Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 12/14)

Posted in Sem categoria on 4 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Sugestão musical: Claudio Monteverdi — Lamento della Ninfa

Æsthesis – Lamento della ninfa (Clip officiel)


(Betto Gasparetto)

Capítulo 12 — O Retrato Velado

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No canto do salão havia um retrato coberto por um pano claro. A visita o observou por alguns instantes, como quem reconhece um objeto íntimo sem se permitir nomeá-lo.

— Ainda o mantém coberto — disse.

— Nunca soube se era devoção ou castigo — respondeu a outra voz.

Levantou-se, então, e retirou o véu.

Sob o tecido, revelou-se uma pintura feita anos antes: uma paisagem com canal, varanda e um céu de primavera. Não havia figuras humanas, mas havia, sobre a grade de ferro, duas taças. Era um retrato sem corpos e, por isso, mais doloroso do que se mostrasse rostos.

A visita aproximou-se com visível abalo.

— Eu me lembro deste dia.

— Eu também. Por isso o cobri.

O silêncio que se seguiu tinha qualquer coisa de litúrgico. Como se o quadro não representasse apenas uma lembrança, mas a prova material de que um tempo inteiro existira e fora real, apesar do que o sofrimento posterior tentara fazer parecer.

— Eu devia ter voltado antes do inverno daquele ano — disse a visita.

— Devia — respondeu a outra voz. — E eu devia ter deixado de esperar como se a espera fosse uma virtude.

Os olhos encontraram-se outra vez, mas dessa vez com menos dureza e mais exaustão. A exaustão é, às vezes, o primeiro terreno possível para a compaixão.

— E agora? — perguntou a visita, com simplicidade.

A resposta demorou, porque não dizia respeito apenas ao dia, nem à semana, nem à presença na casa.

— Agora eu não quero mais viver cercado de coisas cobertas — veio enfim a resposta. — Nem retratos, nem cartas, nem verdades.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 13

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 11/14)

Posted in Sem categoria on 3 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Sugestão musical: John Dowland — Flow My Tears

Flow my tears – Fiona Campbell


(Betto Gasparetto)

Capítulo 11 — O Salão das Janelas Fechadas

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Ainda pela manhã, recolheram-se para um pequeno salão lateral, mais íntimo do que o grande aposento da noite anterior. As janelas estavam fechadas contra o frio, e sobre uma mesa oval repousavam uma bandeja de café, pão morno, frutas conservadas e um vaso com ramos secos de inverno. As paredes, revestidas de madeira escura, sustentavam quadros discretos: naturezas-mortas, uma paisagem marítima, um retrato antigo quase desbotado.

Havia ali um calor mais humano. Menos teatral. Menos sujeito ao peso da memória pública da casa.

A visita tomou a xícara, mas não bebeu de imediato.

— Quando parti — começou — acreditei estar me afastando apenas de um conflito passageiro. Um ou dois meses, pensei. Talvez uma estação. Encontraria meios, resolveria o que me exigiam, voltaria com a dignidade inteira.

A outra presença nada disse. Apenas escutou.

— Mas tudo se desfez em sequência. O contrato foi rompido. O homem que me fizera promessas morreu devendo mais do que possuía. A casa onde me hospedava foi vendida. Depois veio a doença. E, quando por fim pude ter alguma liberdade, eu já não tinha rosto para bater a esta porta.

A xícara foi enfim pousada.

— Diga a verdade inteira — respondeu a voz que escutava. — Não foi só a pobreza que o manteve longe.

A visita ergueu os olhos.

— Não. Foi também o medo de encontrá-lo curado de mim.

A resposta permaneceu no ar com uma intensidade quase insuportável.

A luz que entrava pelas frestas das cortinas desenhou faixas pálidas sobre o chão. Do lado de fora, alguém atravessou o corredor. O mundo continuava. Mas naquele pequeno salão, duas vidas começavam a revisar a própria ruína sem a máscara da retórica.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 12

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 10/14)

Posted in Sem categoria on 2 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Sugestão musical: Guillaume de Machaut — Douce dame jolie

Guillaume de Machaut: Douce Dame Jolie | La Morra


(Betto Gasparetto)

Capítulo 10 — As Cartas Que Não Chegaram

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Um vento leve atravessou a varanda, trazendo consigo o rumor seco de folhas no caminho lateral. De algum lugar da casa vinha o som abafado de porcelana sendo posta sobre bandejas. A manhã avançava com aquela lentidão cerimonial própria das residências antigas, onde cada gesto parecia carregar consigo o eco de gerações.

A voz da casa permaneceu voltada para o canal, como se falasse à água.

— Houve cartas — disse. — Poucas. Frias. Breves demais. Em algumas, mal se reconhecia quem escrevia. Em outras, reconhecia-se apenas o cuidado de não dizer.

A visita ergueu o rosto devagar.

— Eu escrevi outras.

Agora foi o olhar que se voltou com espanto.

— Outras?

— Sim. Algumas longas. Algumas indecorosas em sua franqueza. Algumas em noites tão ruins que eu as teria confiado ao próprio fogo se não houvesse acreditado, por um momento, que ainda poderiam salvá-lo de me odiar.

— Nunca chegaram.

O canal pareceu escurecer por um instante, embora o céu permanecesse claro.

A visita passou a mão pelos cabelos com cansaço.

— Então alguém as reteve.

A frase caiu entre os dois com uma gravidade nova. Porque o dano, quando vinha do abandono, podia ser lamentado. Mas quando vinha da intervenção de mãos alheias, tornava-se quase uma profanação.

— Havia interesses demais em nossa distância — disse a voz da casa, baixando enfim o orgulho suficiente para nomear o que antes apenas suspeitava. — Havia olhos atentos demais à ordem desta propriedade, às conveniências dos parentes, à expectativa dos nomes, dos acordos, das heranças.

A visita fechou a mão sobre a grade da cadeira.

— Eu fui fraco diante deles.

— E eu fui orgulhoso demais diante da dor.

Pela primeira vez desde o reencontro, a culpa não foi lançada como arma. Foi depositada como pedra comum, diante da qual ambos se reconheceram igualmente feridos.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 11

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 9/14)

Posted in Sem categoria on 1 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Sugestão musical: Hildegard von Bingen — O vis aeternitatis

Azam Ali -Azam Ali- O Vis Aeternitatis (12th century by Hildegard Von Bingen)


(Betto Gasparetto)

Capítulo 9 — A Água Que Nada Esquece

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A varanda era um dos lugares mais silenciosos da propriedade. Dali avistava-se o canal estreito, margeado por pedras antigas, juncos ressequidos pelo inverno e algumas árvores cujos galhos, quase nus, lançavam sobre a água reflexos finos e trêmulos. No verão, barcas pequenas costumavam passar lentamente; no outono, folhas boiavam em fileiras; no inverno, como agora, a superfície parecia um espelho cansado, imóvel demais para ser inteiramente vivo.

Havia sobre a varanda duas cadeiras de ferro trabalhado, uma pequena mesa redonda e vasos de terracota onde, apesar do frio, sobreviviam ervas miúdas e resistentes. O cheiro da manhã era uma mistura de água fria, pedra úmida, lavanda seca vinda do interior da casa e lenha distante.

Sentaram-se.

A proximidade física era pequena, mas suficiente para tornar impossível qualquer neutralidade. O que os separava não era mais a distância; era o que a distância fizera deles.

— Eu me lembrava deste canal mais largo — disse a visita.

— As coisas vistas na juventude parecem maiores — respondeu a outra voz. — Sobretudo quando ainda não conhecemos a medida das perdas.

O canal refletiu um rasgo de luz entre nuvens. Um pássaro passou rente à água e desapareceu entre os juncos.

— Voltei pela estrada do sul — disse a visita, depois de uma pausa. — Passei por pontes quebradas, pousos miseráveis, igrejas vazias, cidades onde ninguém conhece o rosto de ninguém. Em algumas achei que ficaria. Em nenhuma consegui respirar por muito tempo.

— E por que não escreveu com verdade? — veio a pergunta, firme, sem elevação.

A visita pousou as mãos sobre os joelhos.

— Porque a vergonha fala antes da coragem. Porque o fracasso, quando ainda está aberto, prefere o disfarce à confissão. Porque eu não queria voltar menor do que parti.

— E voltou?

O silêncio respondeu antes da boca.

— Sim.

A sinceridade, nua assim, não tinha beleza. Tinha peso. E justamente por isso começou a abrir um caminho que as desculpas jamais abririam.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 8/14)

Posted in Sem categoria on 30 de abril de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente

Sugestão musical: Canto Ambrosiano — Veni Redemptor Gentium


(Betto Gasparetto)

Capítulo 8 — A Manhã Depois do Retorno

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A manhã seguinte não trouxe paz; trouxe claridade.
E às vezes a claridade é mais severa do que a própria noite, porque obriga as coisas a mostrarem seus contornos verdadeiros.

A casa despertou lentamente, como se cada parede pressentisse que algo delicado se movia no interior de sua ordem antiga. Criados atravessaram os corredores em passos medidos, reacenderam brasas, abriram algumas janelas altas, recolheram a prata da ceia tardia e, sem dizer palavra sobre o hóspede inesperado, deixaram que o silêncio cumprisse a etiqueta que a surpresa exigia.

No grande salão, as cortinas de vinho já não pareciam tão densas. A luz pálida do inverno atravessava o tecido grosso e depositava no chão reflexos escurecidos, como se a manhã ainda hesitasse em entrar por completo. Sobre a mesa, algumas taças vazias permaneciam como testemunhas de um diálogo inacabado.

Quem passara a noite na casa, mas não no quarto outrora imaginado, levantou-se cedo demais. O aposento que lhe haviam preparado ficava voltado para o leste, e pela janela via-se o jardim endurecido pelo frio, os ciprestes rígidos e, além do muro, a linha distante de um canal estreito que durante anos servira mais à contemplação do que ao trajeto.

Vestiu-se com sobriedade. Casaco de lã escura, camisa clara, punhos austeros, botas limpas da lama da véspera. No espelho do quarto, o rosto pareceu mais cansado do que na noite anterior, porque o amanhecer tem o hábito cruel de retirar da emoção o véu da sombra.

No outro lado da casa, quem sempre ali permanecera também não dormira como deveria. Havia nos olhos um brilho de vigília e de cálculo, como se toda a alma houvesse passado a noite rearranjando lembranças, frases, culpas e cautelas. Um vestido de tom azul profundo substituíra o veludo escuro da noite anterior; os cabelos, presos com rigor, deixavam escapar apenas alguns fios junto à nuca, traindo o estado interior que a postura pretendia governar.

Desceram quase ao mesmo tempo, mas por escadas diferentes, e encontraram-se não no salão, mas na varanda voltada para o canal.

O ar era frio.
O céu, branco.
A água, quase imóvel.

Por um momento, nenhum dos dois falou. A paisagem parecia exigir uma solenidade própria, como se a manhã soubesse que a conversa daquele dia não podia mais esconder-se sob o amparo das velas.

— Não se vai embora cedo — disse a voz da casa, apoiando a mão na grade de ferro.

— Ainda não fui autorizado a partir — respondeu a visita, com uma gravidade discreta.

A resposta quase provocou um sorriso. Quase.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 9