor, noturno, evita os grandes gritos:
Prefere o lume claro dos escritos.

No teto, o breu derrama constelações,
Desenho nelas rotas de retorno.
Teu riso custa às vezes mil perdões,
Mas paga a luz de cada novo outono.
É noite, sim, porém a noite ensina
Que o humano é ponte sobre o precipício.
Que o toque certo cura e reencaminha,
E o erro vira parte do exercício.
Eu guardo em ti o que o dia não guardou,
E a dor se rende ao colo que ficou.

A casa toda aprende a ser mais mansa,
O chão suspira em tábuas de madeira.
A vida, aqui, é lenta e tem esperança,
Bebe do poço azul de tua beira.
Teu rosto inclina o eixo do universo,
E o quarto vira oásis do cansaço.
No silêncio, preparo o meu converso,
Sem acusar, sem ângulo de aço.
O amor noturno é pacto de verdade,
Que salva o agora em sua integridade.

Se a solidão bater pedindo entrada,
Eu ofereço a ela uma cadeira.
Explico, humilde, a nossa caminhada,
E peço que ela sente à cabeceira.
Pois aprender com sombras faz sereno,
E restitui a luz quando amanhece.
Não nego a dor, mas torno o seu veneno
Um antídoto que a vida agradece.
A noite, etérea, assina com canções
O manual dos nossos corações.

E quando o medo morder tua memória,
Eu serei ponte sobre a água fria.
Direi que a culpa é só metade da história,
E que o perdão é a outra metade, dia.
Teu rosto, então, repousa em minha fala,
E a pele aprende o verbo do descanso.
A noite, enfim, se dobra em luz que embala,
E o mundo dorme em pulso lento e manso.
No teu silêncio, escrevo o meu respeito,
E o amor vigia inteiro sobre o peito.

A madrugada abre alas ao horizonte,
E beija a borda pálida da janela.
No parapeito, o sonho é como fonte,
Que verte humana água limpa e bela.
Eu te prometo a ética do abraço,
Que não pergunta antes de acolher.
E quando o dia erguer de novo o laço,
Seremos nós o modo de viver.
Eis meu evangelho simples e terreno:
Noite e memória: amar — nosso terreno.

E se o relógio chamar para a rua,
Eu vou contigo até onde pudermos.
Que a noite guarde a lição clara e nua:
Cuidar é o nome dos que nos quisermos.
Nos teus cabelos pousa o meu jurar,
Nos meus silêncios vive o teu amparo.
O amor que aprende à noite a escutar
Torna o futuro lúcido e mais raro.
E ao nascer do sol, saberemos ambos:
O humano é luz que acende nos abraços.

(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)

Monólogo sobre o Tratado da Memória e do Perdão

Posted in Sem categoria on 5 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A noite inclina a face no batente,
E o corredor conversa com a sombra.
Eu passo os olhos pela tua frente,
E o tempo, manso, desampara a alfombra.
Memória é lâmpada que não se apaga,
Mas muda o tom conforme a compaixão.
Eu te proponho a mesa que não nega:
Pão da verdade e taça do perdão.
Sem ritos, sem discursos, sem vitrina:
Só o cuidado em sua pauta fina.

Primeiro, nomear aquilo que dói,
Sem transformar em pedra ou em sentença.
Depois, tocar devagarinho, e só,
Até que a dor aceite a nossa presença.
O resto é ética de mão aberta,
Que aprende a ouvir e a não vencer.
Vencer é cândida palavra incerta;
Melhor que ela é “junto” e “pertencer”.
No escuro doce, a casa vai dizendo
Que o humano é barro que está aprendendo.

No aparador, retratos se ajeitam,
E os olhos velhos brilham no verniz.
A vida é soma lenta dos que aceitam
Ser menos certos para ser feliz.
Eu te confesso as minhas imperfeições,
E a noite acolhe tudo sem ruído.
Descanso em ti as velhas contradições,
E devolves-me um afeto estendido.
O perdão nasce, simples, sem fanfarra,
Como uma luz que o coração desgarra.

A memória pede ordem e brandura,
Quer que escolhamos o que fica vivo.
Nem tudo é ouro; há restos, há ferrugem,
Mas há também cuidado decisivo.
Eu salvo as tardes, salvo teus abraços,
Salvo os silêncios bons, o chá de sempre.
E a dor, que foi muralha e embaraço,
Vira degrau de um elo que não treme.
No quadro-negro azul do pensamento,
Escrevo: “Amor é justo movimento.”

Se um erro antigo pede a minha face,
Eu dou a face, e junto, o entendimento.
Não para ser herói, mas para que passe
A velha febre do ressentimento.
E quando tua voz tremer pedindo alívio,
Eu serei cais ao fim do teu cansaço.
Pois perdoar é dom sem proselitismo:
É prática mansa, humana e sem aço.
A noite aplaude, as tábuas fazem coro,
E a culpa cede, abrindo novo foro.

O corredor conhece teus segredos,
Os móveis sabem por que estás calada.
Eu não insisto em atalhos ou degredos,
Eu fico aqui: presença demorada.
No abajur, âmbar, a sombra dança,
E cada passo é aula de escutar.
O perdão cresce em ti como esperança,
E em mim se torna hábito de amar.
Memória e noite escrevem, lado a lado,
A ética simples do cuidado dado.

Eu te recordo em horas de ternura,
Quando a cidade apaga sua pressa.
A madrugada afina a partitura,
E a pele sente a paz que não tropeça.
O som da rua é brando e não invade,
O teto guarda estrelas por instinto.
E o coração, cansado de alarde,
Agradece o lume do labirinto.
A noite, então, transforma o que era agrura
Em chão que aceita a nossa criatura.

Se o mundo exige provas e balanços,
Aqui não cabe o cálculo severo.
Aqui cabem respiros e remansos,
E o compromisso ético e sincero.
Perdão não apaga, não encobre as marcas,
Mas torna cada marca inteligível.
E a memória, que antes tinha farpas,
Vira madeira lisa e disponível.
Eu te proponho o pacto mais discreto:
Fazer do humano um porto predileto.

No fim, a noite inclina sua fronte,
E indica o rumo claro do horizonte.
O quarto guarda a fábula da ponte,
Que vai de eu e tu para o horizonte.
Teu rosto enfim repousa em mim, confiante,
E o ar aprende o tom do repousar.
Se a lágrima vier, que seja amante,
Regando a flor que sabe perdoar.
E o livro azul da casa escreve, então:
“Memória e amor fazem revolução.”

Quando o primeiro raio toca o vidro,
O dia lê o que a noite escreveu.
Eu te prometo: sigo ao teu abrigo,
E o mundo em nós aprende o que sou eu.
Se o erro voltar, que volte humano,
Para que o bem o ensine a caminhar.
O nosso trato é claro, cotidiano:
Cuidar, cuidar, cuidar e respeitar.
Fecho a janela e beijo a tua mão:
Começa agora a nossa absolvição.

(Betto Gasparetto- xi-mmxiii)