Rascunhos Cotidianos – 002

Posted in Sem categoria on 13 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

02 — Quando a Vida Pede Menos de Nós

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Quando carregar demais vira costume

Nem sempre percebemos quando começamos a assumir mais do que conseguimos sustentar. Aceitamos compromissos, acumulamos responsabilidades e tentamos atender às expectativas de todos. Depois de algum tempo, o cansaço passa a parecer normal.

O problema não está apenas na quantidade de tarefas, mas na sensação de que precisamos dar conta de tudo. Descansar provoca culpa, recusar um pedido parece egoísmo e diminuir o ritmo soa como fracasso. Assim, continuamos mesmo quando nosso corpo e nossa mente já pedem espaço.

Escolher também significa recusar

Toda escolha ocupa tempo e energia. Quando dizemos sim para alguma coisa, estamos deixando menos espaço para outra. Por isso, aprender a escolher também envolve reconhecer aquilo que não podemos ou não queremos assumir.

Recusar um convite, adiar um compromisso ou admitir que não conseguimos fazer tudo não diminui nosso valor. Existem limites que não representam fraqueza; apenas mostram que nosso tempo e nossa disposição não são infinitos.

Dizer não algumas vezes permite que nossos outros “sins” sejam mais verdadeiros.

O relógio dos outros

Grande parte da ansiedade nasce da comparação. Observamos pessoas avançando profissionalmente, viajando, estudando, comprando, realizando projetos e parecendo sempre alguns passos à nossa frente. Sem perceber, começamos a medir nossa vida pelo ritmo delas.

Mas ninguém vive exatamente nas mesmas condições. Cada pessoa possui responsabilidades, oportunidades, dificuldades e desejos diferentes. Tentar acompanhar o relógio dos outros pode nos afastar daquilo que realmente importa para nós.

O antigo provérbio “devagar se vai ao longe” continua simples e atual. Nem todo avanço precisa ser rápido para ser verdadeiro.

O espaço que aparece quando diminuímos

Reduzir o ritmo não significa abandonar responsabilidades. Significa perceber quais delas realmente precisam de nós e quais foram acumuladas apenas por hábito, pressão ou medo de decepcionar alguém.

Quando retiramos alguns excessos, pequenas coisas voltam a aparecer. Uma refeição sem pressa, uma conversa tranquila, algumas horas de descanso ou simplesmente um período sem obrigação deixam de parecer perda de tempo.

A vida não precisa estar permanentemente cheia para ter valor.

Quando aquilo que temos começa a bastar

Passamos muito tempo pensando no próximo objetivo. Sempre existe algo para melhorar, conquistar ou alcançar. O desejo de crescer pode nos movimentar, mas também pode criar a impressão de que o presente nunca é suficiente.

Reconhecer o que já temos não significa desistir de novos projetos. Significa não adiar toda satisfação para uma conquista futura.

Há momentos em que a vida não pede mais esforço, velocidade ou resultados. Pede apenas que diminuamos um pouco o peso que colocamos sobre nós e percebamos que viver bem também pode significar precisar de menos.

(Betto Gasparetto – 2010-2015)

Nota de inspiração literária

Reflexão livre a partir de temas relacionados ao tempo, às escolhas e às exigências da vida presentes na obra de José Saramago. A aproximação é apenas temática. O texto é integralmente original e não reproduz trechos do escritor.

Rascunhos Cotidianos – 001

Posted in Sem categoria on 12 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

01 — Aquilo que Guardamos em Silêncio

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O que nunca chegou a ser dito

Todos guardamos palavras que não encontramos coragem, oportunidade ou necessidade de dizer. Pode ser um pedido de desculpas, uma gratidão, uma mágoa ou simplesmente algo que sentimos e não conseguimos explicar naquele momento.

Nem todo silêncio nasce do medo. Às vezes, ainda não entendíamos o que estava acontecendo dentro de nós. Em outras situações, percebemos que falar poderia aumentar um conflito. Fizemos o que conseguíamos com a maturidade e os recursos que tínhamos naquela época.

O silêncio também guarda memória

A memória conserva mais do que acontecimentos. Guardamos um olhar, o jeito de alguém falar, uma despedida, uma conversa interrompida ou uma situação que parecia comum e depois ganhou outro significado.

Com os anos, essas lembranças também mudam. Aquilo que parecia enorme pode perder importância, enquanto um pequeno gesto pode adquirir um valor que antes não percebíamos. O passado continua o mesmo, mas nós já não somos as mesmas pessoas que o viveram.

As versões de nós que escondemos

Existem partes da nossa história que poucas pessoas conhecem. Medos, inseguranças e momentos difíceis muitas vezes ficaram escondidos atrás da aparência de que estava tudo bem.

Quando olhamos para trás, é fácil julgar quem fomos. Perguntamos por que demoramos tanto para tomar determinada decisão ou por que aceitamos situações que hoje não aceitaríamos. Mas existe uma diferença importante: naquela época, ainda não sabíamos aquilo que a própria vida nos ensinaria depois.

Reconhecer nossos erros é necessário. Transformar o passado numa acusação permanente contra nós mesmos, não.

Nem todo silêncio precisa ser quebrado

Algumas conversas ainda merecem acontecer. Um agradecimento pode ser feito, uma desculpa pode ser oferecida e uma palavra de carinho não precisa esperar por uma ocasião especial.

Outros silêncios, porém, podem permanecer onde estão. Nem toda história precisa ser reaberta, nem toda discussão merece uma continuação. Há momentos em que falar aproxima; em outros, apenas devolve vida a conflitos que já perderam sua importância.

Saber a diferença também faz parte do amadurecimento.

Aprender a tratar o que sentimos com delicadeza

Não precisamos contar tudo a todos, mas também não precisamos esconder tudo de todos. Ter alguém com quem possamos conversar sem representar força o tempo inteiro pode tornar mais leve aquilo que carregamos.

Algumas coisas encontrarão palavras. Outras permanecerão como lembranças de uma pessoa, de uma época ou de quem fomos. O mais importante é que aquilo que guardamos em silêncio não continue governando nossa vida.

Podemos reconhecer nossa história sem viver presos a ela. Quando aprendemos a olhar para o passado com mais compreensão e menos dureza, o silêncio deixa de ser apenas esconderijo e pode finalmente tornar-se paz.

(Betto Gasparetto – 2010-2015)

Nota de inspiração literária

Reflexão livre a partir de temas ligados à interioridade, à memória e às diferentes dimensões da identidade presentes na obra de Fernando Pessoa. A aproximação é apenas temática. O texto é integralmente original e não reproduz trechos do escritor.

Aos Meus Amados e Inesquecíveis Pais

Posted in Sem categoria on 11 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Monólogo: O Colo que o Tempo Não Levou

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Pai, preciso tanto dos teus conselhos,
Da tua voz dizendo para eu não temer,
Quero sentar outra vez ao teu lado,
Ouvir aquelas histórias até anoitecer.
Hoje procuro respostas no silêncio,
Nas coisas simples que aprendi de ti,
E quanto mais caminho pela vida,
Mais compreendo o que deixaste em mim.

Mãe, preciso tanto do teu colo,
Das tuas mãos amparando o meu viver,
Das palavras que acalmavam minhas dores,
Quando eu nem sabia o que fazer.
Tuas bênçãos ainda florescem meus caminhos,
Teu carinho permanece onde eu for,
E há dias em que fecho os meus olhos
Só para sentir novamente o teu amor.

Pai, mãe, meus amores para sempre,
Minha saudade não aprendeu a partir,
Hoje eu choro pelo que não pude dar,
Por tudo aquilo que eu devia ter feito aqui.
Se eu pudesse voltar por um instante,
Daria mais de mim, sem nada pedir,
Abraçaria vocês por muito mais tempo,
Antes que o tempo mandasse seguir.

Benditas são as palavras que ficaram,
Pequenos conselhos que hoje sei entender,
Naquele tempo pareciam tão comuns,
Hoje são tesouros que me fazem viver.
Como sorrir sem pensar tantas vezes
Que eu poderia ter contribuído mais?
A vida ensina tarde certas coisas,
E o coração não volta nunca atrás.

Mas agradeço por terem sido meus amores,
Minha razão de levantar e prosseguir,
Tudo de bom que ainda existe em mim
Tem um pouco de vocês dentro de si.
E quando a saudade aperta o peito,
Converso em silêncio como fazia antes,
Conto meus medos, minhas alegrias,
E por alguns segundos não estamos distantes.

Pai, ainda preciso dos teus conselhos,
Mãe, ainda preciso do teu colo também,
Guardo cada história, cada palavra,
Como quem guarda o que mais quer bem.
Sei que um dia vamos nos encontrar,
E sinto que esse dia há de chegar,
Então direi tudo que ficou no peito:
Eu amo vocês… e nunca deixei de amar.

Te amo, pai.
Te amo, mãe.

(Betto Gasparetto – 2026)

Réquiem aos Fragmentos Humanos (10/10)

Posted in Sem categoria on 10 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 18 – Restos de Silêncio

10. A Última Miséria do Homem

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Depois de observar durante anos as pequenas crueldades praticadas diariamente, concluí que a maior miséria humana talvez não esteja naquilo que possuímos, nem na posição que ocupamos, nem mesmo nos erros inevitáveis que cometemos, mas na capacidade de reconhecer o sofrimento causado e permanecer indiferentes. O homem inventa justificativas com extraordinária competência quando necessita continuar admirando a própria imagem depois de ter destruído alguma confiança; chama abandono de necessidade, covardia de prudência, egoísmo de liberdade e transforma suas conveniências em argumentos suficientemente nobres para dormir.

Também fizeram isso comigo quando meu amor já não oferecia novidade, e ouvi explicações tão cuidadosamente organizadas que quase admirei sua arquitetura; faltava apenas aquilo que nenhuma eloquência consegue fabricar artificialmente: a consideração por alguém que havia compartilhado sinceramente uma parte da vida.

Não odeio quem partiu, porque o ódio ainda exige uma proximidade demasiada, as desprezo profundamente a maneira como certas pessoas atravessam existências, deixando feridas que poderiam evitar com uma palavra simples e verdadeira e depois reclamando da frieza de um mundo que ajudaram diariamente a construir.

Talvez nossa última pobreza seja exatamente essa contradição persistente: queremos receber uma humanidade que frequentemente recusamos oferecer, exigimos fidelidade enquanto negociamos princípios conforme as circunstâncias e pedimos compreensão para erros que jamais perdoaríamos se fossem cometidos contra nós.

Por isso já não procuro perfeição em ninguém, pois seria desejar o impossível, mas ainda espero encontrar pessoas que sintam algum desconforto diante da injustiça, que conservem vergonha suficiente para corrigir aquilo que fizeram de indigno e não precisem diminuir outro ser humano para acreditar que possuem algum valor.

Se ainda houver grandeza possível dentro desta criatura contraditória chamada homem, ela talvez comece quando ele conseguir olhar demoradamente para o próprio espelho, sem adornar suas intenções, sem absolver previamente suas escolhas e sem fugir da miserabilidade que tanto condena nos outros enquanto silenciosamente alimenta em si.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)

Réquiem aos Fragmentos Humanos (09/10)

Posted in Sem categoria on 9 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 09 – Contrato Sombrio

9. O Amor Depois do Nojo

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Durante muito tempo pensei que o contrário do amor fosse simplesmente o ódio, até descobrir que existe algo muito mais definitivo chamado repugnância, quando já não desejamos discutir, convencer, recuperar ou compreender alguém, porque até sua lembrança parece carregar o odor moral daquilo que nos feriu.

Cheguei lentamente a esse lugar depois de inúmeras justificativas concedidas, pois quem ama costuma fabricar inocências para os erros daquele que escolheu; transformamos egoísmo em distração, mentira em medo, desprezo em cansaço e continuamos reformando explicações até não restar verdade dentro delas.

Quando finalmente compreendi aquilo que meus olhos recusavam reconhecer, não senti a liberdade gloriosa que tantas histórias prometem depois das despedidas; senti somente uma tristeza espessa, quase física, acompanhada daquela ojeriza de perceber quanto tempo ofereci a alguém que conhecia perfeitamente minha dor.

Ainda assim, não me arrependo completamente de ter amado daquela maneira, porque seria uma segunda derrota permitir que a indignidade alheia modificasse a parte de mim que acreditava na possibilidade de oferecer afeto sem cálculo e receber ao menos   honestidade necessária para terminar aquilo que acabou.

Hoje caminho sem aquela pessoa e também sem algumas antigas ilusões, mais pobre de esperança, talvez, porém menos disposto a aceitar falsificações; há amores cuja única herança digna é ensinar-nos que nenhuma companhia merece o preço de suportarmos diariamente aquilo que intimamente repudiamos.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)