Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 1 – Cap 7/7)

Posted in Sem categoria on 29 de abril de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio I — A Casa Que Observa

Obra musical: Piano Sonata No. 14 “Moonlight”Ludwig van Beethoven


(Betto Gasparetto)

Capítulo 7 — O Primeiro Segredo Insinuado

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A madrugada não avançava — aprofundava-se.
Como se cada hora não fosse passagem, mas descida.

Depois do silêncio abrupto que encerrara as vozes nas paredes, a casa permanecera imóvel demais.
Um tipo de quietude que não era repouso, mas contenção.

Como se algo tivesse sido interrompido…
antes de terminar de se revelar.

No quarto dos hóspedes, Émile Laurent não voltara a deitar.
Permaneceu junto à janela, os braços cruzados, os olhos perdidos na escuridão do jardim.

Mas não observava o exterior.
Observava o que havia dentro de si.

Memórias que não vinham como lembrança — mas como sensação.

Um corredor.
Uma voz.
Um nome.

Não completo.
Nunca completo.

Ele apertou levemente os dedos contra o próprio braço, como se pudesse conter o avanço dessas imagens.

— Não… — murmurou.

Mas não era negação.
Era reconhecimento atrasado.


Na cama, Amélie permanecia desperta.

Não se movia.
Mas também não descansava.

Seus olhos estavam abertos, fixos no teto, como se ainda escutassem algo que já não estava ali.

— Você não terminou — disse, baixinho.

O quarto não respondeu.

Mas a menina não parecia esperar resposta.

— Eles não deixam — acrescentou.

Virou o rosto lentamente em direção à parede.

— Mas eu escutei.


No andar superior, Sophie von Eichenwald caminhava descalça pelo quarto.

Seu caderno estava aberto sobre a mesa.
A página, preenchida com escrita apressada, quase ilegível.

Ela parou diante dele.

Leu em silêncio.

“Não é a casa que guarda o segredo.
É o segredo que mantém a casa.”

Sophie fechou os olhos por um instante.

— Então por que ninguém fala? — sussurrou.

A resposta não veio.

Mas o ambiente ao redor pareceu reagir.

Como se a pergunta tivesse sido registrada.


No corredor principal, Helena Dubois permanecia imóvel diante da escada.

As chaves em sua mão já não produziam som algum.

Seu olhar estava fixo no andar superior.

Como se aguardasse.

Ou temesse.

— Não era para acontecer assim — disse, com voz controlada.

Mas o controle já não era absoluto.

Ela subiu.

Degrau por degrau.

Sem hesitação.
Sem pausa.

Como alguém que finalmente aceita que não pode mais evitar.


No aposento isolado, a porta estava fechada.

Mas não completamente silenciosa.

Havia ali um leve deslocamento de ar.

Um movimento interno.

Helena aproximou-se.

Encostou a mão na madeira.

— Senhora…

Dessa vez, houve resposta.

Não uma voz clara.
Mas um som.

Um sopro.

Um reconhecimento.

Helena fechou os olhos.

— Eles começaram a ouvir.

O silêncio que se seguiu não foi surpresa.

Foi confirmação.


No andar inferior, Lukas von Eichenwald caminhava sozinho pelo salão.

Não havia vela suficiente para iluminar todo o espaço.

Partes da sala permaneciam mergulhadas em sombra completa.

Ele parou diante de um dos retratos descobertos.

Observou o rosto pintado.

Por muito tempo.

— Quem é você? — perguntou.

A pergunta não era retórica.

Era necessidade.

O rosto não respondeu.

Mas o ambiente… mudou.

Lukas sentiu.

Um leve deslocamento atrás de si.

Virou-se rapidamente.

Nada.

Mas o nada já não era neutro.


No quarto de Lucia, o silêncio ainda pesava.

Ela não havia dormido.

Sentada na cama, mantinha os olhos fixos na porta.

Esperando.

Sem saber o quê.

Então…

um som.

Não do corredor.

Mas da parede lateral.

Lucia congelou.

O som repetiu-se.

Mais claro.

Mais próximo.

Como se alguém estivesse do outro lado.

Mas não em um quarto.

Em um espaço… inexistente.

— Tem alguém aí? — perguntou, com voz trêmula.

Silêncio.

Depois…

um leve toque.

Três vezes.

Preciso.

Deliberado.

Lucia levou a mão à boca.

Não gritou.

Não se moveu.

Porque, naquele instante, compreendeu algo que não podia aceitar:

A casa não estava cheia de quartos.

Estava cheia de espaços que não deveriam existir.


No jardim, a forma entre as árvores avançou mais um passo.

Agora, mais próxima da casa.

Ainda indistinta.

Mas inevitável.


No quarto, Amélie sentou-se novamente na cama.

Olhou para a porta.

Depois para a parede.

E então… falou.

— Eles vão abrir.

A frase não era dúvida.

Nem previsão.

Era constatação.


No corredor superior, Helena recuou da porta isolada.

Seu rosto já não era o mesmo.

Havia ali algo que antes não se permitia existir.

— Não podemos mais conter — disse.

Ninguém respondeu.

Mas algo, dentro da casa, pareceu concordar.


O relógio marcou a hora.

Uma.
Duas.
Três batidas.

Mas dessa vez…

não foi o único som.


Muito leve.
Quase imperceptível.

Uma fechadura girou.

Em algum lugar da casa.

Que não estava no mapa.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 2

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 1 – Cap 6/7)

Posted in Sem categoria on 28 de abril de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio I — A Casa Que Observa

Obra musical: Piano Sonata No. 14 “Moonlight”Ludwig van Beethoven


(Betto Gasparetto)

Capítulo 6 — Vozes Atrás das Paredes

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A casa não dormia.
Apenas diminuía o movimento visível, como um corpo que, mesmo imóvel, continua a trabalhar em silêncio.

Havia horas em que o som parecia nascer das próprias paredes.
Não como eco, mas como origem.

No corredor do andar intermediário, o ar tornara-se mais espesso.
O tipo de densidade que não se explica pela arquitetura, mas pela memória acumulada.

Émile Laurent caminhava com cautela.
Cada passo seu, era precedido por escuta.
Cada decisão, por hesitação consciente.

Ele não procurava um lugar específico.
Procurava um ponto de coerência.

Algo que explicasse o que já não podia ser ignorado.

Parou diante de uma parede lateral.

Ali…

o som era diferente.

Não vinha do corredor.
Nem de algum aposento próximo.

Vinha… de dentro.

Não como voz clara.
Mas como fragmento.

Um ritmo irregular.
Uma intenção incompleta.

Émile aproximou o ouvido.

Silêncio.

Afastou-se um pouco.

O som voltou.

Mais nítido.

Não palavras.

Mas algo próximo a elas.

Como se alguém falasse em outro tempo, e apenas parte daquilo atravessasse até o presente.

Ele apoiou a mão na madeira.

A superfície estava fria.

Mas não inerte.

Havia uma leve vibração.

— Não é possível… — murmurou.

Mas já não era uma questão de possibilidade.

Era de presença.


No andar superior, Sophie von Eichenwald não voltara a dormir.

Sentada à beira da cama, o caderno fechado sobre o colo, ela mantinha o olhar fixo na parede à sua frente.

Também ali…

o som.

Mais fraco.
Mais distante.

Mas perceptível.

Ela levantou-se lentamente.

Aproximou-se.

Encostou a mão.

Fechou os olhos.

— Eu sei que você não quer desaparecer — disse, em voz baixa.

A resposta veio.

Não como voz.

Mas como alteração no ar.

Como se algo tivesse escutado.

Sophie abriu os olhos.

— Então não se esconda.

O silêncio voltou.

Mas não como antes.

Agora… atento.


No quarto de hóspedes, Amélie permanecia acordada.

Seu olhar não se movia.

Estava fixo em um ponto da parede, logo acima da cabeceira da cama.

Ali, o som era mais claro.

Mais próximo.

Como se não atravessasse a parede.

Mas nascesse dela.

A menina ergueu-se lentamente.

Aproximou-se.

Encostou a testa na madeira.

— Você está preso — disse.

O som cessou por um instante.

Depois voltou.

Mais urgente.

Mais… desesperado.

Amélie recuou um passo.

— Eu não posso abrir — disse.

Seus olhos não demonstravam medo.

Mas havia algo novo ali.

Reconhecimento.


No salão inferior, Helena Dubois já não permanecia imóvel.

Caminhava.

Uma vez.

Outra.

Sempre pelo mesmo trajeto.

Como se repetisse um gesto aprendido há muito tempo.

O molho de chaves em sua mão produzia um som irregular.

Diferente de antes.

Menos controlado.

Ela parou diante da parede principal do salão.

Ali também.

O som.

Mais profundo.

Mais… antigo.

Helena fechou os olhos.

— Não agora — disse, novamente.

Mas desta vez…

não havia certeza na voz.


No aposento superior, atrás da porta que raramente era aberta, um leve movimento ocorreu.

Clara von Eichenwald abriu os olhos.

Lentamente.

Como se retornasse de um lugar distante.

Sua respiração era leve.
Mas irregular.

Ela não se levantou.

Mas voltou o rosto em direção à parede.

— Eles ouviram — murmurou.

A voz era fraca.

Mas lúcida.

— Está tarde demais…

Seus olhos permaneceram abertos.

Pela primeira vez em muito tempo… conscientes.


No corredor, Émile afastou-se da parede.

O som continuava.

Agora mais distribuído.

Como se percorresse a casa inteira.

Ele olhou ao redor.

Nada visível.

Mas tudo alterado.

— Quem está aí? — perguntou, sem elevar a voz.

O silêncio respondeu.

Mas não como negação.

Como recusa.


No jardim, o vento havia cessado completamente.

As árvores permaneciam imóveis.

Como testemunhas.

A forma entre os troncos já não se movia.

Mas também não desaparecera.

Apenas… aguardava.


Dentro da casa, o som intensificou-se por alguns segundos.

Depois…

cessou.

De forma abrupta.

Total.

Como se algo tivesse decidido parar.

Ou sido interrompido.


O relógio marcou a hora.

Uma batida.

Duas.

Três.

O eco percorreu os corredores.

Mas agora…

sem resposta.


Helena abriu os olhos.

Seu rosto havia mudado.

Não completamente.

Mas o suficiente.

— Eles começaram a escutar… — disse, em voz baixa.


No quarto, Amélie voltou para a cama.

Deitou-se.

Mas continuou olhando para a parede.

— Eu ouvi — sussurrou.

E, pela primeira vez naquela noite…

não houve resposta alguma.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 7

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 1 – Cap 5/7)

Posted in Sem categoria on 27 de abril de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio I — A Casa Que Observa

Obra musical: Piano Sonata No. 14 “Moonlight”Ludwig van Beethoven


(Betto Gasparetto)

Capítulo 5 — A Menina que Observa

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A noite avançara sem pressa, como se desejasse ocupar cada fresta da casa antes de permitir qualquer descanso.
O silêncio não era uniforme.
Havia pontos onde ele se adensava, outros onde parecia pulsar, como um organismo vivo que se reorganizava na escuridão.

No aposento dos hóspedes, Amélie permanecia acordada.
Sentada à beira da cama, os pés suspensos, ela não parecia cansada.
Seus olhos percorriam o quarto com atenção serena, como quem escuta mais do que vê.

A luz da vela projetava sombras instáveis nas paredes.
Mas, para Amélie, não eram apenas sombras.

Eram presenças.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Você está aí… — murmurou, quase como quem não deseja ser ouvida.

Nenhuma resposta.

Mas o silêncio não negava.

A porta do quarto permanecia fechada.
Ainda assim, a menina voltou o olhar para ela com insistência.

— Não pode entrar — disse, em tom baixo.

Houve um leve som do outro lado.

Não insistência.
Não violência.

Apenas permanência.

Amélie deslizou da cama com cuidado.
Seus pés tocaram o chão frio sem hesitação.

Caminhou até o centro do quarto.

Parou.

Girou lentamente, como se tentasse alinhar algo invisível ao espaço.

Então olhou para a janela.

A cortina movia-se levemente.
Mas não havia vento suficiente para aquilo.

Ela se aproximou.
Afastou o tecido com delicadeza.

O jardim estendia-se na escuridão, irregular, profundo, silencioso demais.

Mas não vazio.

Havia movimento.

Distante.

Entre as árvores.

Uma forma.

Não nítida.
Mas presente.

Amélie não recuou.

— Você também não pode entrar — disse, agora voltada para fora.

A forma não se aproximou.
Mas também não desapareceu.

Era como se aguardasse.

A menina fechou a cortina novamente.

Voltou-se para o interior do quarto.

E então percebeu algo que antes não estava ali.

No canto oposto, próximo ao armário, a sombra era mais densa.

Mais… definida.

Ela não caminhou até lá.

Apenas observou.

— Você já estava aqui antes — disse, com simplicidade.

O silêncio respondeu com peso.


No corredor, Émile Laurent permanecia imóvel junto à parede.

Ele havia saído do quarto poucos minutos antes, incapaz de ignorar os sons que se repetiam em intervalos irregulares.

Não eram passos comuns.
Nem rangidos naturais.

Havia intenção neles.

Ele caminhou lentamente, atento a cada detalhe.

As paredes pareciam absorver sua presença.
O ar, mais denso, tornava cada respiração consciente.

Ao se aproximar da porta do quarto de Amélie, parou.

Encostou a mão na madeira.

Fria.

Mas não imóvel.

Havia uma vibração sutil.

Como se algo, do outro lado, não estivesse completamente separado dali.

Ele hesitou.

Não entrou.

Mas também não se afastou.


No andar superior, Sophie von Eichenwald escrevia.

Seu caderno, aberto sobre a mesa, recebia palavras que ela não relia.

Escrevia rápido.
Como quem registra algo antes que desapareça.

“Ela escuta.
Ele sabe.
A casa lembra.”

Sophie parou.

Olhou para a porta do quarto.

— Quem mais? — sussurrou.

Nenhuma resposta.

Mas sua mão continuou escrevendo.

“Não estamos sozinhos.”

Ela fechou o caderno abruptamente.

Respirou fundo.

E então percebeu.

A cadeira atrás dela não estava como antes.

Havia sido levemente deslocada.

Sophie não se virou.

Não imediatamente.

Porque sabia.

Virar-se significava confirmar.

E confirmar… era atravessar um limite.


No salão inferior, Helena Dubois permanecia de pé, junto à mesa já vazia.

A marca na cadeira não desaparecera.

Pelo contrário.

Parecia mais evidente.

Ela aproximou-se novamente.

Desta vez, não tocou.

Apenas observou.

— Não agora — disse, com firmeza contida.

O ar ao redor pareceu reagir.

Não visivelmente.
Mas sensivelmente.

Helena fechou os olhos por um instante.

— Ainda não.

Abriu-os.

E, pela primeira vez naquela noite, houve algo em seu olhar que não era controle.

Era preocupação.


No jardim, a forma entre as árvores deu um passo.

Depois outro.

Lento.

Como se cada movimento exigisse esforço.

Ou permissão.

A janela no alto da casa permanecia aberta.

Observando.

Esperando.


No quarto, Amélie voltou para a cama.

Deitou-se sem pressa.

Mas não fechou os olhos.

Continuou olhando para o teto.

— Você não precisa ter medo — disse.

A frase não era para si mesma.

Nem para o pai.

Era para aquilo que ainda não sabia se podia existir.

Ou se já existia há muito tempo.

O silêncio respondeu.

Mas agora…

menos vazio.


No corredor, Émile finalmente se afastou da porta.

Seus passos foram lentos, medidos.

Mas sua expressão já não era a mesma.

Ele não estava mais apenas observando.

Estava sendo observado.


E, naquela casa, ser observado…

era apenas o primeiro passo para ser lembrado.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 6

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 1 – Cap 4/7)

Posted in Sem categoria on 26 de abril de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio I — A Casa Que Observa

Obra musical: Piano Sonata No. 14 “Moonlight”Ludwig van Beethoven


(Betto Gasparetto)

Capítulo 4 — O Jantar de Porcelanas Frias

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O salão de jantar parecia conservar o eco da refeição, como se as palavras ali pronunciadas ainda circulassem entre as cadeiras vazias.
As velas continuavam acesas, embora ninguém mais estivesse sentado à mesa.
A luz tremia levemente, sem vento aparente, como se reagisse a algo invisível.

A porcelana permanecia intacta, alinhada com rigor.
Mas havia um frio sobre ela que não vinha da temperatura do ambiente.
Era um frio de interrupção.
De diálogo suspenso.

Helena Dubois entrou primeiro.
Seu olhar percorreu a mesa com precisão.
Nenhum detalhe escapava.
Nenhum gesto era casual.

— Recolham — disse, sem elevar a voz.

Os criados avançaram em silêncio.
Anika Petrov aproximou-se por último, suas mãos firmes retirando os pratos com cuidado quase reverente.

Ao tocar uma das taças, ela hesitou.

— Algo errado? — perguntou Helena, sem se virar.

— Não… senhora.

Mas havia.
Ela sentira.

Um leve calor onde tudo deveria estar frio.

Anika não comentou.
Levou a peça consigo.

Helena permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois caminhou até a cabeceira da mesa — o lugar de Alaric.

Passou os dedos sobre a madeira.
Como se buscasse ali um vestígio.

Não encontrou.
Mas também não se tranquilizou.


No corredor adjacente, Lukas von Eichenwald encostava-se à parede, os braços cruzados, o olhar perdido em direção ao salão.

Ele não havia retornado aos aposentos.
Não conseguira.

Havia algo no jantar que não se encerrara com o último prato.

Sophie aproximou-se em silêncio.
Seu caderno ainda estava em mãos.

— Você também sentiu — disse ela, sem perguntar.

Lukas não respondeu de imediato.

— Ele não veio apenas visitar — murmurou.

Sophie assentiu.

— Ninguém vem até aqui por acaso.

O silêncio entre os dois não era desconfortável.
Era compartilhado.

— E a menina? — perguntou Lukas.

Sophie fechou levemente o caderno.

— Ela não está vendo pela primeira vez.

Lukas voltou o olhar para a porta do salão.

— Nem ele.


Do outro lado da casa, Émile Laurent permanecia de pé junto à janela de seu aposento.

A escuridão do jardim não devolvia imagem alguma.
Apenas profundidade.

Amélie estava sentada na cama, os pés recolhidos, observando o pai.

— Você já esteve aqui — disse ela.

Não como pergunta.
Como constatação.

Émile fechou os olhos por um instante.

— Há lugares que nos reconhecem antes de nós mesmos — respondeu.

A menina inclinou a cabeça.

— A casa sabe quem você é.

Ele não negou.

— E você? — perguntou, voltando-se para ela.
— O que a casa sabe sobre você?

Amélie demorou alguns segundos.

— Que eu escuto.

O silêncio que se seguiu não foi leve.

Do corredor, um leve som atravessou a porta.

Não era passo.
Era algo arrastado.

Émile aproximou-se lentamente.
Encostou o ouvido na madeira.

Nada.

Mas o nada não era vazio.

Voltou-se para Amélie.

— Fique aqui.

Ela não respondeu.
Mas também não discordou.


No salão, agora quase vazio, apenas Helena permanecia.

A mesa havia sido recolhida.
As velas começavam a se consumir.

Ela caminhou até o centro do espaço.

Parou.

Algo estava errado.

Não visível.
Mas presente.

Seus olhos se voltaram para uma das cadeiras laterais.

Ali… havia uma leve marca no tecido.

Como se alguém tivesse se sentado.

Depois do jantar.

Helena aproximou-se.

Tocou o encosto.

Ainda havia calor.

Ela retirou a mão lentamente.

— Não… — murmurou, quase inaudível.

O relógio, ao longe, marcou a hora.

Uma.

Duas.

Três batidas.

O som percorreu o salão como um aviso.

Helena ergueu o olhar.

— Já começou…

A frase escapou antes que pudesse ser contida.


No corredor superior, uma porta fechada produziu um leve estalo.

Nenhum criado estava ali.
Nenhum morador deveria estar.

Ainda assim…

Algo se movia.


No aposento de Lucia, o silêncio pesava.

Ela permanecia sentada na cama, os olhos fixos na porta trancada.

Então ouviu.

Passos.

Lentos.
Arrastados.

Parando diante de sua porta.

O ar pareceu prender-se no peito.

A maçaneta girou levemente.

Sem sucesso.

Mas insistiu.

Uma vez.

Outra.

E então… cessou.

Lucia não se moveu.

Nem respirou.

Nem pensou.

Porque naquele instante compreendeu algo essencial:

Não era apenas ela que estava trancada ali dentro.


No jardim, o vento finalmente se levantou.

As árvores responderam com um murmúrio profundo.

E no alto da casa, uma das janelas — fechada desde muito antes daquela noite — abriu-se lentamente.

Sem mãos.

Sem ruído.

Como se a própria casa tivesse decidido…

respirar.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 5

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 1 – Cap 3/7)

Posted in Sem categoria on 25 de abril de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio I — A Casa Que Observa

Obra musical: Piano Sonata No. 14 “Moonlight”Ludwig van Beethoven


(Betto Gasparetto)

Capítulo 3 — A Governanta e as Chaves

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A casa, depois do jantar, não repousava.
Reorganizava-se.

Os passos diminuíam, as vozes cessavam, as portas fechavam-se com um cuidado que não era delicadeza — era contenção.
O silêncio que se instalava não era natural.
Era construído.

Helena Dubois percorreu o corredor principal com a regularidade de quem mede o mundo em distâncias exatas.
Cada passo seu correspondia a uma memória, a uma regra, a um limite.

Em sua mão direita, um pequeno molho de chaves produzia um som discreto, metálico, quase imperceptível.
Mas, naquela casa, até os menores sons possuíam peso.

Ela parou diante de uma das portas laterais.
Não era a maior.
Nem a mais visível.
Mas era uma das que importavam.

Passou os dedos sobre a fechadura.
Não abriu.

Apenas confirmou.

Atrás dela, o corredor permanecia vazio.
Mas Helena sabia — sempre soube — que vazio não significava ausência.

Seguiu adiante.

Ao dobrar o corredor que conduzia à ala dos hóspedes, encontrou Lucia Bianchi parada junto à parede, como se tentasse decidir se devia estar ali.

— Senhora… — disse a jovem, com voz baixa.

Helena não se surpreendeu.
Raramente se surpreendia.

— A senhorita ainda não recolheu-se?

— Eu… estava procurando meu aposento.

Helena a observou com atenção precisa.
Não era o tipo de olhar que julgava.
Era o tipo que classificava.

— Esta casa não se aprende caminhando sem direção — respondeu.

Lucia abaixou os olhos.
— Perdão.

Helena fez um leve gesto com a mão.

— Siga-me.

Caminharam juntas por um trecho em silêncio.
Os passos da jovem eram leves, incertos.
Os da governanta, firmes, inevitáveis.

Ao passarem por uma curva mais estreita do corredor, Lucia lançou um olhar rápido para uma porta entreaberta.

Helena percebeu.

— Aquilo não faz parte do seu percurso.

Lucia apressou-se em desviar o olhar.
— Sim, senhora.

Mas algo já havia sido registrado.

Helena parou diante de uma porta simples.
Abriu-a com uma das chaves.

— Este é o seu aposento.

O quarto era pequeno, porém organizado com rigor.
Uma cama estreita.
Uma janela alta.
Um armário antigo.

Nada fora do lugar.
Nada além do necessário.

— Aqui, tudo permanece como deve — disse Helena.

Lucia assentiu.
Mas seus olhos percorriam o espaço com curiosidade contida.

— Senhora… — hesitou.
— Sim.

— Aquela porta… no corredor…

Helena não respondeu imediatamente.
Fechou a porta atrás de si com suavidade.

O som do encaixe foi definitivo.

— Há portas nesta casa que não pertencem àqueles que chegam — disse, por fim.

Lucia engoliu em seco.

— E pertencem a quem?

Helena sustentou o olhar da jovem.

— Ao tempo.

O silêncio que seguiu não foi confortável.

Lucia desviou os olhos.
— Entendo.

Mas não entendia.

Helena aproximou-se da janela e puxou levemente a cortina.
Lá fora, a noite já havia tomado completamente o jardim.

— A senhorita fará bem em dormir — disse.
— Sim, senhora.

Helena dirigiu-se à porta.
Antes de sair, voltou-se mais uma vez.

— E não caminhe pela casa sem orientação.

— Não caminharei.

Helena saiu.
Trancou a porta por fora.

O clique da chave foi seco.

Lucia permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois caminhou até a porta.
Tentou girar a maçaneta.

Nada.

Respirou fundo.
Não era medo.
Ainda não.

Mas também não era apenas desconforto.

Havia algo mais.

Do outro lado do corredor, distante, um leve som ecoou.

Não era passo.
Não era voz.

Era… movimento.

Lucia recuou.

Sentou-se na cama.

Seus olhos permaneceram fixos na porta.

Como se esperasse que algo — ou alguém — resolvesse atravessá-la.


Enquanto isso, no corredor principal, Helena seguia seu percurso.

Parou diante da escada.

Ergueu os olhos para o andar superior.

Nada se movia.

Mas ela sabia.

Subiu.

Os degraus rangiam sob seu peso controlado.

No topo, o ar parecia diferente.
Mais denso.
Mais antigo.

Ela caminhou até uma porta maior, isolada das demais.

Ali, o molho de chaves em sua mão tornou-se mais pesado.

Escolheu uma delas.

Hesitou.

Por um instante — raro — sua mão não obedeceu imediatamente.

Então inseriu a chave.

Girou.

A porta se abriu apenas o suficiente para permitir sua entrada.

O interior permanecia na penumbra.

Um cheiro leve de perfume antigo ainda persistia.

— Senhora — disse Helena, com voz baixa.

Nenhuma resposta.

Mas um movimento sutil ocorreu na escuridão.

Como se alguém tivesse apenas mudado o peso do próprio corpo.

Helena não avançou mais.

— Temos visitas.

O silêncio permaneceu.

Mas não era vazio.

Nunca era.

Ela fechou a porta novamente.
Trancou.

Permaneceu alguns segundos parada diante dela.

Como quem vigia não o que está fora — mas o que permanece dentro.

Depois, virou-se.

E desceu a escada.

As chaves voltaram a soar em sua mão.

Agora, porém, com um leve descompasso.

Como se, pela primeira vez em muito tempo, não respondessem apenas a ela.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 4