Há sociedades que não se sustentam pela violência explícita, mas pela encenação constante. Não é preciso proibir quando se pode distrair; não é necessário calar quando se pode confundir. O poder contemporâneo prefere o verniz ao confronto, o slogan à verdade, a aprovação pública ao debate real.
Estes sonetos atravessam esse território onde a aparência tornou-se método de governo. A praça exibe bustos de virtude enquanto negocia bastidores; o muro invisível separa mais do que qualquer concreto; o ouro polido recebe reverência enquanto a fome é traduzida em estatística aceitável. Não se trata apenas de política institucional — trata-se de um hábito cultural que naturaliza a encenação.
Arendt observou que o mal pode operar com normalidade burocrática. Orwell alertou para a manipulação da linguagem como ferramenta de domínio. Galeano mostrou como o mercado aprende a esquecer aquilo que o constrange. Aqui, essas intuições reaparecem não como citação erudita, mas como inquietação viva.
O homem ajustado, o eleitor seduzido, o consumidor distraído, o poeta que insiste em nomear — todos participam da mesma arena. O conflito não é apenas externo: é íntimo. Cada máscara retirada exige responsabilidade.
Se há algo que une estes poemas, é a recusa em aceitar o espetáculo como destino inevitável. A palavra surge não como ornamento, mas como instrumento de desvelamento. Nomear é retirar o disfarce. Recordar é contrariar o esquecimento conveniente. Perguntar é interromper o roteiro.
Não há ingenuidade aqui. Há consciência de que a encenação é sedutora, confortável e lucrativa. Mas há também a certeza de que nenhuma máscara é eterna.
E enquanto houver quem escreva contra o disfarce, a república das aparências não será absoluta.
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I – República das Máscaras
“O poder prefere a aparência à verdade.” (Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)
Na praça erguem bustos de virtude, polidos rostos sem fissura ou dor; mas sob o bronze vive o rumor de pactos feitos em quietude.
Chamam “ordem” à velha servitude, “bem comum” ao lucro maior; e o cidadão, pequeno ator, aplaude a própria inquietude.
Máscaras reinam na claridade, cada qual vende a sua versão como se fosse eternidade.
Eu rasgo o pano da encenação: prefiro a frágil sinceridade à glória oca da aprovação.
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II – Elegia ao Muro Invisível
“Minha identidade é o que me negam.” (Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)
Entre ruas sem nome e sem retrato, ergue-se um muro de opinião; não é de pedra, mas de negação, de olhares que recusam contato.
Chamam “medo” ao preconceito exato, “prudência” à segregação; mas cada rosto pede chão e cada passo exige trato.
O muro cai quando alguém escuta, quando o nome encontra o seu lugar, quando a história não é disputada.
Se o mundo insiste na conduta de excluir para governar, eu ergo o verso como enxada.
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III – Sermão Contra o Ouro Polido
“O colonialismo começa na mente.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)
No templo erguido ao lucro e à taxa, pregam fé no mercado invisível; a fome é dado estatístico plausível, e a dívida vira marcha.
Chamam “civilização” à farsa, “progresso” ao grilhão previsível; mas o povo, em murmúrio audível, prepara a ruptura que não disfarça.
Não é sagrado o ouro polido, nem eterno o trono que o sustém; a história cobra o que foi omitido.
E quando o grito disser “amém” não será hino do oprimido, mas juízo contra o desdém.
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IV – O Homem e o Absurdo Eleitoral
“A revolta dá dignidade.” (Inspirado emAlbert Camus – França/Argélia)
Prometem céu em urna lacrada, distribuem esperança impressa; mas a palavra muda depressa quando a cadeira é conquistada.
Chamam “povo” à massa cansada, “mudança” à mesma promessa; a revolta, se se expressa, é tida por desvairada.
Mas há dignidade na recusa, no “não” que rompe o protocolo, na crítica que não se desculpa.
Se o voto vira dolo, a consciência recusa ser cúmplice do rolo.
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V – Litania para um Nome Esquecido
“Se você não contar sua história, outro contará por você.”(Inspirado em Toni Morrison – EUA)
No bairro antigo, sob luz incerta, um nome cai no chão da memória; ninguém registra a breve história, ninguém reabre a porta aberta.
Chamam “caso” à vida deserta, “trágico” ao fato sem glória; mas a palavra, feita vitória, ressurge quando alguém desperta.
Escrevo o nome em pedra clara, não para culto ou altar, mas para que a cidade o encare.
Se o mundo insiste em apagar, o poema insiste e repara: lembrar é resistir ao calar.
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VI – Confissão do Homem Ajustado
“A má-fé é fugir da liberdade.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)
Disse que não era comigo, que o mundo gira e eu apenas sigo; mas no espelho, rosto antigo, vi meu silêncio como abrigo.
Chamei prudência ao medo amigo, chamei “real” ao gesto ambíguo; mas a consciência — aço antigo — cortou-me o pacto vago e frio.
Ajustar-se é fácil conforto, mas custa a espinha do querer; cala-se a alma no porto.
Hoje escolho responder: prefiro o risco torto à paz de não me mover.
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VII – Crônica do Mundo que Se Vende
“O sistema é especialista em esquecer.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)
Vendem a chuva em garrafa fina, o ar em lata, o sonho em série; a infância vira estatística etérea, e a guerra rende oficina.
Chamam “negócio” à fome menina, “dado” ao pranto que fere; mas a memória, quando interfere, desmonta a farsa que domina.
Quem compra o mundo perde o chão, quem vende a alma perde o nome; há preço alto na transação.
E quando o lucro consome, descobre-se tarde a lição: nem tudo se compra ou se some.
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VIII – A Casa que o Corpo Habita
“A identidade é construção e combate.” (Inspirado em Sylvia Plath – EUA)
No quarto estreito da própria pele, escuto vozes que me definem; mas minhas veias se autodeterminam contra o rótulo que me repele.
Chamam “desvio” ao que não convém, “normal” ao molde repetido; mas meu corpo, lúcido e erguido, recusa o padrão que o contém.
Habito a casa que me invento, não a que me deram pronta; sou gesto, falha e movimento.
Se a norma me afronta, respondo com pensamento: ser é luta que não desmonta.
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IX – Salmo para um Século Cansado
“O poeta é a consciência inquieta.” (Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)
Século exausto de brilho falso, de guerras breves e longas telas; a verdade, entre janelas, perde o lugar no palco.
Chamam “avanço” ao passo em falso, “rede” às novas correntes paralelas; mas há ainda vozes singelas que recusam o gesto encalço.
O poeta não é santo ou herói, é aquele que nomeia a dor quando o discurso a corrói.
Se o tempo exige temor, ele escreve e constrói uma ética em fervor.
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X – A Palavra Contra o Mundo
“A leveza é uma forma de precisão.” (Inspirado em Italo Calvino – Itália)
Quando o ruído cobre a cidade, resta a palavra como lâmina; não para ferir, mas para a trama de outra possível claridade.
Chamam “utopia” à liberdade, “ingênuo” ao gesto que reclama; mas cada verso que se inflama abre fissura na opacidade.
Não é espada, é semente; não é grito, é consciência; não é fuga, é presente.
Se o mundo insiste na aparência, a poesia, persistente, ergue o ser contra a indiferença.
Há violências que não exigem gritos. Basta uma sala cheia, palmas sincronizadas e a convicção de que tudo segue “como deve ser”.
Estes poemas não nascem da indignação teatral. Nascem da observação do cotidiano: o gesto burocrático que apaga um rosto, a palavra que suaviza o confinamento, a notícia que reduz um corpo a número, a liberdade convertida em vitrine parcelada, o medo rebatizado como prudência.
O que inquieta aqui não é o excesso de brutalidade explícita, mas a administração eficiente da injustiça. O mal contemporâneo raramente se apresenta como fúria; ele prefere o expediente regular, a justificativa técnica, a estatística organizada. Ele se legitima pelo aplauso — e o aplauso pode ser tão decisivo quanto a ordem.
Quando a violência é normalizada, ela deixa de parecer violência. Quando a linguagem muda, o fato também muda de nome. O confinamento vira segurança. A censura vira zelo. A desigualdade vira mérito. A indiferença vira neutralidade.
Esses sonetos recusam essa tradução confortável.
Não pretendem oferecer heroísmo. Também não prometem pureza moral. O foco é outro: revelar a engrenagem. Mostrar como a conveniência educa o corpo, como a memória resiste ao apagamento, como a palavra pode interromper o fluxo automático da obediência.
O poema, aqui, não é ornamento — é contraponto.
Enquanto houver quem transforme o sofrimento em gráfico, será preciso devolver o nome ao número. Enquanto houver quem aplauda para não se comprometer, será necessário escrever.
Não para salvar o mundo — mas para não participar do coro.
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I – A Banalidade do Aplauso
“O mal pode ser terrivelmente comum.”(Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)
Na sala cheia, palmas disciplinam o gesto exato do homem correto; ninguém pergunta ao rito obsoleto por que as engrenagens assassinam.
Chamam “ordem” ao medo que ensinam, “dever” ao silêncio mais discreto; e o erro, de terno e voto secreto, sorri enquanto as vozes declinam.
O mal não ruge — cumpre expediente, bate o ponto, carimba o destino, aplaude a própria culpa obediente.
E eu escrevo, contra o hino que absolve o gesto indiferente: pensar é o único desatino.
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II – Fronteira de Pó e Oliva
“Escrevo para que a terra não me esqueça.”(Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)
Na linha seca entre pedra e vento, um nome resiste ao mapa rasgado; o soldado guarda o campo cercado, mas a raiz insiste no cimento.
Chamam “segurança” ao confinamento, “paz” ao muro armado; e o trigo, sob o céu sitiado, aprende a crescer em silêncio lento.
A pátria é mais que cerca e bandeira, é voz que atravessa a fronteira como água sob a areia.
Se o mundo fecha a cancela, o poema abre a clareira: ninguém exila uma ideia.
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III – Inventário da Cor Silenciada
“Minha boca será a boca das desgraças.”(Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)
Catalogaram a pele em gavetas, mediram o tom com régua moral; chamaram “exótico” o que é vital, e “raça” ao medo de suas metas.
Ergueram tronos sobre algemas discretas, e à história deram verniz colonial; mas a memória, vulcão ancestral, arde sob as páginas quietas.
Não sou cifra em arquivo alheio, nem figurante no drama do império; sou a voz que recusa o freio.
Se o mundo insiste no critério, eu escrevo — negro e inteiro — contra o silêncio do cemitério.
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IV – O Estrangeiro em Plena Praça
“O absurdo é a claridade do mundo.”(Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)
No centro exato da cidade clara, sinto-me alheio ao próprio chão; a praça vibra em exaltação, mas o sentido me escapa e dispara.
Chamam “verdade” à voz que declara certezas prontas na multidão; eu busco o sol na contradição que o absurdo íntimo me prepara.
Se nada salva, salvo o gesto lúcido; se tudo é ruído, escolho o silêncio; se a lei é máscara, fico intrépido.
Viver é resistir ao consenso: na praça plena, permaneço único, estrangeiro ao falso incenso.
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V – Manual para Esquecer um Corpo
“A memória é resistência.”(Inspirado em Toni Morrison – EUA)
Enterram o corpo com notícia breve, três linhas frias e foto menor; a cidade segue seu rumor, o lucro cresce, a dor não se escreve.
Chamam “fatalidade” ao que não deve, “estatística” ao sangue em flor; mas a memória — semente e ardor — rompe o asfalto onde a verdade ferve.
Não esquecerei o nome calado, nem a rua que viu o disparo; não deixarei o rosto apagado.
Se o mundo prefere o avaro, eu guardo o gesto lembrado: memória é justiça em preparo.
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VI – A Liberdade em Regime de Vitrine
“O homem está condenado a ser livre.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)
Vendemos a liberdade em parcelas, com juros brandos e selo oficial; o medo vira hábito social, e a escolha se faz entre janelas.
Chamam “opção” às mesmas querelas, “autonomia” ao script digital; mas o ser, inquieto e visceral, recusa o molde das sentinelas.
Livre é quem assume o peso do ato, não quem repete o gesto esperado sob o aplauso do contrato.
E se o mundo exige lado, eu escolho o risco exato: ser livre é ser responsabilizado.
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VII – Crônica do Mundo ao Avesso
“Somos feitos de histórias.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)
No mercado, vendem sonhos usados, com desconto para quem não sonha; a guerra vira tela risonha, e os mortos, dados já somados.
Chamam “crise” aos salários cortados, “ordem” à rua medonha; a verdade, tímida e tristonha, vive nos cantos ignorados.
Mas há histórias sob a poeira, há vozes pequenas que sustentam o peso da noite inteira.
E quando elas se levantam, o império treme na cadeira: a narrativa é arma que enfrentam.
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VIII – A Casa Dentro da Tempestade
“A mente é seu próprio lugar.”(Inspirado em Sylvia Plath – EUA)
Na casa estreita da própria mente, a chuva bate com voz severa; mas a janela, ainda que impera a noite, guarda luz persistente.
Chamam “fraqueza” ao peito ardente, “histeria” à dor sincera; mas o pensamento não se encerra na etiqueta conveniente.
Resisto à norma que me nomeia, recuso o rótulo fácil e estreito; minha verdade não se enleia.
Se a tempestade insiste no peito, eu escrevo — e a palavra semeia uma casa mais firme que o preconceito.
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IX – Voz Clandestina
“A tentação é ajustar-se.”(Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)
Aprendem cedo a dobrar a espinha, a concordar com o poder sentado; chamam “prudência” ao medo calado, e “virtude” à consciência mesquinha.
A verdade vira voz clandestina, o grito é vício mal tolerado; mas há no íntimo um fado que não aceita disciplina.
Ser conveniente é fácil caminho, mas cobra a alma como tributo; paga-se caro pelo vizinho.
Eu escolho o verso absoluto: prefiro o risco sozinho à paz comprada por luto.
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X – A Cidade Transparente
“A leveza é resistência.”(Inspirado em Italo Calvino – Itália)
A cidade ergue torres de vidro, promete céu em condomínio fechado; mas o chão, cansado e pisado, sussurra verdades sob o ruído.
Chamam “progresso” ao brilho polido, “futuro” ao passado reciclado; e o homem, em aço moldado, perde o rosto no próprio espelho líquido.
Quero leveza contra o peso bruto, quero ar nas ruas comprimidas, quero espaço no concreto astuto.
Se a torre vigia nossas vidas, eu ergo o verso, agudo e enxuto: transparência é romper as medidas.
Há uma etiqueta ensinada cedo demais: sorrir enquanto se ignora, concordar enquanto se teme, prosperar sem perguntar quem ficou para trás. Estes sonetos surgem contra essa etiqueta. Não como sermão, mas como fricção. O que está em jogo aqui não é apenas a desigualdade evidente — é a coreografia elegante que a torna aceitável.
Em cada poema, a cena é conhecida: a miséria tratada como inconveniência estética; a cidadania reduzida a protocolo; a política convertida em espetáculo; o amor submetido à vitrine moral; a vida humana transformada em gráfico. O escândalo não é a violência explícita — é a sua administração polida. A pobreza aprende a ser discreta; o privilégio aprende a parecer natural.
Se Brecht desconfiava da moral que chega antes do pão, é porque o discurso frequentemente serve para disciplinar os que têm fome. Se Orwell alertava para a manipulação das palavras, é porque a troca de termos altera a percepção da realidade. Se Arendt analisou a banalização do mal, é porque a omissão organizada pode ser tão destrutiva quanto a brutalidade declarada. E se Bauman descreveu a fragilidade das relações contemporâneas, foi para mostrar como o descarte tornou-se método — inclusive nas relações humanas.
Aqui, a crítica não aponta apenas para instituições; ela atravessa o indivíduo comum — o cidadão exemplar que atravessa a rua para não ver, o espectador que aplaude o escândalo do dia enquanto esquece o de ontem, o consumidor que confunde liberdade com escolha de prateleira. O problema não é apenas estrutural: é cultural. É a normalização da indiferença.
Estes textos recusam a decoração do sofrimento. Não romantizam o excluído nem demonizam em caricatura o poderoso. Preferem expor o mecanismo: a linguagem que suaviza a exclusão, o espetáculo que substitui o debate, a moral que vigia o íntimo enquanto absolve o abuso público.
Se existe alguma aposta nestes poemas, ela não está na indignação efêmera, mas na permanência da pergunta. Perguntar quem lucra, quem cala, quem decide, quem desaparece. Perguntar é romper o roteiro previamente ensaiado.
Escrever, aqui, é não colaborar com o silêncio conveniente.
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I – Manual de Boas Maneiras para a Miséria
“Primeiro vem o pão, depois a moral.” (Inspirado em Bertolt Brecht – Alemanha)
Vendam-me um sonho em prestações suaves, com brinde e selo “promoção do bem”; a fome assina embaixo, e não convém que a rua manche os ternos mais graves.
Nos salões, as virtudes são escravas: sorri-se em prata, a lágrima é refém; quem pede um prato ouve: “culpa de alguém”, e o lucro segue, santo, pelas naves.
Chamam “ordem” ao cerco do pobre; chamam “mérito” ao berço de veludo; e a lei, de toga, ao fraco sempre cobra.
Eu rio — riso amargo, quase mudo: a etiqueta perdoa o que encobre, mas não perdoa o pão fora de estudo.
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II – Elegia ao País das Aparências
“A máscara é a verdade mais usada.” (Inspirado em Federico García Lorca – Espanha)
Na vitrine, a cidade se perfuma, finge harmonia, vende luz e paz; mas sob o asfalto a febre se refaz e a noite engole a última pluma.
O povo aprende a respirar espuma: aplaude o golpe, chama-o de “capaz”; o medo vira moda, e satisfaz quem troca a alma por qualquer suma.
E eu, poeta, no beco, desconfio: o belo aqui é só verniz exato; a fome tem o mesmo tom do frio.
Quem mede o mundo pelo próprio prato não vê que a praça é palco e desafio: sorri-se em público, chora-se no ato.
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III – Caderno de Instruções para Ser Invisível
“Falar é existir.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)
Aprendi o silêncio como ofício: ser pouco, ser ninguém, ser só perfil; ser sombra útil, número civil, sem voz que desagrade ao edifício.
Chamam “progresso” ao velho precipício; chamam “paz” ao porrete juvenil; e a tela — tribunal volátil — absolve o forte e vende sacrifício.
Mas há na língua um fogo subterrâneo, um “não” que nasce quando a dor ferve; um nome antigo que rasga o calendário.
Eu ergo a voz — e o muro não me serve: prefiro o risco ao selo cotidiano; ser invisível é morrer em breve.
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IV – Balada Cínica do Bom Cidadão
“O melhor carece de convicção.” (Inspirado em W. B. Yeats – Irlanda)
Sou “bom cidadão”: pago a minha pressa, finjo não ver o corpo no chão; assino a culpa na própria mão e digo: “é triste”, enquanto atravessa.
Na fila, a alma aprende a ser promessa, a esperar o milagre do balcão; o pobre pede pão, recebe “não”, e o rico chama isso de “progresso” à mesa.
Que cinismo gentil o da cidade: ela condena o grito, ama o ruído; chama “barbárie” a lucidez.
E eu, cúmplice, sei do meu sentido: a neutralidade é vaidade — uma virtude feita de vazio.
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V – Contrato Social de Vidro Fino
“Não se nasce livre: torna-se.” (Inspirado em Simone de Beauvoir – França)
Assinei com o mundo um papel brilhante: “serás exemplo, dócil, regular”; se te ferires, aprende a disfarçar, sorrir na queda, agradecer ao instante.
Chamam “amor” ao controle elegante; chamam “família” ao medo de mudar; e o corpo, que queria respirar, vira vitrine de um juiz constante.
Eu rasgo o molde: não por heroísmo, mas por fadiga de ser figurino; prefiro a verdade ao aplauso manso.
E se me chamam “fria”, “sem destino”, respondo: é só higiene do cinismo — liberdade exige um passo e um cansaço.
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VI – República do Aplauso e do Esquecimento
“Ser culto é o único modo de ser livre.” (Inspirado em José Martí – Cuba)
Na praça, vendem pátria em embalagem, com hino curto e desconto no final; o povo vira coro eleitoral e a fome assina a própria sabotagem.
A cada crise, um show, uma passagem; a cada escândalo, um moral viral; o tirano sorri, sentimental, e a lei cochila, amiga da vantagem.
Mas há um livro aberto no subsolo, há uma escola teimosa em cada esquina, há uma criança que pergunta: “por quê?”
Se a pergunta resiste ao caramelo, o império treme — e a máscara termina: um povo acorda quando aprende a ler.
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VII – A Parábola do Homem que Virou Estatística
“Até o leão precisa do contador de histórias.” (Inspirado em Chinua Achebe – Nigéria)
Morreu um homem — e foi só planilha: célula fria num gráfico sem cor; o noticiário deu-lhe um “favor”, um número curto, e seguiu a trilha.
A rua cheira a metal e armadilha, a fábrica mastiga o trabalhador; e a fé do mercado, sem pudor, diz: “é o preço”, e ergue outra rodilha.
Quem conta a história devolve o rosto, repara o nome, resgata o passado; sem narrativa, a vida é só imposto.
Eu escrevo: contra o cálculo dourado, contra o esquecimento bem composto — pois cada morto exige ser lembrado.
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VIII – Ministério da Verdade Cotidiana
“Quem controla o passado controla o futuro.” (Inspirado em George Orwell – Reino Unido)
A tela me vigia com ternura, sugere o medo em forma de canção; eu clico, concordo, dou permissão à jaula doce da vida segura.
Mudam palavras, muda-se a postura: “guerra é paz”, “miséria é ascensão”; e a dúvida — pecado — vira razão para cortar a língua da criatura.
Mas há um gesto antigo: desconfiar; há um lápis que resiste ao algoritmo; há uma janela aberta no pensar.
Eu rio do slogan, do culto mínimo: quem chama “livre” o próprio colecionar já vendeu a alma ao seu próprio ritmo.
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IX – O Amor em Tempos de Vitrine Moral
“O erotismo é a outra face da liberdade.” (Inspirado em Octavio Paz – México)
Amar aqui é cumprir protocolo: postar sorriso, etiquetar afeto; o beijo vira anúncio, e o coração discreto tem medo de parecer “fora do bolo”.
A cidade cobra pureza em alto dolo, mas negocia o desejo em modo secreto; ela condena o corpo no panfleto, e o vende à noite, em silêncio e rolo.
Eu te amo sem vitrine nem aplauso, com o risco de ser mal interpretado; amor não é uniforme, é incêndio manso.
E se a moral nos julga pelo mercado, respondo: o gesto íntimo é o meu espaço — onde o mundo não entra algemado.
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X – Pequeno Elogio da Contradição
“Somos a soma de acasos organizados.” (Inspirado em Wisława Szymborska – Polônia)
A vida prega peças com elegância: num dia, lei; no outro, improviso; o certo muda o nome no aviso, e o erro usa gravata de importância.
O rico chama “sorte” à herança; o pobre chama “crime” ao próprio piso; e o meio termo, em seu sorriso, vende prudência e compra ignorância.
Eu celebro o humano — esse intervalo entre o que somos e o que prometemos; a contradição é nosso espelho.
Se o mundo exige um rosto sem abalos, prefiro o risco: ao menos assumimos que até a verdade tem seu joelho.