Arquivo para setembro, 2026

Sete Passos sem Direção

Posted in Coleção - Poemas on 25 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Elegia daqueles que caminham sem saber se regressarão!

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

PASSO I — QUANDO DEIXEI A PORTA ABERTA

Parti quando a aurora ainda dormia,
sem coragem de acordar meu próprio lar.
Deixei a porta entreaberta, como quem promete
que antes do anoitecer haverá de regressar.
Beijei-te a fronte sem dizer palavra,
pois despedidas sabem o futuro anunciar.
Levei comigo teu perfume nos meus dedos
e aquela vontade absurda de ficar.
Atrás de mim ficaram nossas pequenas coisas,
a mesa, os livros, o fogo e teu olhar.
E dei meu primeiro passo para a guerra,
quando tudo em mim suplicava para voltar.

PASSO II — A CHUVA

Depois veio a chuva sobre os homens,
lavando o rosto, mas jamais o coração.
Marchávamos como sombras condenadas,
cada qual carregando a própria solidão.
A lama devorava nossas botas,
o frio fazia da carne uma prisão.
Mas eu guardava junto ao peito tua lembrança,
como um mendigo guarda sua última oração.
E quando o céu rugia sobre nossas cabeças,
eu pronunciava teu nome em devoção:
pois há amores que, mesmo sob a guerra,
permanecem intactos na destruição.

PASSO III — O BRINQUEDO NA LAMA

Então encontrei um pequeno brinquedo,
abandonado entre a água e o chão.
Não tinha sangue, voz, bandeira ou pátria;
tinha apenas a forma triste da recordação.
Quem o abraçou antes que o mundo enlouquecesse?
Que pequena mão lhe concedeu afeição?
Parei — e naquele pobre objeto
vi toda a vergonha de nossa geração.
Pois quando a guerra alcança os brinquedos,
já não existe glória em qualquer vitória.
Há somente uma infância interrompida
pedindo ao mundo que lhe devolva a história.

PASSO IV — A CARTA QUE NÃO ESCREVI

Quis escrever-te naquela noite fria:
“Meu amor, talvez eu não possa regressar.”
Mas como dizer àquela que me espera
que seu amanhã talvez não vá chegar?
Escrevi teu nome — e a mão me tremeu;
a chuva fez a tinta se espalhar.
Parecia que até as próprias letras
recusavam-se a aprender como acabar.
Então guardei o papel ainda vazio:
certos adeuses não devemos pronunciar.
Enquanto uma palavra permanecer por escrever,
há uma esperança secreta de voltar.

PASSO V — OS QUE FICARAM PELO CAMINHO

Éramos muitos quando tudo começou;
hoje evito contar quem ainda vem atrás.
Alguns deixaram sonhos sobre a estrada;
outros encontraram um silêncio sem jamais.
Cada ausência marcha ao nosso lado,
como um companheiro que a morte não desfaz.
Aprendi que os mortos têm passos silenciosos
e caminham na memória dos demais.
Não desejo vingança pelos que partiram;
desejo apenas aquilo que não tiveram mais:
uma porta aberta, uma mesa, um abraço,
e o direito simples de envelhecer em paz.

PASSO VI — O HOMEM QUE JÁ NÃO CONHEÇO

Vi meu rosto refletido numa poça
e perguntei: “Quem és tu que olhas para mim?”
Havia nos meus olhos tantas noites
que já não reconheci quem fui no princípio.
Onde está o homem que beijou aquela mulher?
Onde o rapaz que acreditava no porvir?
Talvez tenha ficado junto àquela porta,
esperando o corpo que partiu sem realmente partir.
Ó guerra, podes tomar-me os anos,
mas uma coisa jamais te permitirei destruir:
a lembrança daquela que ainda amo
e a esperança de novamente lhe sorrir.

PASSO VII — SEM DIREÇÃO

Dou agora o sétimo passo na lama
e já não sei se avanço ou se retorno.
À frente há fumaça; atrás, lembranças;
dentro de mim, teu nome feito porto.
Se amanhã meus pés encontrarem nossa estrada,
correrei para teus braços como outrora;
não quero medalhas, glórias ou monumentos,
quero apenas chegar vivo à nossa porta.
E se meus passos cessarem neste caminho,
não chores eternamente minha ausência, meu amor:
planta uma flor onde deixei minhas pegadas
e deixa que ela diga aquilo que não pude dizer.
Pois talvez o homem perdido não seja aquele sem caminho,
mas aquele que já não possui alguém por quem voltar.

(Betto Gasparetto – 1997)

Sete Lágrimas da Paz

Posted in Coleção - Poemas on 24 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Sete lágrimas por aqueles que jamais deveriam conhecer a guerra…

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

LÁGRIMA I — QUANDO O CÉU DEIXOU DE SER CÉU

Ontem havia pássaros onde hoje descem homens,
e o céu era somente o reino azul da infância.
Hoje até as nuvens carregam o medo,
e cada vento traz o rumor da distância.
Ó guerra, que fizeste de meus jardins?
Quem te deu licença para entrar em minha casa?
Eu era pequeno demais para conhecer a morte,
mas ela aprendeu meu nome antes que eu aprendesse o dela.
Minha mãe dizia: “Não temas a noite, meu filho”;
mas não me ensinou a não temer o dia.
Pois foi sob o Sol que o mundo desabou,
e minha infância envelheceu numa única manhã.

LÁGRIMA II — O RETRATO

Seguro entre as mãos o que restou de nós:
um pequeno retrato ferido pelo pó.
Aqui minha mãe ainda sorri eternamente;
aqui meu pai jamais pronunciou adeus.
Que estranho poder possui uma fotografia:
faz viver quem meus braços não alcançam.
Beijo seus rostos quando ninguém me vê
e pergunto ao papel se ainda se lembram de mim.
Ó retrato, não envelheças como envelhece o mundo!
Guarda-lhes os olhos, o sorriso e a ternura.
Se minha memória um dia fraquejar de dor,
sê tu a casa para onde meu coração possa voltar.

LÁGRIMA III — A ROSA ENTRE AS PEDRAS

Encontrei uma rosa entre as ruínas,
vermelha como o coração que ainda resiste.
Como ousas florescer, pequena criatura,
onde até as paredes desaprenderam a existir?
Talvez Deus tenha esquecido uma semente
para recordar aos homens aquilo que destruíram.
Eu te darei a pouca água que me resta;
tu me darás a coragem que me falta.
Cresce, rosa — ainda que entre pedras;
abre tuas pétalas contra toda desesperança.
Enquanto houver uma flor sobre a terra,
a guerra jamais poderá declarar-se eterna.

LÁGRIMA IV — MEU PEQUENO COMPANHEIRO

Quando todos partiram, tu permaneceste.
Não perguntaste quem venceu nem quem perdeu.
Deitaste apenas teu corpo junto ao meu
como se teu calor pudesse reconstruir nossa casa.
Ó pequeno amigo, que sabes tu das guerras?
Talvez saibas mais que reis e generais:
que nenhuma bandeira vale uma criança,
e nenhuma vitória consola uma casa vazia.
Quando choro, encostas tua cabeça em meus joelhos;
quando tremes, abraço-te como fazia minha mãe.
Somos dois pequenos sobreviventes do mundo,
dividindo entre nós o pouco amor que ainda restou.

LÁGRIMA V — OS HOMENS QUE VOLTAM

Vejo homens caminhando entre a poeira,
e outros descendo do céu que já temi.
Não sei os nomes escritos em seus uniformes,
nem compreendo as razões que os trouxeram aqui.
Só sei que homens carregam nas próprias mãos
o poder de ferir — e também o de salvar.
Se vierdes até mim, não me tragam vingança;
tragam pão, silêncio e braços para amparar.
Não quero saber quem conquistou estas pedras:
quero saber quem reconstruirá minha escola.
Grande não é aquele que domina a terra,
mas aquele que devolve uma criança ao seu lar.

LÁGRIMA VI — SE MINHA MÃE VOLTASSE

Se minha mãe surgisse agora entre as ruínas,
eu não lhe pediria brinquedos nem presentes.
Correria descalço sobre todas estas pedras
somente para esconder meu rosto em seu vestido.
Dir-lhe-ia que fui valente — embora tenha chorado;
que guardei nosso retrato contra o peito.
Meu pai talvez viesse caminhando atrás dela,
e outra vez o mundo teria portas e janelas.
Ah, esperança, não zombes de uma criança!
Deixa-me sonhar somente esta noite.
Pois às vezes um sonho é a última morada
daqueles a quem a realidade tomou tudo.

LÁGRIMA VII — A PAZ

Se algum dia perguntarem o que desejo,
não me ofereçam ouro, coroas ou glória.
Deem-me uma manhã sem estrondos no horizonte,
uma mesa, minha família e nenhuma vitória.
Quero ouvir novamente pássaros no céu
sem perguntar se alguma coisa cairá dele.
Quero plantar esta rosa diante de minha casa
e vê-la envelhecer muito depois de mim.
Que os homens aprendam, enfim, esta verdade:
nenhum triunfo merece as lágrimas de uma criança.
E se o mundo ainda possuir um coração,
que a última lágrima derramada seja a primeira lágrima da Paz.

(Betto Gasparetto – 1997)

Sete Pétalas e Um Beijo Eterno

Posted in Coleção - Poemas on 23 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Poema em sete movimentos de amor, desejo e saudade

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

PÉTALA I — O PRIMEIRO OLHAR

Vi-te quando o mundo ainda era primavera,
e o Sol, por inveja, ocultou-se em teu olhar.
Meu coração, que livre se julgara,
fez-se teu servo antes de te tocar.
Não houve juramento, altar ou testemunha;
somente dois silêncios aprendendo a desejar.
E desde então carrego em minha alma
a doce condenação de sempre te amar.

PÉTALA II — O ESPELHO DO DESEJO

Agora habitas o cristal que nos separa,
tão perto de meus olhos, tão distante de minha mão.
Estendo os dedos — e o frio me responde;
chamo teu nome — e responde o coração.
Ó espelho cruel, concede-me um instante:
quebra-te e deixa meu amado regressar!
Pois vale mais um beijo e depois a morte
que uma existência inteira sem o poder tocar.

PÉTALA III — AS PÉROLAS DA SAUDADE

Guardei nossas lembranças como pérolas,
uma para cada noite em que chorei.
Algumas nasceram doces de teus beijos;
outras, das lágrimas que jamais te revelei.
Se um dia voltares, adornarei teu peito
com tudo aquilo que em silêncio conservei.
E saberás que mesmo abandonada,
em nenhum amanhecer te abandonei.

PÉTALA IV — A AMPULHETA

Cai, areia! Cai, cruel mensageira!
Conta os instantes que me afastam de meu bem.
Mas sabe, Tempo: embora roubes minha juventude,
não tomarás o amor que minha alma contém.
Transforma meus cabelos em prata, se desejares,
faz desta carne o pó de que ela vem;
quando meu último segundo abandonar-me,
meu coração ainda pronunciará: meu bem.

PÉTALA V — A ROSA IMPOSSÍVEL

Planto esta rosa sobre pedras sem esperança,
onde nenhum sábio ousaria semear.
Se ela florescer, saberei que ainda existe
algum caminho para o amor nos reencontrar.
Cada espinho guardará uma de minhas dores;
cada pétala, um desejo de te beijar.
E se sete pétalas nascerem nesta haste,
sete eternidades hei de te esperar.

PÉTALA VI — AS AVES DA LIBERDADE

Ide, pequenas aves, atravessai os céus!
Buscai aquele a quem meu peito chama senhor.
Dizei-lhe que nenhuma distância foi bastante
para transformar em cinzas nosso amor.
Trazei de volta ao menos uma palavra,
um pensamento, uma lembrança, uma flor;
pois quem verdadeiramente amou uma única vez
carrega para sempre a glória e a dor.

PÉTALA VII — O BEIJO ETERNO

E quando enfim se romper o velho espelho
e o Tempo, derrotado, deixar de nos ferir,
não quero tronos, pérolas ou paraísos,
somente teus braços quando eu partir.
Beija-me então como quem vence a própria morte,
como quem faz a eternidade consentir;
e se sete pétalas caírem sobre nós,
que a última guarde o beijo que nem a morte há de extinguir.

(Betto Gasparetto – 1997)

Lágrimas de Dor

Posted in Coleção - Poemas on 22 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O céu cinzento anuncia o desalento,
E em minha face jaz o sofrimento.
As nuvens choram lágrimas de dor,
E em seu lamento cala-se o amor.

O raio corta a noite em seu lamento,
E em mim declina o lume do momento.
Não há retorno ao brilho da manhã,
Só resta a sombra fria e desumana.

O céu declara o fim da antiga luz,
E em seu silêncio todo o sonho reduz.
Assim me entrego ao vento derradeiro,

Que leva a vida em sopro traiçoeiro.
O céu cinzento sela o meu destino,
E nele jaz o fado mais divino.

(Betto Gasparetto – 1994)

Rascunhos Cotidianos – 010

Posted in Sem categoria on 21 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

O Que o Tempo não Apaga

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Costuma-se dizer que “o tempo é o melhor remédio”. Na prática, o tempo sozinho não resolve todos os problemas. Algumas dores precisam de decisões, conversas ou mudanças.

O que os anos podem fazer é colocar distância entre nós e aquilo que aconteceu. A lembrança continua, mas deixa de ocupar todos os espaços.

Certas experiências não desaparecem. Apenas encontram um lugar menos doloroso dentro da nossa história.

Quando já não precisamos perguntar

Algumas respostas chegam sem uma frase definitiva. Percebemos que conseguimos continuar, que determinada situação já não possui a mesma força ou que aquela pergunta perdeu importância.

O passado permanece como parte da nossa vida, mas deixa de exigir explicações todos os dias.

Às vezes, essa é a resposta que o tempo oferece: não explicar exatamente por que tudo aconteceu, mas mostrar que conseguimos seguir mesmo sem compreender tudo.

(Betto Gasparetto – 2010-2015)

Nota de inspiração

Reflexão autoral inspirada em temas universais presentes na tradição filosófica sobre o tempo, a aceitação e os limites da compreensão humana, com aproximações ao estoicismo de Sêneca e Marco Aurélio. Texto integralmente original.